No caso da Índia, problemas à frente

Tratamento dado pelo governo americano ao novo primeiro-ministro do país asiático precisa de mudanças radicais para restabelecer a confiança

Fareed Zakaria*, The Washington Post/O Estado de S.Paulo

19 Maio 2014 | 02h08

O plano de um "pivô para a Ásia" do presidente americano, Barack Obama, foi muito elogiado. Mas muitos críticos gostariam que o presidente aplicasse mais energia e ação nessa iniciativa. Na verdade, o governo tem a oportunidade de integrar nela uma das grandes peças esquecidas - uma relação estratégica com o segundo maior país do continente, a Índia - com a vinda de um novo governo a Nova Délhi. Mas isto exigirá que ambos os países realizem algumas mudanças importantes.

O obstáculo imediato para os Estados Unidos é que o político que deve se tornar o próximo premiê da Índia, Narendra Modi, foi colocado numa espécie de lista negra pelo governo de George W. Bush, teve recusado um visto para entrar nos Estados Unidos e tem sido rejeitado pelas autoridades americanas há uma década.

Esse ostracismo deve terminar. O tratamento dispensado a Modi tem sido discriminatório, arbitrário e excessivo. Modi, político nacionalista hindu, é chefe de governo do Estado de Gujarat. Assumiu o posto em 2001 quando confrontos violentos eclodiram entre hindus e muçulmanos.

Alegou-se que ele encorajou - ou nada fez para conter - a violência contra muçulmanos e a cumplicidade da polícia. Mil pessoas, quase todas muçulmanas, morreram. Foram mínimos os processos abertos contra os acusados pela morte dos muçulmanos.

Esse é um episódio sombrio na história da Índia e Modi teve sua reputação manchada como chefe de governo na época. Mas seu papel na verdade continua impreciso. Três investigações realizadas o isentaram de culpa, embora os procedimentos tenham sido criticados por grupos de direitos humanos.

Esse é um desafio importante para a democracia indiana, que muitos grupos na sociedade civil estão levantando -, mas a questão para os Estados Unidos é: o comportamento de Modi chega ao ponto de se sobrepor aos interesses nacionais? Ele é a única pessoa a ter um visto negado sob alegação de "graves violações de liberdade religiosa", o que faz com que aquela decisão pareça totalmente arbitrária.

Exemplos. Consideremos, por exemplo, o caso de Nouri al-Maliki, primeiro-ministro do Iraque. Ele chefia um governo profundamente sectário, foi acusado de envolvimento com esquadrões da morte, assassinatos em represália e perseguição sistemática de sunitas em seu país. Contudo, longe de ser ignorado, Maliki foi recebido em Washington como convidado de honra em muitas ocasiões por dois governos americanos.

Analisemos os relatórios da Comissão sobre Liberdade Religiosa Internacional dos Estados Unidos, o órgão de fato que segregou Modi.

Ele tem uma lista de países de "especial preocupação" por oprimirem as minorias religiosas. A Arábia Saudita, país cujos líderes desfrutam do mais alto respeito da parte de Washington. O Paquistão está indicado como a "pior situação" no segundo grupo devido à persistente violência contra as minorias, que segundo o relatório chegou a um aumento recorde. O Iraque também está nesse grupo.

Nenhuma autoridade de governo de qualquer desses países jamais foi colocada numa lista negra ou teve negado um visto de entrada nos Estados Unidos por violarem a liberdade religiosa. Quando questões de direitos humanos são usadas de maneira flagrantemente discriminatória, é um convite a acusações de hipocrisia.

Contexto. Nesse caso, como ocorre com frequência, a política externa dos Estados Unidos é culpada mais de incoerência do que de conspiração.

A comissão foi criada em 1998 e estava ansiosa para demonstrar que não iria se concentrar exclusivamente na violência contra os cristãos. Os confrontos em Gujarat ocorreram logo depois e a sua brutalidade - e aparente cumplicidade das autoridades de Estado - atraíram a atenção global.

Audiências foram realizadas e o processo resultou na lista negra e na proibição. Ninguém do alto escalão do governo Bush prestou atenção porque Modi era uma autoridade regional, e provavelmente nunca ocuparia um cargo no plano nacional.

Se os Estados Unidos mudarem a estratégia política nesse caso, Modi terá de superar sua irritação com relação a Washington.

Mais importante, terá de mudar a postura do seu país numa série muito maior de questões. Há vários anos a política externa indiana está sem rumo, a ponto de o país quase desaparecer como uma peça chave importante na região e no mundo.

Isso se deve, em parte, ao fato de o governo anterior ter perdido seu ímpeto, ter avançando de modo atabalhoado em todas as frentes, doméstica e exterior. Mas também porque as elites no poder em Nova Délhi continuam ambivalentes quanto ao tipo de política externa que devem adotar, presas entre seus antigos impulsos terceiro-mundistas, anticolonialistas e as óbvias exigências de uma nova Ásia em que a China surge como potência dominante.

O resultado é que a Índia se afastou do tipo de relacionamento robusto com os Estados Unidos que a ajudaria econômica, militar e politicamente.

Se Índia e Estados Unidos, as mais antigas e maiores democracias do mundo, conseguirem criar uma genuína parceria, isto será bom para a estabilidade asiática, para a prosperidade global e, mais especialmente, para a causa da democracia e dos direitos humanos em todo o mundo.

*Fareed Zakaria é colunista.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.