No campo de batalha da internet os negócios é que precisam mudar

Como nos jornais, as postagens também precisam de ética

O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2012 | 02h04

Você está lendo esta coluna num vazio ético? Ou num jornal virtuoso? A descrição da internet dada pelo juiz da Suprema Corte britânica Lord Leveson como um "vazio ético" é um dos poucos equívocos em seu alentado relatório sobre a situação da "imprensa" britânica, como nós ainda a chamamos, no linguajar de Gutenberg. Pois a internet não é um vazio ético; é um campo de batalha ético. Em todas as suas vastas estepes virtuais trava-se hoje uma das maiores lutas pelo poder do nosso tempo.

O destino dos regimes autoritários, como a China, e portanto, o futuro da liberdade, dependerá do seu resultado.

Nesse contexto, a pequena batalha local da Grã-Bretanha em torno dos pacotes de papel dobrado que multidões cada vez menores de idosos compram num lugar bizarro chamado banca de jornal, pode parecer algo como um episódio de Dad's Army, o antigo seriado da televisão britânica, adorado pelos ingleses e ambientado na 2.ª Guerra. Mas vê-la desta maneira ("em todo caso, está tudo na internet") está errado. E também oferece aos tabloides como The Sun, de Rupert Murdoch, uma desculpa hipócrita para continuarem com seu comportamento reprovável. Como observa Leveson, o Sun justificou a publicação de fotos do príncipe Harry brincando nu em Las Vegas anunciando numa manchete que, enquanto ele fazia isso, "Nós lutamos pela liberdade de imprensa". Se houvesse um Prêmio Nobel da mentira, o Sun certamente o ganharia.

Essencialmente, a ética do bom jornalismo, e os princípios éticos adotados independentemente por um veículo de comunicação, devem e podem ser a mesma coisa tanto para a internet quanto para a imprensa escrita.

Afinal, por que as palavras que você está lendo neste momento deveriam ser analisadas, verificadas ou tratadas de maneira diferente somente em razão da forma material na qual você as lê? Evidentemente, a internet lançou novos desafios. Alguns estão sendo combatidos esta semana na Conferência Mundial sobre Tecnologia da Informação organizada pela União Internacional das Telecomunicações, um organismo da ONU, em Dubai, Emirados Árabes Unidos. A federação de emirados do Golfo emitiu recentemente um decreto que pune com pelo menos 3 anos de prisão o uso de um site ou de qualquer outro veículo da tecnologia da informação "para zombar ou ferir a reputação ou a dignidade do Estado ou de qualquer uma de suas instituições", e estas "instituições" incluem os governantes dos emirados, seus príncipes e outros dirigentes.

Portanto, é exatamente o lugar para a realização de uma conferência sobre a regulamentação da internet.

A grande questão discutida em Dubai é saber se os governos, também os autoritários, conseguirão exercer um controle maior sobre a internet que ainda carrega amplas características de suas origens na liberdade de expressão americana. Surgem de várias partes as tentativas de fazer com que buscadores como o Google, redes sociais como o Facebook, e sites de microblog como o Twitter, possam ser responsabilizados como se fossem editoras de jornais por aquilo que os usuários - vocês, eu, dissidentes que usam pseudônimos, idiotas anônimos e, mais recentemente, o papa (cujo nome no Twitter é @Pontifex) - postam online. Manter-se firmes contra quaisquer outras versões importunas do que chamamos "responsabilidade intermediária" é vital para o futuro da futura liberdade de expressão.

Há ainda a questão da necessidade de se responsabilizar blogueiros e tuiteiros pelas coisas grosseiras, de mau gosto ou equivocadas que dizem no calor do tuíte. O ex-tesoureiro do Partido Conservador da Grã-Bretanha, Lord McAlpine, que atualmente está processando centenas de usuários do Twitter por espalhar uma sugestão equivocada e difamatória de que ele teria abusado sexualmente de crianças, está testando este aspecto da lei britânica. Mas além, ou ao lado, da lei há uma quantidade de questões relativas a como devemos falar online, e como deveríamos reagir à estupidez, por exemplo, de tuítes racistas de um nível infantil.

Trata-se de questões realmente novas, complexas e difíceis. Mas, curiosamente, aquelas sobre as quais a internet menos influi são as que se referem à ética do jornalismo. (A ética, enfatizo, e não o modelo de negócio.) O que em 1962 era considerado bom jornalismo, em 2012 continua sendo bom jornalismo. O que era jornalismo torpe naquela época continua sendo jornalismo torpe hoje.

A enorme quantidade de conteúdo editorial que The Guardian ou a BBC colocam online a cada hora, e a velocidade com que o fazem, torna mais difícil um controle da qualidade. As regras do jogo aplicáveis aos comentários dos leitores online obviamente são diferentes daquelas da carta do leitor tradicional na página impressa. Entretanto, essencialmente, os mesmos padrões éticos deveriam se aplicar a todo tipo de jornalismo pelo qual o que chamamos ainda de "o jornal" arca com a responsabilidade editorial. O caso WikiLeaks de telegramas diplomáticos americanos foi uma nova maneira de obter informações por meio de vazamentos, possibilitada pela internet, mas as normas editoriais de New York Times, Le Monde e Guardian aplicadas a ela foram exatamente as mesmas que se aplicariam às fitas do escândalo Watergate, aos papéis do Pentágono ou mesmo o Telegrama de Zimmermann em 1917.

Como Leveson destaca, o Mail Online, um dos sites de jornais mais visitados do mundo, compromete-se voluntariamente a observar o Código da Prática dos Editores da Comissão de Reclamações contra a Imprensa (PCC), hoje desacreditada, da Grã-Bretanha. O Huffington Post UK que só circula online também é membro da PCC. Sim, eu sei, a comissão está quase completamente desprestigiada. Mas se a Grã-Bretanha agora tem uma entidade independente que regula "a imprensa", não há nenhuma razão para que os jornais online, grandes e pequenos, não devam se ater às suas normas e procedimentos - e desfrutar das vantagens legais e financeiras que ela promete.

Em suma, a internet não é um "vazio ético" mais do que o jornal.

Talvez seja mais fácil colocar lixo tóxico online, mas ali também existem novas oportunidades para fazer um grande jornalismo. O problema concreto que a internet coloca no caso não é a ética, mas o dinheiro.

Como ganhar dinheiro suficiente para bancar um jornalismo e uma análise de grande qualidade, principalmente um jornalismo de reportagens no exterior, em que "os comentários são grátis, mas os fatos custam"? Esta é a questão. Mas, felizmente, como eu também estou escrevendo esta coluna para a antiga imprensa escrita, onde os limites precisos da palavra são ditados pelos centímetros disponíveis numa página física, fiquei sem espaço para dar a resposta que não tenho. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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