Lynsey Addario/The New York Times
Lynsey Addario/The New York Times

No Chile, pílulas anticoncepcionais com defeito dadas pelo governo causam gravidez indesejada

Sistema de saúde pública distribuiu 276.890 pacotes de pílulas anticoncepcionais potencialmente defeituosas; pelo menos 140 mulheres acreditam que engravidaram por causa do erro

Ernesto Londoño, The New York Times

02 de março de 2021 | 15h00

SANTIAGO - Deve haver um engano, pensou Melanie Riffo, olhando incrédula para o resultado de seu teste de gravidez: positivo. Ela vinha tomando pílulas anticoncepcionais regularmente. Ela e o namorado eram cuidadosos. Ele até foi informado por médicos que uma doença de infância poderia tê-lo deixado infértil. “Eu não conseguia entender”, disse Riffo, de 20 anos, sobre o teste que fez em setembro. “Estávamos tomando todas as precauções.”

Em todo o Chile, muitas mulheres como Riffo dizem que engravidaram no ano passado depois de tomar um dos 276.890 pacotes de anticoncepcionais orais fornecidos pelo sistema público de saúde - e mais tarde alertadas discretamente sobre defeitos que os tornariam potencialmente ineficazes.

O fracasso do governo chileno em alertar as mulheres de forma assertiva sobre as falhas nas embalagens de pílulas foi um erro que resultou em pelo menos 140 gravidezes indesejadas, afirmam ativistas. “Nunca vimos uma falha sistêmica tão duradoura quanto no caso do Chile, com consequências tão graves”, disse Paula Ávila-Guillén, diretora executiva do Centro de Igualdade da Mulher, que monitora os direitos reprodutivos na América Latina.

Melanie Riffo, caixa de um restaurante de sushi na cidade de Chillán, não tinha ouvido nada sobre a eficácia dos comprimidos. Ela mora com a mãe, que tem câncer, e estava com seu parceiro há apenas seis meses. A ideia de trazer um filho para sua vida a deixou em pânico.

“Eu não tenho uma carreira, não tenho nada estável, não tenho uma casa onde ele possa estar seguro”, disse ela sobre o bebê. Mas sem uma opção legal - o aborto é permitido no Chile em casos limitados, incluindo estupro ou perigo para a vida da mãe - ela diz que terá o filho.

O caso das embalagens de pílulas defeituosas, exacerbado pela resposta superficial do governo chileno, trouxe o debate sobre os direitos reprodutivos das mulheres e o acesso ao aborto em foco em um ano politicamente decisivo, quando o Chile reformulará sua Constituição.

Assembleia Constituinte em abril

Os eleitores escolherão em abril os membros de uma Assembleia Constituinte que vão redigir uma nova Constituição e, em novembro, votarão em um novo Congresso e em um presidente, em substituição ao conservador e impopular Sebastián Piñera.

“Há uma entidade que é a principal responsável pela distribuição de pílulas anticoncepcionais por meio do sistema de saúde pública e é o Estado chileno”, disse Claudia Mix, uma parlamentar da oposição. “O governo não pode lavar as mãos diante disso.”

Depois que a Argentina legalizou o aborto em janeiro, tornando-se o maior país da América Latina a fazê-lo, as parlamentares do Chile apresentaram um projeto de lei para descriminalizar o procedimento. Os legisladores que apoiam esse projeto pretendem pressionar por um maior acesso ao aborto depois que um novo presidente for eleito em novembro.

O controle da natalidade está cada vez mais disponível na América Latina, e países com sistemas públicos de saúde de qualidade, como o Chile, os fornecem como parte dos cuidados de rotina.

Os primeiros indícios de um problema com as pílulas anticoncepcionais surgiram logo depois que o Chile impôs, em março do ano passado, uma das medidas de bloqueio de coronavírus mais rígidas do mundo. Representantes da Miles, uma organização de direitos reprodutivos em Santiago, a capital, começaram a ligar para profissionais de saúde pública em todo o país para determinar se as medidas de quarentena e os obstáculos da cadeia de abastecimento global estavam afetando a disponibilidade de anticoncepcionais.

Eles ouviram um boato: que as pílulas anticoncepcionais distribuídas pelo governo eram defeituosas, disse Javiera Canales, a diretora executiva da Miles. Depois que a Miles apresentou uma investigação formal a funcionários do governo, o ministério da saúde em 24 de agosto emitiu um recall de 139.160 pacotes de pílulas anticoncepcionais vendidas sob o nome de Anulette CD, que são produzidas pela Silesia e Andrómaco, duas empresas chilenas que pertencem à empresa farmacêutica alemã Grünenthal.

O problema, segundo o ministério da saúde e a Silésia, não eram os comprimidos, mas a embalagem. Como muitas outras pílulas anticoncepcionais orais, os pacotes de Anulette CD incluem 21 pílulas ativas, que são amarelas, e sete pílulas azuis de placebo, que devem ser tomadas durante o período de menstruação da usuária.

Um número indeterminado de pacotes incluía pílulas de placebo nos slots ativos e vice-versa, de acordo com o alerta. Uma semana após o recall inicial, o ministério da saúde emitiu um segundo retirando mais 137.730 pacotes da Anulette. O segundo alerta dizia que alguns dos pacotes continham comprimidos perdidos ou amassados.

Os recalls, divulgados em meio a um surto grave de coronavírus e em um site do governo que o público geralmente não consulta, geraram pouca cobertura. O governo não deu uma entrevista coletiva ou desenvolveu um plano para alertar diretamente as mulheres que tomaram os anticoncepcionais recolhidos.

Marlisett Guisel Rain, 37, mãe de três filhos, estava tomando os comprimidos quando soube que estava grávida. A notícia chegou em um momento desafiador: ela estava se separando do marido e iniciando o terceiro ano do curso superior de administração pública. “Foi muito difícil aceitar a gravidez”, disse Rain. “Eu estava estudando e não tinha um lugar estável para morar.” Rain disse que nunca pensou em fazer um aborto.

“Talvez seja o medo”, disse ela. Mas a gravidez não planejada foi um golpe. “Não acho que as pessoas percebam como é difícil ser mãe para uma mulher que não está pronta. Você tem que se reconstruir completamente.”

O fabricante disse em um comunicado por e-mail que os anticoncepcionais que produziu no ano passado foram eficazes, mas uma falha na produção fez com que alguns comprimidos “se movessem durante o processo de selagem”, o que resultou em cavidades vazias e comprimidos perdidos. Também disse que os profissionais de saúde que distribuem os comprimidos podem “identificar visualmente qualquer anomalia antes de entregar” os pacotes ao usuário.

O fabricante afirmou que “não recebeu nenhum relatório de gravidez” relacionado aos anticoncepcionais recolhidos e que os anticoncepcionais modernos não são infalíveis: “É estatisticamente esperado que três em cada 1.000 mulheres que tomam um anticoncepcional oral combinado - mesmo em circunstâncias ideais - possam ficar grávidas."

O governo chileno anunciou que impôs uma multa de cerca de US$ 92.000 ao fabricante por “problemas de qualidade” identificados nos anticoncepcionais. As empresas continuam a ser o principal fornecedor governamental de pílulas anticoncepcionais.

Mix, a legisladora da oposição, disse que ela e algumas colegas exigiram um relatório do governo sobre o que exatamente deu errado. O resultado ainda não foi apresentado. Miles, o grupo de direitos reprodutivos que identificou 140 mulheres que acreditam ter engravidado enquanto tomavam os anticoncepcionais defeituosos, está planejando processar o governo e as empresas que fabricam os comprimidos nas próximas semanas.

“Isso definitivamente violou o direito que as mulheres têm de decidir quando querem ter um filho”, disse Canales. Ativistas de direitos reprodutivos esperam que o caso chame a atenção para o movimento para ampliar o acesso ao aborto no Chile, que tinha uma proibição total de interrupção da gravidez até 2017.

Independentemente de como esse debate se desenrole, Melanie Riffo disse que o governo tem a responsabilidade de ajudar ela e outras mulheres grávidas que estavam recebendo anticoncepcionais em centros governamentais.

“Pelo menos eles deveriam nos ajudar com a educação da criança, que é muito cara”, disse ela. Como sua barriga cresceu nas últimas semanas, Riffo disse que lutou contra a depressão e a ansiedade graves o suficiente para que lhe receitassem medicamentos e a despedissem do trabalho.

A parte mais difícil, disse ela, é temer um momento com o qual muitas mulheres grávidas sonham. “Não estou ansiosa por seu nascimento como gostaria”, disse ela. “E isso me faz sentir péssima.”

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