AP Photo/Emilio Morenatti
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No deserto do Saara, a indústria da clandestinidade

Gangues e milícias controlam o tráfico de pessoas desde o Níger até a Líbia, com auxílio de militares e políticos locais, indica relatório

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2017 | 05h00

GENEBRA - Milhares de refugiados que atravessam a África até as costas do norte do continente para embarcar no último trajeto até a Europa passam por rotas controladas por grupos criminosos e mesmo extremistas que, com a cumplicidade de militares locais corruptos, extorquem dinheiro de milhares de pessoas. A indústria da clandestinidade entre a África Subsaariana e o Magreb preocupa a União Europeia.

Relatório da Agência de Fronteiras da Europa (Frontex) e de governos africanos como a Etiópia, Níger, Nigéria e Mali indica que o Níger passou a ser considerado o principal ponto de encontro para o tráfico de pessoas. A capital desse esquema está em Agadez, que serve de escala até a Líbia. 

“No momento em que o migrante chega na estação de ônibus de Agadez, ele passa a fazer parte de um mercado dinâmico de serviços de contrabando de seres humanos”, diz o relatório. Na cidade, diversos grupos criminosos atuam em “guetos”. 

O chefe daquela zona é dono não só do local como dos próprios migrantes, além de uma frota de carros. Muitos são veículos capazes de cruzar o deserto ou caminhões roubados da Líbia. O chefe do grupo é o responsável pela logística para permitir que a rede possa operar. Estima-se que existam 140 guetos na cidade.

Os migrantes são divididos por nacionalidade e os comboios em direção ao Norte da África partem quando há gente suficiente para lotar um caminhão. Para atraí-los, membros do gueto tentam convencer os estrangeiros que desembarcam que seu esquema é o mais seguro. 

As saídas ocorrem às segundas-feiras, quando as tropas e comboios militares do Níger se deslocam para o norte do país para abastecer as bases mais distantes. Assim, os contrabandistas e grupos criminosos ganham a proteção de militares. Por semana, são cerca de 17 mil pessoas que fazem esse trajeto. 

Os comboios seguem até o posto das Forças Armadas em Toureyet. A parada seguinte é Dirkou, de onde os veículos com os imigrantes precisam continuar a viagem sozinhos e cruzar o deserto sem a presença dos militares. Em Dirkou, migrantes precisam aguardar na cidade por dias antes de serem transferidos com veículos operados por novos contrabandistas que podem levá-los até Madama. Em Madama, eles atravessam outro posto de controle para poder chegar até Tumo, a fronteira com a Líbia. Tribos nômades do Saara, tuareg e toubou, disputam as rotas e os imigrantes, tidos como ativos valiosos. Confrontos armados entre os dois grupos étnicos são comuns. 

A queda de Muamar Kadafi também colaborou para os confrontos. Desde a morte do ex-ditador, os postos de fronteira da Líbia com o Níger estão desprotegidos e esse vácuo foi preenchido por milícias toubou. Isso permitiu que ela controle o acesso até a cidade líbia de Sabha. Ali, os imigrantes são entregues para tribo, a Awlad Suleiman. 

Pelo caminho, são torturados, alvo de extorsão, sequestrados e mortos quando não há pagamento adequado. A Frontex acredita que as vítimas do deserto superam em grande número as do Mediterrâneo. 

O relatório conclui que operações de salvamento no mar reforçam os lucros dos criminosos. Ao colocar mais barcos para resgatar os migrantes na costa e cada vez mais perto dos portos líbios, os europeus estariam levando a uma redução de custos dos traficantes de pessoas. 

Terroristas

Grupos radicais como a Al-Qaeda no Magreb Islâmico, Ansar al-Dine e outros controlam a rota de fuga de refugiados e lucram com a passagem de milhares em direção à Europa.

No norte do Mali, minorias étnicas da região passaram a colaborar com grupos extremistas para administrar a rota de migrantes, pagando impostos a eles. “Grupos extremistas são vistos como os principais fornecedores de segurança e coletam taxas sobre cada bem contrabandeado em sua área de influência”, indicou a Frontex, em seu relatório de inteligência, no qual afirma que a teia do tráfico de pessoas inclui, além de grupos extremistas e minorias étnicas, políticos e empresários. 

Além de pagar um “pedágio” para continuar a viagem e o serviço do contrabandista, eles são alvos de exploração sexual pelo caminho e por vezes sequestrados até que a família pague um resgate.

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