Olya Morvan/The New York Times
Olya Morvan/The New York Times

No Catar, saúde de falcão é coisa séria

Clínica em Doha oferece de ‘manicure’ com anestesia geral a tratamento de osso quebrado

Tariq Panja / The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2019 | 06h00

DOHA - Assim que a clínica é aberta, os pacientes e seus responsáveis começam a entrar. Na sala de espera, o clima é uma mistura de ansiedade e tédio. Alguns visitantes andam pelos pisos de mármore. Outros se sentam em sofás, folheando distraidamente revistas.

Os mais preocupados pressionam as recepcionistas sobrecarregadas de trabalho, exigindo serem recebidos imediatamente. Os pacientes? Uma dúzia ou mais de falcões. 

Essa é uma manhã como outra qualquer na clínica, o Souq Waqif Falcon Hospital, que, como o nome pouco esconde, é uma instalação inteira dedicada ao tratamento de um membro da família das aves de rapina. Escondido em um canto da praça principal da cidade velha de Doha, o centro histórico onde milhares de torcedores se reuniram para a Copa do Mundo de Clubes da FIFA, há uma instalação médica como poucas.

Dentro de suas paredes - após a minúscula trilha de passos de pássaros marcando a entrada, através das portas de vidro brilhantes que retêm o ar-condicionado, além da sala de espera com os sofás e poleiros cromados e o homem que coleta excrementos de pássaros no chão, caso seja necessário testá-los - nenhuma despesa foi poupada para tratar os falcões em um país que os reverencia como nenhum outro membro do reino animal.

No Catar, como em vários outros países do Golfo, o falcão preenche uma série de papéis, de animal de estimação familiar a símbolo de status para competidores de corridas. Mas os falcões também fornecem um elo importante e valioso à antiga cultura beduína da região.

Hoje, os pássaros mais procurados podem trocar de mãos por alguns milhares de dólares. Os melhores, no entanto, valem alguns milhões para os homens - e são sempre os homens que lidam com os falcões - que investem fortunas em um passatempo que remonta há séculos no país mais rico do mundo.

Mas às vezes esses pássaros são feridos ou ficam doentes. E é por esse motivo que os responsáveis por eles acabam no hospital Souq Waqif Falcon, à espera de sua vez.

Mãos treinadas

Três médicos se amontoaram em torno do paciente. Lâmpadas brilhantes de LED acima de suas cabeças inundavam de luz a mesa de operações. Um raio-X de corpo inteiro brilhava em uma tela em um canto da sala, enquanto um dispositivo monitorando sinais vitais fornecia uma trilha sonora de constantes bipes.

O problema imediato do paciente - um caso agudo de inclinação da cabeça - foi rapidamente identificado. A questão agora era resolver a causa. ferimento? Gripe? Algo pior? O falcão não poderia estar em um lugar melhor para se descobrir o motivo.

Prasoon Ibrahim, de 38 anos, trabalha no hospital há oito anos, mas continua surpreso sempre que pensa nos recursos à sua disposição. Sentado em uma sala de espera movimentada, que poderia passar por qualquer sala de emergência movimentada do mundo, onde todas as pessoas não estivessem sentadas em silêncio com uma ave de rapina presa à mão enluvada, Ibrahim lista rapidamente todas as opções de tratamento e equipamento especial oferecido pelo hospital: exames de sangue e rins; substituições de penas; endoscopias. Falando cada vez mais rápido, ele finalmente faz uma pausa para respirar e diz: “Temos tudo”.

Um indiano do sul, como a maioria dos funcionários do hospital, Ibrahim, que tem doutorado em biologia molecular, trabalhou em um hospital normal antes de assumir seu cargo atual. E, como a maioria de seus colegas, ele disse, jamais havia trabalhado em lugar algum com essa envergadura em tecnologia de ponta que ele agora tem à sua disposição. “No meu laboratório, vi um sequenciador de genes pela primeira vez”, disse ele, arregalando os olhos.

Situada em vários andares, a instalação, subsidiada pelo governante do Catar, trata de cerca de 150 falcões por dia. A maioria das aves vem para exames após serem compradas em muitas lojas que vendem falcões nas proximidades ou para ter o que os funcionários descrevem como um “mani-pedi”, o equivalente a uma manicure na qual bico e garras são afiados sob anestesia geral.

Outros chegam para ter transmissores de rádio e dispositivos GPS instalados para que seus donos possam acompanhar os caros pássaros quando os levam para caçar. Os dispositivos geralmente são fixados às penas da cauda, embora alguns exijam uma cirurgia invasiva de implantação.

O trabalho mais sério - cirurgia ortopédica para reparar ossos quebrados que na natureza representariam morte certa - ocorre em uma unidade de internação alojada em outro andar.

Na área de tratamento geral, que é interditada para qualquer pessoa, exceto membros da equipe e seus pacientes, os técnicos são divididos em seções especializadas, com o espaço central reservado para um grupo de trabalhadores que administram um grupo de computadores.

Eles analisam amostras de sangue e fezes, bem como esfregaços de garganta sob microscópios de alta potência que exibem imagens em telas gigantes. Qualquer coisa desagradável é marcada para a atenção de um punhado de médicos seniores que patrulham a área usando batas verdes.

No outro extremo, outro grupo está ocupado tentando substituir uma pena de cauda que falta em um peregrino de aparência cara. “Para cada espécie, o padrão é diferente e, para cada pena, o padrão é diferente”, disse o técnico Abdul Nasser Parolil. Ele estendeu a mão para abrir um conjunto de gavetas, revelando uma seleção surpreendentemente ampla de penas de comprimentos, cores e padrões variados. “Precisamos encontrar o padrão certo”, disse ele.

Enquanto a seção de Parolil está silenciosa - seu paciente está sob sedação - altos crocitos emanam de outra sala com paredes de vidro. Em um deles, um técnico injetando fluidos sob as asas de um falcão que sofre de desidratação, um problema comum para uma espécie nem sempre adaptada ao calor extremo do Golfo, o que limita a temporada de falcoaria a cerca de quatro meses no inverno.

Muitos funcionários admitem que aprenderam seu ofício na prática; ninguém havia sido treinado para trabalhar com falcões antes de assumir cargos neste hospital ou em instalações semelhantes na Arábia Saudita ou nos Emirados Árabes Unidos. Alguns, como Prasoon, têm formação em saúde. Para outros, o trabalho que realizam tem pouca relação com o que fizeram em sua terra natal antes de serem atraídos para o Golfo pela promessa de salários mais elevados.

Enquanto pedacinhos de poeira voam do bico do falcão-gerifalte, que ele está aparando com uma ferramenta que lembra uma lixadeira elétrica, Jahangir Mohamed explicou que ele era um instrutor de artes marciais em seu estado natal, Kerala, na Índia. Faixa preta de terceiro dan no karatê, ele passou mais de 10 anos no Catar. “Antes, eu não entendia nada”, disse, apontando para Parolil, que estava ocupado focando nas penas do peregrino. “Eu vim para cá e treinei assistindo.”

Um dos homens mais velhos e mais respeitados do hospital é Wilson Joseph, 54 anos, que trabalha há 20 anos com falcões. Ele começou como caixa em uma instalação médica menor na Arábia Saudita. Joseph era advogado criminal na Índia, contou. Jamais havia visto um falcão, muito menos tratou um, antes de vir para o Golfo. “Mas eu queria cuidar da minha família, ganhar mais”, disse ele.

Regras da Casa

Tal como acontece com muitas instituições no Catar, existe uma hierarquia rígida quando se trata da sala de espera do hospital de falcões. Embora exista um sistema de senhas numeradas, existem maneiras de furar a fila: a realeza do Catar que leva seus falcões é tratada como prioridade; depois, os cidadãos do Catar e finalmente estrangeiros, geralmente membros da equipe doméstica do sul da Ásia enviados pelos seus empregadores.

Os caprichos do sistema significam que as esperas podem ser longas. Os atrasos oferecem a chance de trocar fofocas, fazer piadas e geralmente desabafar.

Encostado na janela da farmácia, Shagul Hameed, de 27 anos, que passou cinco anos trabalhando na casa de um membro da família real al-Thani Qatari, explicou como, após algumas dificuldades iniciais, ele se uniu ao falcão do qual cuida. “Veja, ele não me bica mais”, disse ele, tirando o pequeno capuz da cabeça do pássaro e apertando rapidamente seu bico.

Um de seus conhecidos entrou na conversa para falar de seu espanto com a quantidade de dinheiro e tempo que os proprietários estavam dispostos a gastar com seus falcões. Mas o Hameed disse que considerou mais surpreendente foi o carinho que alguns proprietários devotam a seus falcões: o cuidado de milionários e talvez até bilionários, que se levantaram ao amanhecer para acompanhar seus falcões doentes ao hospital.

“Da mesma maneira como cuidam dos filhos, cuidam dos falcões”, disse Hameed, antes de se corrigir. “Na verdade, se o filho estivesse doente, eles mandariam o motorista, a empregada ou a mulher ao médico. Mas se o falcão estiver doente, o homem da casa irá ele mesmo.” /  TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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