EFE
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No Curdistão iraquiano, euforia de referendo dá lugar à frustração

Três semanas depois de votarem pela criação de um Estado independente, curdos veem suas principais cidades serem retomadas por tropas de Bagdá e acusam o governo semiautônomo de não ter previsto as consequências de realizar a votação separatista

O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2017 | 12h08

KIRKUK, IRAQUE - "Aqueles que nos fizeram sonhar com um Estado curdo estão nos abandonando", diz um habitante da região curda semiautônoma no Iraque, onde a euforia em razão do referendo de independência organizado há três semanas deu lugar a frustração depois de as tropas de Bagdá retomarem o controle de Kirkuk.

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As autoridades do governo central recuperaram na terça-feira os campos de petróleo de Kirkuk e outras posições que as forças curdas peshmergas ocuparam em 2014 em setores que não fazem parte da região que eles reclamam para seu governo semiautônomo.

"Os líderes curdos que ordenaram os combatentes peshmergas a se retirarem ante as tropas do governo (de Bagdá) deveriam ser julgados, não apenas expulsos do poder", diz Omar Mahmud, de 41 anos, morador de Kirkuk.

Mas não é apenas nesta região que os curdos ficaram abalados com esse fato. Em Irbil, capital da região semiautônoma do Curdistão, que no mês passado tinha ares de alegria, o golpe foi ainda mais duro: os importantes recursos petrolíferos da Província de Kirkuk eram a única garantia de viabilidade de um eventual Estado curdo.

Papel de Irã e Turquia

As bandeiras e os cartazes favoráveis ao referendo ainda estão espalhados pela cidade, mas já não há mais ânimo para crer na secessão. Muitas pessoas não foram trabalhar nesta quarta-feira e as ruas, os mercados e os centros comerciais que normalmente são animados estão quase todos vazios.

Sirwan Najem, de 31 anos, que chefia uma papelaria em Irbil, afirma que a retomada de Kirkuk em poucas horas pelas forças governamentais iraquianas foi "totalmente inesperada". "Ao longo da história, os países vizinhos sempre impediram a realização de nossas ambições de independência", diz, sem deixar de acompanhar o noticiário em sua TV.

Depois da esmagadora vitória do "sim" no referendo em 25 de setembro, Kamran Ahmed, de 47 anos, pensava que os curdos estavam prontos para fundar seu próprio Estado. "Mas nesta semana, em Kirkuk, houve um golpe de Estado com apoio de Irã e Turquia", opina.

Ahmed diz não saber a quem a região poderá recorrer "a não ser a comunidade internacional, que deve ajudar o povo curdo, reconhecer o referendo e trabalhar pela retirada do Exército (de Bagdá)".

Na opinião de Shaker Kaki, um curdo da cidade de Janaqin, foi o próprio referendo organizado pelo presidente curdo, Masud Barzani, que catalizou o conflito e a resposta de Bagdá. "Foi um erro organizar a votação sem pensar nas consequências."

Ofensa aos curdos

Em Sulaymaniyah, segunda maior cidade do Curdistão iraquiano e área de influência da União Patriótica Curda (UPC) - rival de Barzani - o ambiente também é de incertezas. A cidade está traumatizada pela chegada nesta semana de milhares de pessoas que fugiram de Kirkuk.

Sazan Taufiq, engenheira agrícola de 30 anos, admite estar "totalmente deprimida" depois deste "insulto a todos os curdos" e responsabiliza os Estados Unidos pelo ocorrido.

"Há poucos dias, eram aliados dos curdos porque precisavam para combater o grupo terrorista Estado Islâmico. Hoje, no entanto, nos dão as costas", acusa.

Hasan Mohamed, vendedor de 52 anos, diz que "nunca esteve tão desesperado". "A história dos curdos no Iraque é cheia de reveses e (a perda de) Kirkurk é mais um deles, dos grandes", disse. 

Karukh Omar, professor de ensino médio, acredita que os responsáveis deve ser responsabilizados dentro da própria região semiautônoma. 

"A liderança curda, tal como é composta hoje, não pode fornecer absolutamente nada ao povo curdo ou à sua causa", diz. "Há muitos anos que várias pessoas acusam os políticos curdos de fazerem uso do poder político e econômico em proveito próprio para as famílias que estão no poder", acusa Omar. / AFP

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