No Egito, nenhuma surpresa

Sem surpresas no Egito: a Irmandade Muçulmana devia ganhar o referendo. E ganhou. A Constituição manca, mas talhada sob medida para seu inspirador, o presidente Mohamed Morsi, deve proporcionar à Irmandade Muçulmana - essa confraria de islamistas que se pretendem moderados - a ferramenta ideológica e política que lhe permitirá dirigir o Egito.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

27 de dezembro de 2012 | 02h08

O campo vencido, isto é, a oposição, que abriga confusamente pessoas de esquerda, liberais, revolucionários e antigos partidários do ditador deposto, Hosni Mubarak, vai espernear que houve fraude. De fato, todo o mundo sabe que os partidários de Morsi fraudaram, mas os protestos feitos pelo principal partido da oposição, a Frente de Salvação Nacional, têm pouca chance de serem levados em conta pelos islamistas triunfantes. De resto, era bem provável que, mesmo sem as fraudes, a Irmandade Muçulmana venceria.

O presidente Morsi controlará, portanto, todos os poderes. Ele poderá varrer das instituições as sobras do antigo regime e já começou a fazê-lo: na Justiça, o procurador-geral Abdel Meguid Mahmoud, rebento do antigo regime, foi substituído por um juiz mais maleável, Talaat Abdullah.

O espetáculo da rua atesta que uma página foi virada: as mulheres sob véu estão se tornando mais numerosas. Na televisão, o jornal é apresentado por mulheres usando véu.

Um diplomata ocidental se diz estarrecido: "Até nos corredores do Ministério das Relações Exteriores circulam secretárias veladas". A Irmandade ainda não invadiu tudo, mas pôs a mão sobre cinco ministérios estratégicos. O delicado Ministério da Informação foi para Salah Abdel Maqsoud, que não é nenhum amante da liberdade de expressão.

Mais grave ainda: o Senado designará os novos diretores dos meios de comunicação estatais. Ora, o Senado foi conquistado pelos islamistas e é presidido pelo cunhado do presidente Morsi. No entanto, persistem no governo resistências à empreitada islamista.

O cientista político Clément Steuer explica que, depois de 20 anos, os tecnocratas se apossaram dos postos de alto escalão e aponta para o peso exercido pelos financiadores de fundos internacionais que pregam uma governança sadia.

Assim, entre os contrapesos do poder absoluto da Irmandade Muçulmana, conta-se agora a liberalização econômica. Esta liberalização nunca foi colocada em questão, até agora, pela Irmandade. Ela deveria limitar os transtornos revolucionários na política egípcia.

Um outro fator é invocado pelos opositores.

A Irmandade Muçulmana não conta com pessoal qualificado. Ela será obrigada a aplicar seus projetos recorrendo a pessoas competentes e, em geral, pouco fanáticas.

Mesmo na polícia, ela não poderá prescindir de funcionários não islâmicos.

E o Exército? A Irmandade havia destituído o antigo chefe do Conselho Supremo das Forças Armadas, general Hussein Tantawi, que tinha tentado confiscar, em proveito do Exército, as revoltas da Primavera Árabe, mas até aqui, o cerne do "business militar" não foi realmente atingido.

Segundo especialistas, este é um dos desafios que se apresentam a Mohamed Morsi na sua tentativa de impor um regime islamista moderado: que no interior das grandes administrações produzem-se clivagens que podem colocar em risco a estabilidade constitucional que o referendo do fim de semana deveria teoricamente garantir. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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