Fernando Llano/AP
Fernando Llano/AP

No Equador, papa Francisco pede o diálogo e participações sem exclusão

Em seu discurso no aeroporto de Quito, o pontífice disse que o país precisa enfrentar os desafios atuais valorizando as diferenças; Correa, pressionado por protestos, é acusado pela oposição de tirar do contexto frases papais sobre desigualdades sociais

Rodrigo Cavalheiro, enviado especial / Quito, O Estado de S. Paulo

05 de julho de 2015 | 22h00

QUITO - O papa Francisco chegou às 14h44 de domingo ao Equador e foi recebido pelo presidente Rafael Correa, um anfitrião pressionado por protestos cada vez mais amplos e a popularidade mais baixa de seus oito anos no poder. Indiretamente, a própria visita do pontífice alimentou a polarização local. Entre as primeira palavras do pontífice esteve um pedido por diálogo. 

Correa é acusado pela oposição de tirar de contexto frases papais sobre desigualdade social e usá-las para impor projetos de taxação a heranças e ao lucro que motivaram manifestações na semana passada e terminaram em confronto. Pela primeira vez, o presidente, apesar de dominar o Congresso e a Justiça, recuou diante da repercussão internacional. 

Segundo o movimento contrário ao líder equatoriano, Correa cita o papa no que lhe convém, mas ignora a encíclica de 18 de junho, em que Francisco alertou para a destruição do planeta. O governo equatoriano é financiado pela exploração de petróleo e minérios, uma das razões para o distanciamento de Correa dos indígenas, 7% da população do país. 

Após descer do avião, sem o solidéu levado pelo vento assim que colocou o rosto para fora, Francisco foi cumprimentado por integrantes do governo nacional e de Quito, que pertence à oposição. Seu primeiro milagre, ironizaram alguns, foi colocar os políticos lado a lado. 

Após citar alguns santos do Equador, o papa chamou o país a “enfrentar os desafios atuais valorizando as diferenças, fomentando o diálogo e a participação sem exclusões para que as conquistas que se estão obtendo garantam um futuro melhor para todos”. Ele assegurou a Correa que, para isso, “poderá contar com o compromisso e a colaboração da Igreja”. 

Em seu discurso de boas-vindas, Correa primeiro brincou: “O papa pode ser argentino, a presidente Dilma Rousseff costuma dizer que Deus é brasileiro, mas asseguro que o paraíso está no Equador”. Logo, salientou que seu país “protege a vida desde a concepção”, uma mensagem contra o aborto, e dedicou a maior parte de sua fala justamente à defesa da igualdade social. “Sua Santidade nos disse que a política não deve se submeter à economia. Citou que qualquer propriedade privada deve ter função social”, afirmou Correa.

Ciente da divisão local e do efeito político de sua visita – na última semana, a Organização dos Estados Americanos (OEA) pediu formalmente que Francisco mediasse o conflito – o papa agradeceu tantas menções a textos seus. “A desigualdade é realmente um problema de toda a América Latina. Estamos em consonância em muitas coisas”, afirmou o pontífice, antes de começar o trajeto para a Nunciatura Apostólica, no centro de Quito, onde passou a noite. 

Milhares de equatorianos esperavam sob chuva esparsa e temperatura de 22ºC em estradas e ruas ver um papa, 30 anos após a visita de João Paulo II. A ameaça de marchas política não se concretizou, na medida em que governo e oposição se comprometeram com uma trégua. Ainda assim, grupos com faixas contra Correa estiveram na rota papal. 

Um deles se referia à exploração desregulada do Arquipélago de Galápagos. Entre seus integrantes, estava um dos líderes dos protestos iniciados em junho, Milton Castillo. “Sou crente, convencido da doutrina da Igreja e admirador da simplicidade do papa. As manifestações opositoras são resultado desse cansaço com a corrupção e a detenção de presos políticos, pelo menos dez. Perseguidos por pensar diferente são cerca de 200”, reclamou Castillo, advogado que chegou a concorrer à prefeitura de Quito na última eleição. 

Ele acusa o governo de ter dominado o Congresso, a Justiça e a maior parte dos meios de comunicação. “Como se não bastasse, usaram o rosto do papa no logotipo do governo, razão pela qual tiveram de se desculpar com a Igreja local. “O governo usa uma máquina de propaganda que poderia perfeitamente dizer ‘bem-vindo papa Francisco, a um lindo país onde Herodes poderia parecer um pediatra’”, comentou. 

Correa foi vaiado após a passagem do papamóvel pela Avenida 6 de dezembro. Cruzes com imagens de Francisco que eram vendidas a US$ 1 subiram para US$ 3 quando se espalhou entre a multidão a notícia de que o pontífice passaria pelo local em 5 minutos.

O deputado governista Virgilio Hernández defendeu o presidente. “De nenhuma maneira tentamos politizar a visita do papa, mas sim resgatamos sua mensagem contra a globalização”, disse.

De acordo com Polibio Córdova, presidente da consultoria Centro de Estudos e Dados, a aprovação de Correa atingiu 42% no último mês, a menor em oito anos de governo. Segundo ele, as manifestações do último mês mobilizaram no total 600 mil pessoas. A principal preocupação da população é a economia. “Passamos por um momento de alto endividamento externo, baixa no preço do petróleo e pouco investimento estrangeiro”, diz. 

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