No Egito, um Islã político sem petróleo

Os partidos islâmicos recém-eleitos não terão as mesmas condições de grupos do Irã e da Arábia Saudita para resolver os problemas do povo e impor regras religiosas

É COLUNISTA, ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ESCRITOR, GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2012 | 03h07

Depois que a Irmandade Muçulmana e o ainda mais radical partido islâmico Al- Nur, salafista, causaram espanto a si próprios e aos egípcios com a conquista de mais de 60% dos assentos nas eleições parlamentares egípcias, estamos perto de ver um teste de laboratório único para o Oriente Médio: o que ocorre quando o Islã político precisa fazer frente à modernidade e à globalização sem petróleo?

Movimentos islâmicos dominam desde há muito o Irã e a Arábia Saudita. Contudo, tanto os aiatolás no Irã quanto os salafistas wahabitas na Arábia Saudita conseguiram assegurar sua ideologia e também os frutos da modernidade, pois possuíam uma enorme riqueza de petróleo para safar-se de quaisquer contradições. A Arábia Saudita pôde subutilizar suas mulheres e impor costumes religiosos rígidos à sua sociedade, seus bancos e escolas. Os clérigos do Irã puderam fazer pouco do mundo, perseguir a nuclearização e impor pesadas restrições políticas e religiosas no país. E ambos ainda puderam oferecer a seus povos padrões de vida melhores, pois tinham petróleo.

Ajuda. Os partidos islâmicos do Egito não terão esse luxo. Eles terão de se abrir para o mundo, e parecem estar percebendo isso. O Egito é um importador líquido de petróleo. Ele também importa 40% de seus alimentos. E o turismo contribui com um décimo de seu Produto Interno Bruto. Com o desemprego desenfreado e a libra egípcia desvalorizando-se, o Egito provavelmente precisará de ajuda do Fundo Monetário Internacional, uma forte injeção de investimento estrangeiro e um grande uso de educação moderna para proporcionar empregos a todos aqueles jovens que organizaram a rebelião do ano passado. O Egito precisa ser integrado ao mundo.

A Irmandade Muçulmana, cujo partido se chama Liberdade e Justiça, tem sua grande fonte de apoio nas classes médias e nas pequenas empresas. O Partido Al-Nur, salafista, é dominado por xeques religiosos e se apoia nas camadas pobres rurais e urbanas.

Essan el-Erian, o vice-presidente do partido da Irmandade Muçulmana, me disse: "Esperamos poder motivar os salafistas - e não que eles nos motivem - e que ambos sejamos motivados pelas necessidades do povo."

Diferença. Ele deixou claro que, embora o Liberdade e Justiça e o Al-Nur sejam partidos islâmicos, eles são muito diferentes, e podem não dar as mãos no poder: "Como grupo político, eles são recém-chegados, e eu espero que todos possam descobrir a diferença entre o Al-Nur e a Liberdade e Justiça."

Sobre o tratado de paz com Israel, Erian disse: "Esse é um compromisso do Estado - não de algum grupo ou partido - e nós já dissemos que estamos respeitando os compromissos do Estado egípcio do passado." Basicamente, acrescentou, as relações com Israel serão determinadas pela maneira como o país tratar os palestinos. Mas, falando de modo geral, ele disse: "os problemas econômicos do Egito estão nos empurrando para cuidar de nossos próprios assuntos".

Muhammad Khairat el-Shater, o vice-presidente da Irmandade Muçulmana e seu guru econômico, deixou claro para mim que sua organização pretende se abrir para o mundo. "Já não é uma questão de escolha ser a favor ou contra a globalização", ele disse. "Ela é uma realidade. De nossa perspectiva, defendemos um engajamento o mais amplo possível na globalização por meio de situações em que todos saem ganhando."

Nader Bakkar, um porta-voz do Al-Nur, insistiu que seu partido agirá com cautela. "Nós somos os guardiães da sharia", ele me disse, referindo-se à lei islâmica. "E queremos que o povo esteja conosco sobre os mesmos princípios, mas deixamos a porta aberta para todos os intelectuais em todos os campos."

Ele disse que o modelo econômico de seu partido é o Brasil. "Não gostamos do modelo teocrático", acrescentou. "Posso lhe prometer que não seremos outra ditadura, e o povo egípcio não nos dará uma chance de ser outra ditadura." Em novembro, Hazem Salah Abu Ismail, um clérigo salafista independente e candidato presidencial, foi questionado por um entrevistador sobre como ele reagiria, se presidente, a uma mulher usando biquíni na praia? "Ela seria presa" , ele disse.

O Partido Al-Nur rapidamente declarou que ele não estava falando pelo partido. A agência France Presse citou outro porta-voz do Al-Nur, Muhammad Nour, também procurando afastar temores levantados na mídia noticiosa de que os salafistas poderiam proibir bebidas alcoólicas, artigo de grande consumo em hotéis de turistas no Egito. "Talvez 20 mil dos 80 milhões de egípcios consumam bebidas alcoólicas", ele disse. "Quarenta milhões não têm água tratada. Você acha que, no Parlamento, eu me ocuparei das pessoas que não têm água ou das pessoas que se embebedam?"

O que tirar de tudo isso? Os islâmicos egípcios terão algumas grandes decisões a tomar. Tem sido fácil manter um alto grau de pureza ideológica todos esses anos em que eles estiveram fora do poder. Mas sua súbita ascensão ao topo da política egípcia coincide com uma queda livre da economia do Egito.

Responsabilidade. E assim que o Parlamento for aberto, em 23 de janeiro, os islâmicos do Egito terão a maior responsabilidade pelo ajuste dessa economia - sem o petróleo. Um drama semelhante está ocorrendo na Tunísia.

Eles não querem estragar essa chance de liderar, mas querem ser leais a suas raízes islâmicas, contudo sabem que seus apoiadores os elegeram para oferecer um governo limpo, educação e empregos, e não mesquitas. Será fascinante observar como eles lidam com esses dilemas. Seu desempenho terá um enorme impacto no futuro do Islã político nessa região. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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