No duelo de imagens, quem venceu? Blair ou Bin Laden?

Tony Blair é um brilhante ?comunicador?. Seria bom se tivesse falado na TV Al-Jazeera, com seu sorriso, seu brio, sua convicção, poucas horas depois que nessa mesma TV do Qatar, o terrorista Bin Laden fez uma aparição fulgurante. Enfim, seria possível colocar, em uma imagem espelhada, o chefe ocidental e o matador delirante das torres de Nova York. E vimos. O que vimos? O inglês usava uma gravata vermelha. Falou bem, com elegância. Atrás dele, viam-se uma janela e árvores, árvores bonitas e verdes, como imagens. E nos lembramos, irresistivelmente, das imagens vistas, na véspera, na mesma TV. Imagens ?esqueléticas?. Um rochedo. Uma gruta. Três caras com roupas da Idade Média e do terceiro milênio ao mesmo tempo. E um quarto homem, uma figura ascética, com uma longa barba, uma barba de profeta. Então, uma gruta. E uma montanha. Qual? Uma montanha não importa onde, ou seja, em toda parte, como o terror está em toda parte. Na terra, no rochedo, kalachnikovs, armas insignificantes se nos lembrarmos que, na noite anterior, tomahawks, bolas de fogo, horizontes esverdeados e bombas tinham enchido de chamas todas as nossas telas. E que, três semanas antes, os Boeing da infâmia entraram nos arranha-céus e massacraram 7 mil inocentes. A montanha. A gruta. A longa barba afilada. Todos os ingredientes familiares a todas as mitologias. Tudo isso remete à lenda ou à profecia. Como se reproduzisse uma outra figura, a de Maomé que, por ocasião da hégira, em 622, teve que fugir de Meca, momento em que fundou o Islã. O profeta Maomé teve que sair de Meca, mas voltou mais tarde coberto de glória. Bin Laden também teve que sair de Meca (por causa dos ateus americanos que profanaram a terra de Deus, após a guerra do Golfo). Como Maomé, um dia voltará a Meca. Portanto, em matéria de cenografia, Bin Laden não tem igual: diante dessa aparição inacreditável, as imagens dos governantes ocidentais, George W. Bush, Jacques Chirac e até mesmo Tony Blair se desbotaram, como decalques muito molhados. O homem da Idade Média sacudiu os homens do século 21. No mais, da ?modernidade? havia um toque fúnebre na roupa de Bin Laden: no pulso, ele usava um relógio, um grande relógio. Como se fosse para lembrar que, mesmo que Bin Laden use um lampião para iluminar à sua volta (pôde ser visto em sua gruta), também sabe tocar a música da modernidade. E que sabe muito bem calcular, no momento exato, seus crimes. Esse foi o cenário. Em seguida, houve o discurso. Tranqüilo. Sem estardalhaço. Ameaças, ameaças terríveis, expressas com uma voz doce, e o próprio olhar parecia doce, como se fosse para dar ao espetáculo de desolação, que se pressentia por trás das palavras, um caráter de fatalidade, de inevitabilidade. Como se Bin Laden tivesse somente a voz por meio da qual passava um discurso proveniente de algum lugar bem mais longe, bem mais alto, ao mesmo tempo dos séculos dos séculos e do Mestre do universo. Essa voz sem barulho nem cólera teve um outro sentido. Ela mostrou a tranqüilidade do condutor do Terror e sua indiferença em relação à sua própria sorte. Ela mostrou que, se Bin Laden for morto, isso não terá importância. Bin Laden estava indiferente a esse detalhe (e, nesse ponto, somos obrigados a acreditar nele, já que infelizmente a coragem de seus camicases do dia 11 de setembro foi tão terrível; também será muito terrível, não podemos duvidar, infelizmente, a coragem de Bin Laden e de seus oficiais no dia em que a morte lhes for buscar). Assim, tudo foi calculado, com uma competência infernal para mostrar imagens que pairam acima do tempo: homens ao mesmo tempo vivos e mortos em uma gruta pré-histórica, homens que a morte não só não intimida, como também não impedirá, de maneira alguma, que continuem a agir. A gruta, os rochedos, as roupas ao mesmo tempo tradicionais e militares, tudo foi feito, nessas imagens, para garantir o nascimento de uma lenda, de um mito. Sebastião, o rei de Portugal, foi morto em suas expedições contra os mouros, em 1578, na batalha de Alcácer Quibir. O sapateiro Bandarra, que tem talentos para a profecia, anuncia que simplesmente parece que Sebastião morreu, mas que ele vai voltar e, então, Portugal ficará à frente das nações. O sebastianismo, muitas vezes retomado no Brasil, tornou-se uma das características da mentalidade portuguesa. Alexandre I, o czar de todas as Rússias, aquele que lutou contra Napoleão e o desafiou nas neves de Beresina, morreu em 1825. Na realidade, não morreu. Ele passou pela Ásia. Vestiu o hábito de burel e tornou-se um desses monges mendigos que atravessavam todas as estradas da Rússia no século 19. O grande escritor Tolstoi, autor de ?Guerra e Paz? teve a chance de encontrar Alexandre I, cinqüenta anos depois de sua morte, em uma floresta da Sibéria e os dois tiveram conversas extremamente interessantes. Na Idade Média, um dos maiores imperadores germânicos foi Frederico I (da dinastia dos Hohenstaufen). Quando era bem idoso (70 anos), decidiu se engajar em uma Cruzada na Palestina. Foi para Ratisbona e para o vale do Danúbio. Fazia muito calor. Frederico se banhou no Cidno, um pequeno rio da Cilícia. Ele se afogou. Essa morte foi ilusória. O imperador vivia em uma gruta (uma gruta...), e os que puderam vê-lo, durante anos, ficaram impressionados porque sua barba continuava a crescer, crescer e se enrolou em volta dele, tornou-se imensa. Passou a ser chamado Frederico Barba-Roxa.

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