No exército afegão, bartom e Kalashnikov

Major que comanda batalhão de mulheres luta contra avanço de milícias taleban

ADRIANA CARRANCA, ENVIADA ESPECIAL / CABUL, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h02

Fahima Misbah põe o cartucho no carregador e atira contra o alvo com seu M-16 semiautomático, a arma mais usada pelos EUA no Vietnã e no Afeganistão. Ela tira da cintura uma 9 mm, mira e aperta o gatilho; a pistola cabe melhor em suas mãos pequenas, de unhas sem esmalte e aparadas rente à pele. Mas a preferida é uma Kalashnikov. O fuzil russo a faz lembrar o irmão, ex-piloto da Força Aérea do Afeganistão integrado ao Exército Vermelho com a invasão soviética e morto em 1992, quando o helicóptero em que viajava levando feridos para a base militar de Bagram foi atingido por um foguete.

Foi pensando em vingá-lo que Fahima ingressou no serviço militar. Ela é a comandante do primeiro batalhão feminino das Forças Armadas do Afeganistão, tem 37 anos e, embora 57% das meninas afegãs se casem antes dos 16 em uniões arranjadas, ainda está solteira. Por pouco tempo, pois Fahima se apaixonou por um oficial dez anos mais jovem, de patente inferior à sua, diferente etnia e tribo, e pretende se casar com ele. Assim, quebra de uma vez todos os tabus que ainda assombram as mulheres afegãs, 11 anos depois da invasão estrangeira liderada pelos EUA que depôs o regime dos radicais islâmicos do Taleban.

"Eu jurei que defenderia o meu país dessas milícias", dispara, entre um tiro e outro. Após o treino, a major leva o Estado até a sua sala sob um sol escaldante por entre contêineres que servem de escritório na antiga base soviética, hoje Centro de Treinamento Militar de Cabul (CTMC); a Kalashnikov a tiracolo. Põe a arma no chão, apoiada na lateral da mesa, e antes de começar a entrevista limpa o suor do rosto com uma toalhinha branca de pontas bordadas por ela, tira um espelhinho da bolsa e passa batom "cor da pele, para não deixar ressecar os lábios" na seca primavera afegã. A estação marca o fim das chuvas ao mesmo tempo em que traz ventos ruins. No inverno rigoroso do Afeganistão, quando a neve cobre as montanhas e bloqueia o acesso pelas estradas, os insurgentes se resguardam apenas para voltarem mais fortes e revigorados quando o sol começa a derreter o branco da Cordilheira Hindu Kush.

De sua sala, durante a conversa, veio o primeiro estrondo. Foi seguido pelo toque da trilha de Titanic no celular do major que nos acompanhava: o aviso de um atentado no centro da capital, Cabul. Fahima dirige-se ao pátio e, antes que um foguete chegasse próximo demais, posa para uma foto, o rosto emoldurado pelo hijab no mesmo tom de marrom do uniforme camuflado. Clique e uma bomba, tão perto que fez estremecer os muros do complexo militar, na Avenida Jalalabad.

Naquela tarde ensolarada, 26 insurgentes tomariam a capital com foguetes e artilharia pesada num confronto que durou 18 horas. Ataques espetaculares têm se intensificado desde então. Abalam a frágil credibilidade do governo e a confiança da população de que o poder central será capaz de protegê-los após a saída dos estrangeiros. Em última instância, isso aprofunda as divisões já existentes na sociedade e fortalece milícias locais; e o Afeganistão se vê mais uma vez à beira de uma guerra civil.

Na sexta-feira, a primeira fase foi concluída com a saída de 33 mil soldados americanos. Até 2014, os 68 mil restantes terão deixado o Afeganistão. Voltam para casa sem terminar o conflito deixando-o nas mãos dos militares afegãos como Fahima (mais informações na página A21).

Desde a morte de Osama bin Laden, em uma operação secreta americana a seu esconderijo em Abbottabad, no Paquistão, o treinamento de soldados e policiais afegãos foi intensificado pelos EUA para acelerar a saída. A meta é ter 350 mil militares e policiais afegãos na ativa até o fim de 2012 - eram menos de 100 mil há cinco anos. A pressa afeta o recrutamento e apenas este ano houve pelo menos 45 casos de soldados estrangeiros mortos por milicianos infiltrados nas forças de segurança.

Uma das estratégias mais polêmicas adotadas para aumentar o efetivo afegão é armar milícias locais nos vilarejos. Chamadas de política local ou força especial, elas não respondem ao comando das Forças Armadas ou da Polícia Nacional, operam sem nenhuma supervisão e, agrupados etnicamente, disputam o controle de áreas como no passado. A outra possibilidade, não menos polêmica, para a saída apressada dos EUA é um acordo de paz com o Taleban. Nesse cenário, as mulheres temem que suas parcas conquistas sejam usadas como moeda de troca com os rebeldes.

Fahima tem a respiração curta, ofegante, os olhos parados num tempo que os acontecimentos atuais não a deixam esquecer. Fresca na memória a lembrança de quando a guerra civil estourou, em abril de 1992. À beira de um colapso, a URSS retirara as tropas do Afeganistão três anos antes, sem terminar a guerra. Déjà vu. O então presidente, Mohamed Najibullah conseguia manter as Forças Armadas coesas na capital, enquanto tudo desmoronava à sua volta. Temendo a expansão soviética, a CIA havia transferido inteligência, milhões de dólares e armas através do Paquistão para chefes tribais montarem suas milícias, sob forte apelo religioso (os mujaheddin) contra os laicos comunistas. Quando os soviéticos saíram, e a ajuda dos EUA minguou, os comandantes mujaheddin racharam em etnias. O Exército de Najibullah com eles; na medida em que perdiam a confiança no poder central, os soldados desertavam. Os horrores da guerra civil abriram espaço para a ascensão dos radicais do Taleban. Déjà Vu.

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