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No Chile, projeto de reconstrução frustra vítimas do terremoto

Moradores de Arauco revoltam-se contra plano para construir casas precárias para desabrigados

João Paulo Charleaux, O Estadao de S.Paulo

14 de março de 2010 | 00h00

A solução oferecida para os milhares de desabrigados pelo terremoto do dia 27, no sul do Chile, foi um modelo de casa menor que um barraco de favela no Brasil. A diferença é que em vez do calor tropical, lugares como Constitución, Llico e Arauco registrarão temperaturas negativas em um mês. Falta de luz, réplicas e ameaças de tsunami mantêm em estado de alerta os sobreviventes da tragédia.

 

Acompanhe a cobertura do enviado ao Chile

Os barracos de 18 metros quadrados são construídos em lâminas de pinho e têm teto de zinco. Não têm forro, janela, banheiro ou água. A ONG Um Teto para o Chile recebeu US$ 30 milhões para construir essas "casas", mas moradores de Arauco rebelaram-se contra o projeto, um dia depois de o presidente Sebastián Piñera assumir o poder. "A reconstrução do país não pode estar fundamentada sobre esses barracos", diz o prefeito da cidade, Mauricio Alarcón.

A reportagem do Estado visitou a favela de Fresia, em Arauco, que cresceu ao redor de 18 casas de pinho erguidas pela mesma ONG há cinco anos. O chão da favela tem uma rachadura, provocada pelo tremor do dia 27 e os moradores do local buscam nos bosques nascentes de água para beber. Muitos estão há semanas nas montanhas, dormindo no chão com medo de um novo avanço do mar.

Um dos primeiro moradores de Fresia é Sergio Maldonado, de 43 anos. "Acontecerá com esses desabrigados o que aconteceu comigo. Recebi um barraco desses há anos com a promessa de que seria provisório, mas ainda vivo nele", diz.

Os moradores do sul do Chile disputam lonas para construir abrigos. Muitas casas têm placas que dizem: "demolir", "precisamos de água" ou "precisamos de ajuda". Nas cidades maiores, como Concepción, a presença de militares é ostensiva.

Em povoados, os soldados estão tensos, param moradores e bloqueiam ruas. Llico e Tubul foram as vilas costeiras mais afetadas pelo tsunami na região de Biobío provocado pelo terremoto. Na sexta-feira, muitos sobreviventes vagavam entre os escombros na praia, buscando seus pertences.

A resistência ao projeto de moradia da Um Teto para o Chile é maior entre os que tinham boas casas antes da tragédia. Os mais pobres, como Berta Olate, acham que as casas são bem-vindas: "Amanhã me preocupo com o risco de isso virar uma favela. Hoje, só preciso sair do relento."

Médicos militares dizem que há o perigo de que doenças respiratórias se alastrem pela região. O consumo de água imprópria também preocupa. "O progresso que fizemos após o terremoto pode ser anulado no outono se a reconstrução não for acelerada", diz o socorrista Fernando Espinoza.

"As pessoas estão vivendo sob lonas plásticas. As casas oferecidas seriam uma solução provisória para o outono", opina Juan Alberto Aguirre, responsável pela Um Teto Para o Chile em Concepción.

Para Aguirre, a resistência do prefeito de Arauco e de alguns moradores põe em risco a vida de milhares de pessoas. "É como criticar a qualidade de um hospital de campanha. Não faz sentido, porque se trata de uma solução provisória."

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