Ivor Prickett/The New York Times
Ivor Prickett/The New York Times

No coração do cristianismo no Iraque, visita do papa é esperança de manter a identidade

Cristãos que vivem numa sucessão de antigas cidades cristãs ao norte do Iraque temem estar perdendo sua identidade tradicional e que sua fé corra o risco de desaparecer num país com maioria muçulmana

Jane Arraf / The New York Times, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2021 | 05h00

BARTELLA, IRAQUE – Próxima da entrada desta pequena cidade ao norte do Iraque, uma enorme árvore de Natal está exposta o ano inteiro como símbolo da identidade cristã secular do local.

Mas um pouco além, um símbolo diferente ilustra a mudança que vem ocorrendo em Bartella: um grande cartaz com a imagem do líder revolucionário islâmico do Irã, o aiatolá Khomeini, contemplando imagens de combatentes xiitas que morreram na luta contra o Estado Islâmico.

Não muito longe, há uma enorme cruz de ferro cercada por mais fotos de combatentes iraquianos mortos, com frequência se sobrepondo a imagens de relicários xiitas.“Quando você entra aqui não imagina que está numa área cristã”, disse o reverendo Yacoub Saadi, da igreja cristã ortodoxa siríaca.

Com a visita do papa Francisco ao Iraque esta semana, na primeira viagem papal ao país, são crescentes os temores dos cristãos que vivem nessa sucessão de antigas cidades cristãs ao norte do Iraque de estarem perdendo sua identidade cristã tradicional e de que sua fé corre o risco de desaparecer num país com maioria muçulmana.

O êxodo constante de cristãos, que começou após a invasão americana em 2003, acelerou desde que o Estado Islâmico foi expulso do Iraque em 2017. A visita do Papa é uma mostra de solidariedade para com aqueles cristãos remanescentes cujos números caíram para menos de um terço dos 1,5 milhão que viviam ali à época de Saddam Hussein.

Bartella é uma das dezenas de cidades historicamente cristãs na região de Nineveh Plains, onde o apóstolo São Tomás teria convertido a população politeísta algumas décadas antes da morte de Jesus. Muitos cristãos nesses locais falam uma forma de aramaico, língua falada por Jesus.

Em Bartella, eles são uma minoria, uma população de 3 mil numa cidade de 18 mil habitantes. Como na maior parte do Iraque, os muçulmanos xiitas são predominantes. Mas nesta cidade predomina uma outra minoria iraquiana, dos Shabaks, um pequeno grupo étnico e linguístico que vem empreendendo sua própria luta para ser reconhecido. Embora muitos deles sejam muçulmanos xiitas, há muito tempo sofrem com as tentativas de supressão da sua cultura, mesmo durante o governo de Saddam Hussein.

Diante disto, as autoridades eclesiásticas em Bartella, nos seus esforços para manter a identidade cristã da cidade, assumem medidas discriminatórias contra outros grupos marginalizados.

Preocupado com a diminuição dos cristãos numa cidade tradicionalmente cristã, o governo iraquiano deu poderes para as autoridades da igreja aprovarem projetos imobiliários e vendas de terras. A igreja tem usado esse poder para paralisar projetos que podem trazer mais Shabaks e outros não cristãos para o local.

Na extremidade da cidade, um projeto imobiliário composto de casas, um shopping center e um centro esportivo está abandonado. Esse empreendimento normalmente seria bem-vindo numa região onde o desemprego é alto e há uma escassez de moradias.

“O projeto foi paralisado pela igreja”, disse o reverendo Banham Lalo, católico. “As pessoas de outras áreas comprarão essas casas, vindas de Mossul e Bagdá, e isto abre caminho para uma mudança demográfica."

O incorporador Duraid Mikhael, cristão da vizinha Erbil, disse ter investido mais de US$ 200 mil no empreendimento, antes de receber ordens para suspender os trabalhos. A incorporação geraria centenas de empregos num período de três anos. “Quero desenvolver a área de Bartella, mas eles não me deixam trabalhar”, afirmou.

As divisões entre os dois grupos étnicos devem ficar mais inflamadas e diretas. “O problema principal tem a ver com as autoridades Shabak”, insistiu Saadi, o padre ortodoxo. “Elas estão mudando a identidade de Bartella."

“Os cristãos exigem seus direitos e se consideram oprimidos, mas não são”, retrucou Saad Qado, diretor da emissora de rádio local A Voz de Shabak. “Nós somos os oprimidos. Eles têm tudo."

“Nos vilarejos Shabak as pessoas não têm água potável e nem mesmo um hospital. Alguns não têm escolas, mas ninguém se preocupa conosco."

Embora o conflito religioso tenha uma longa história no Iraque, as tensões hoje em Bartella têm raízes na captura da cidade pelo Estado Islâmico em 2014. Cristãos e muçulmanos xiitas sofreram durante o controle da região pelo grupo terrorista sunita. Muitos fugiram.

“Muitas pessoas voltaram depois da expulsão do Estado Islâmico, mas quando viram suas casas incendiadas, saqueadas e destruídas, decidiram emigrar”, disse Lalo.

Danos infligidos pelo EI

Na Igreja Católica Siríaca de São Jorge, uma caixa de vidro revestida de cetim branco exibe o rosto da Virgem Maria com seu nariz quebrado, há cálices queimados e uma estátua de Jesus na cruz também quebrada, lembranças dos danos infligidos pelo Estado Islâmico.

“Se alguém chegou a Bartella logo após a libertação, acharia que a cidade nunca voltaria ao que era, por causa do nível de destruição”, disse Ali Iskander, de origem shabak e o prefeito de fato do distrito de Bartella.

Foi nessa ocasião que o governo iraquiano, temendo que essas históricas cidades cristãs perdessem sua identidade, deu poderes às autoridades eclesiásticas de Bartella e de outra cidade, Qaragosh, para regulamentarem os projetos de desenvolvimento. O papa pretende visitar uma igreja em Qaragosh no domingo.

Iskander disse que tem tido problemas para encontrar um terreno e construir uma casa para sua família de 3 mulheres e 16 filhos. “Sou prefeito e tenho mulheres. Não mereço viver em Bartella?”, disse ele./ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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