Win McNamee/AFP
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No Congresso dos EUA, papa defende ação por meio ambiente

Retórica de Francisco, em favor de imigrantes e medidas para combater o aquecimento global, se aproxima das posições de Obama

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE, WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

24 Setembro 2015 | 21h16

No primeiro discurso de um pontífice no Congresso dos EUA, o papa Francisco pediu ontem aos parlamentares que abram as portas do “sonho americano” aos milhares de imigrantes latinos que se dirigem ao norte em busca de oportunidades e uma vida melhor para suas famílias.

Também os exortou a agir contra a ameaça do aquecimento global e a se engajar na luta contra a pobreza e a injustiça social.

“Nós, que pertencemos a este continente, não nos assustamos com os estrangeiros, porque muitos de nós fomos estrangeiros no passado”, afirmou, sob aplausos dos congressistas, em especial os democratas que integram a base de apoio do presidente Barack Obama.

A maioria republicana na Câmara dos Deputados se opôs à proposta governamental de reforma do sistema de imigração, que abriria caminho para obtenção de cidadania a muitos dos 11 milhões que vivem de maneira irregular nos EUA, sob o risco de serem deportadas.

O papa defendeu que os congressistas apliquem aos imigrantes e refugiados a regra de ouro, segundo a qual devemos tratar os demais como gostaríamos de ser tratados por eles.

“Devemos evitar uma tentação comum nos dias de hoje: descartar tudo o que nos incomoda”, ressaltou, no discurso proferido em inglês. “Tratemos os demais com a mesma paixão e compaixão com que queremos ser tratados. Busquemos para os demais as mesmas possibilidades que buscamos para nós mesmos.”

A proposta de repatriar os 11 milhões de imigrantes ilegais ajudou o magnata Donald Trump a chegar a liderar as pesquisas entre os pré-candidatos republicanos que esperam disputar as eleições presidenciais de 2016.

Citando Martin Luther King e a luta pelos direitos civis nos anos 60, Francisco afirmou que os EUA continuam a ser para muitos a terra dos “sonhos” e lembrou que o país foi construído com a ajuda de imigrantes e filhos de imigrantes, como ele mesmo e vários dos congressistas.

Além dos parlamentares, estavam na plateia o vice-presidente da república, Joe Biden, quatro ministros da Suprema Corte e vários integrantes do gabinete de Obama, entre os quais o secretário de Estado, John Kerry.

Com algumas exceções, as posições defendidas pelo papa coincidiram com prioridades da agenda doméstica e internacional de Obama, o que se refletiu na reação dos congressistas.

Os democratas aplaudiram com mais entusiasmo suas declarações em favor dos imigrantes, do combate à mudança climática, do fim da pena de morte e da proibição da venda de armas. Os representantes da oposição republicana foram os primeiros a se levantar para os aplausos quando o papa defendeu a vida em “todos os seus estágios de desenvolvimento”, em uma condenação implícita do aborto, e ressaltou a importância da família e do casamento.

Francisco dedicou boa parte de seu pronunciamento ao combate do aquecimento global, outro tema em que as prioridades de Obama se chocam com os conservadores. Os republicanos, que têm maioria nas duas Casas do Congresso, opõem-se a regulações ambientais estritas e não creem que a mudança climática seja produto da ação do homem.

“Agora é o momento de ações corajosas e estratégias voltadas a implementar a cultura do cuidado”, declarou o papa. “Estou convencido de que podemos fazer a diferença e não tenho dúvida de que os Estados Unidos – e este Congresso – têm um papel importante a desempenhar.” Obama pressiona líderes globais por um acordo ambicioso na Conferência sobre o Clima marcada para dezembro e espera deixar um legado nessa área quando sair da Casa Branca, no início de 2017.

Em sua defesa dos imigrantes, o papa reconheceu que a chegada de colonizadores nas Américas “nem sempre” se deu com respeito aos direitos das populações nativas. “Aqueles primeiros contatos foram bastante turbulentos e sangrentos, mas é difícil julgar o passado com os critérios do presente.”

Anteontem, o papa canonizou o primeiro santo latino dos Estados Unidos, Junípero Serra, um franciscano do século 18 que fundou 9 das 21 missões que deram origem ao Estado da Califórnia.

Milhares de indígenas morreram nos agrupamentos criados em torno das missões, vítimas de doenças trazidas pelos europeus. Depois do discurso de ontem, o papa visitou a escultura de Serra que representa a Califórnia no Congresso dos Estados Unidos – cada Estado tem direito a duas imagens e o outro personagem californiano é Ronald Reagan.


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