No estilo de Chávez, família de líder concentra poder em Barinas

Em meio a denúncias, pai, irmãos e até a mãe do presidente ocupam os mais importantes espaços políticos no Estado

Renata Miranda, CARACAS, O Estadao de S.Paulo

24 de maio de 2008 | 00h00

Reinando soberano no Palácio Miraflores, em Caracas, lançando mão de instrumentos que lhe permitem governar por decreto, com 100% de controle do Legislativo e um Judiciário totalmente dócil, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, vem trabalhando também para ampliar a influência política de sua família. O clã Chávez vem consolidando seu domínio principalmente em Barinas, Estado do sudoeste do país - em meio a insistentes denúncias, por parte de opositores, de corrupção e abuso de poder.''O que existe em Barinas é uma falsa revolução'', afirmou ao Estado o deputado Wilmer Azuaje, autor de várias acusações - que vão de superfaturamento de obras à prática do nepotismo (mais informações nesta página) - contra a família do presidente. ''Lá, não é o ''império ianque'' de George W. Bush que reina, mas sim o império da dinastia Chávez.''O historiador venezuelano Manuel Caballero afirma que o poder da família presidencial em Barinas está ''fora do controle''. ''Quando os Chávez chegaram ao governo, tivemos o início de um processo de concentração de poder e centralização da economia no Estado'', diz.O clã Chávez começou a apossar-se de Barinas em 1998, quando o pai do presidente, Hugo de Los Reyes, foi eleito governador. ''El Maestro'' - como é conhecido - foi reeleito sob o lema: ''O que um pai pode pedir a um filho que ele não lhe dê?'' Uma das primeiras medidas do patriarca foi criar o cargo de secretário de Estado - posição que não existe em nenhum outro organograma estadual - e nomear seu filho Argenis para ocupá-lo. Há alguns anos, o governador sofreu um enfarte e escolheu Argenis para substituí-lo.Para muitos analistas, ele é o escolhido do país para sucedê-lo no governo, apesar de o presidente apoiar a candidatura de outro de seus cinco irmãos para as eleições regionais de novembro: Adán Chávez, que até o mês passado era ministro da Educação, e o mais velho dos irmãos.Adan foi afastado do gabinete por Chávez sob a justificativa de que ele se dedicaria integralmente às atividades do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). A inscrição do ex-ministro como pré-candidato ao governo de Barinas, no dia 13, fez com que militantes chavistas protestassem contra a imposição. Muitos deles querem Argenis nesse posto.''Há uma briga na família pela sucessão em Barinas'', disse Azuaje, que também é pré-candidato da oposição ao governo. ''A mãe, Elena Frías, e o pai do presidente querem Argenis como candidato, mas Chávez apóia Adán porque ele se submeterá mais aos seus caprichos.''Já o ex-deputado Rafael Simón Jiménez afirma que a escolha do presidente tem como base a afinidade. ''Adán é o irmão favorito de Chávez e é por isso que ele resolveu apoiar a candidatura dele'', disse Simón, que estudou com o presidente e Adán no Liceu O''Leary, em Barinas. O ex-deputado contribui na formação do movimento bolivariano durante os primeiros anos do chavismo, mas, desiludido com a ''revolução'' defendida por Chávez, afastou-se do velho amigo e passou para a oposição.Chávez tem outros dois irmãos envolvidos na política de Barinas: Aníbal, prefeito de Sabaneta - cidade onde Chávez nasceu -, e Narciso, que vai disputar no segundo semestre a prefeitura de Bolívar, outro importante município do Estado.Dos cinco irmãos do presidente, o único que optou por não seguir uma carreira na política foi Adeliz - ele prefere ser banqueiro. É ele quem comanda a Sofitasa-Barinas, entidade financeira que se encarrega do pagamento de funcionários públicos do governo de seu pai e irmãos.A mãe, dona Elena, também exerce papel importante na manutenção do poder da família. Para muitos, é ela ''quem veste as calças'' e comanda o clã chavista. Há especulação de que ela poderia assumir a candidatura ao governo para pôr fim à disputa entre Argenis e Adán.De origem humilde, a matriarca mudou completamente o estilo de vida desde que o marido assumiu o governo: fez cirurgias plásticas, mudou o guarda-roupa e assumiu uma atitude de constante ostentação - em Barinas, dizem que a primeira-dama tem anéis de ouro ''até nos dedos dos pés''.

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