No Egito, Hillary apoia novo líder e pede transição pacífica rumo à democracia

EUA apoiam transição pacífica rumo à democracia e recomendam o retorno das Forças Armadas a um 'papel puramente militar'.

BBC Brasil, BBC

14 de julho de 2012 | 20h51

Em visita ao Egito, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, manifestou apoio ao recém-eleito presidente Mohammed Mursi e pediu que o país mantenha uma transição pacífica rumo à democracia, recomendando que os militares fiquem encarregados apenas da segurança do país.

Em coletiva de imprensa no Cairo, Hillary julgou ser crucial que "os militares retornem ao seu papel único de garantir a segurança do Egito", em clara mensagem ao Conselho Supremo das Forças Armadas (Casf), que pouco antes da nomeação do novo presidente dissolveram o Parlamento e esvaziaram o poder Executivo, assumindo ainda papeis legislativos.

Após a reunião com o presidente, ela reiterou o apoio de Washington a uma "transição total a um regime civil", e disse que os egípcios têm o direito de ter o governo pelo qual votaram.

As eleições que deram à vitória a Mohammed Mursi, que pertence à Irmandade Muçulmana, foram as primeiras da História do país e ocorreram mais de um ano após a revolução que derrubou o ex-líder Hosni Mubarak, que governou o Egito com mão de ferro por mais de 30 anos.

"Eu vim ao Cairo para reafirmar o forte apoio dos Estados Unidos ao povo egípcio e à sua transição democrática. Nós queremos ser um bom parceiro e queremos apoiar a democracia que foi atingida por meio da coragem e do sacrifício do povo egípcio", disse.

Mudança

Jon Leyne, analista da BBC no Egito, relembrou que não muitos anos atrás, outro secretário de Estado americano declarou que Washington não conversava com a Irmandade Muçulmana, e que jamais o faria.

Desta vez, no entanto, os EUA, sob a administração de Barack Obama, foram rápidos em se engajar com o novo presidente -aceitando o inevitável e tentando se situar da melhor forma neste cenário.

A Irmandade Muçulmana tem repetidamente reforçado que não quer ser isolada internacionalmente, sobretudo porque o país depende fortemente do comércio exterior e do turismo.

Hillary deve se encontrar ainda com o marechal Mohammed Hussein Tantawi, chefe das Casf, neste domingo.

Questionada sobre o que diria a Tantawi, a chefe da diplomacia americana disse que deveria deixar claro que os EUA recomendam o retorno das Forças Armadas a um "papel puramente militar".

Disputa de poder

A visita de Hillary chega dias após a disputa entre a Suprema Corte, o presidente Mohammed Mursi e as Forças Armadas.

Na terça-feira a mais alta corte egípcia reiterou a decisão dos militares de dissolver totalmente o recém-eleito Parlamento composto em sua maioria pela Irmandade Muçulmana.

Na prática, o anúncio anula um decreto de Mursi no qual ordenara que o Parlamento fosse reconvocado.

Nas ruas e na praça Tahrir, epicentro da revolução que no ano passado derrubou Mubarak, milhares cantaram slogans contra os militares e a Justiça e em apoio ao presidente.

Para Jon Leyne, analista da BBC no Cairo, a decisão da Suprema Corte representa muito mais um desdobramento da tentativa do país de se ajustar a uma nova configuração de poder do que o início de um confronto aberto.

O especialista relembra que, semanas atrás, o mesmo tribunal apenas julgou que parte das eleições parlamentares, vencidas pela Irmandade Muçulmana (partido de Mursi), era inconstitucional. A decisão de dissolver totalmente o Parlamento foi do Conselho Supremo das Forças Armadas.

Logo, o impasse seria muito mais focado entre uma tentativa dos militares, aliados a setores seculares, de esvaziar o governo, composto por setores religiosos, do que um embate direto entre o novo líder do Executivo e a mais alta corte egípcia.

Além de dissolver o Parlamento, os militares aprovaram uma declaração constitucional antes do anúncio das eleições, retirando qualquer poder do presidente sobre as Forças Armadas. Os comandantes também receberam poder de legislar, além de poderem vetar partes da futura Constituição, que ainda não possui um rascunho.

Os militares, que entregaram formalmente o poder a Mursi no dia 30 de junho, têm despertado cada vez mais desconfiança e insatisfação na população. Setores da sociedade os acusam de querer manter o poder mesmo após a revolução. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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