No conflito, o médico do meu inimigo é meu inimigo

Artigo: Jonathan Whittall / MSF

O Estado de S.Paulo

13 de março de 2013 | 10h16

O que têm em comum a Coalizão Nacional Síria, um grupo fundamentalista islâmico estrangeiro, um país do Golfo e os governos iraniano e americano? Todos estão provendo ajuda "humanitária" em diferentes escalas para o lado do conflito sírio que apoiam, mas nenhum é capaz de reduzir o imenso sofrimento das pessoas nem garantir que sua ajuda alcance, primeiramente, os mais vulneráveis. Essa não é uma guerra simples, e não há soluções fáceis, mas o atual status quo não pode ser uma alternativa.

A resposta humanitária é reflexo da complexidade política da crise; a maior parte da ajuda enviada à Síria é percebida como unilateral, atendendo apenas um ou o outro lado do conflito. É praticamente impossível a ajuda cruzar a frente de batalha no volume necessário para atender a imensa demanda. No momento, organizações humanitárias precisam atravessar a fronteira ilegalmente para entrar em áreas sob o controle da oposição para levar ajuda e contam com o suporte de redes partidárias.

Isso é um problema, já que o provedor da ajuda passa a estar relacionado à solidariedade política vinculada a um ou a outro lado do conflito. Tentar cruzar as linhas de frente sem contar com a boa vontade de todos os envolvidos significa correr o risco de ser barrado nos pontos de fiscalização assim que for identificado como alguém que está ajudando o "inimigo" ou enfrentar bombardeios e a mira de franco-atiradores.

À medida que o conflito na Síria evolui, o mesmo acontece com as necessidades da população. Milhões de pessoas sofrem com a grave falta de alimentos, combustível, abrigo e água limpa. Comunidades inteiras vivem cercadas e sob constantes bombardeios. Médicos Sem Fronteiras (MSF) pôde apenas fazer doações de suprimentos médicos para a região afetada por febre tifoide e leishmaniose, pois a intensidade dos confrontos prejudicou diretamente a capacidade de nossas equipes de alcançar as áreas afetadas.

A destruição de instalações de saúde deixou uma lacuna na área médica. Segundo estatísticas do governo sírio, 57% dos hospitais públicos foram danificados, 36% não têm mais possibilidade de funcionar e 78% das ambulâncias públicas foram prejudicadas. Muitas áreas estão dependentes de hospitais improvisados. Presenciei um trabalhador do ramo da construção civil atuando como cirurgião. Alguns desses hospitais de campo priorizam o atendimento de combatentes, deixando a população comum sem acesso a cuidados. Em regiões controladas pelo governo, o sistema de saúde também enfrenta grande dificuldade em razão das sanções internacionais.

Considerando a maneira como a ajuda é ofertada na Síria, o ceticismo dos envolvidos no conflito quanto à ajuda proveniente de regiões sob o controle de seus oponentes é justificável. Um acordo negociado com os envolvidos é necessário para permitir que ajuda humanitária cruze a frente da batalha. Sem isso, os esforços humanitários não poderão ser dissociados da complexidade geopolítica que contamina a crise. É preciso que a ajuda seja urgentemente ampliada.

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