Nicholas Kamm / AFP
Nicholas Kamm / AFP

No Facebook, grupos pró-armas nos EUA promovem atos antiquarentena

Extremistas pró-Trump ajudaram a organizar e a promover alguns dos protestos nos Estados americanos 

Isaac Stanley-Becker e Tony Romm / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2020 | 05h00

Um trio de provocadores de extrema direita e a favor do porte de armas está por trás de alguns dos maiores grupos do Facebook que têm convocado protestos contra a quarentena pelos EUA, sinalizando que algumas manifestações, aparentemente espontâneas, estão sendo arquitetadas por uma rede de ativistas conservadores.

Os grupos do Facebook têm como alvo os Estados de Wisconsin, Ohio, Pensilvânia e Nova York, e parecem ser obra de Ben Dorr, diretor político de um grupo chamado Minnesota Gun Rights, e de seus irmãos Christopher e Aaron. No domingo, os grupos, juntos, tinham mais de 200 mil integrantes. Ele continuaram a se expandir rapidamente, dias após o presidente Donald Trump endossar esses protestos, sugerindo que os cidadãos deveriam “libertar” seus estados.

A atividade online implica que a oposição às restrições é mais difundida do que as pesquisas sugerem. Quase 70% dos republicanos disseram apoiar uma ordem nacional de ficar em casa, de acordo com uma pesquisa recente da Quinnipiac. Segundo a mesma pesquisa, 95% dos democratas apoiaram a medida.

Os grupos do Facebook se tornaram polos digitais para o mesmo tipo de desinformação divulgada nos últimos dias nas capitais – desde comparar o vírus à gripe até questionar as intenções dos cientistas que trabalham com uma vacina.

Especialistas em saúde pública dizem que as ordens de ficar em casa são necessárias para retardar a disseminação do novo coronavírus, que matou mais de 35 mil pessoas nos EUA.

Na semana passada, o governo Trump esboçou três fases para a reabertura dos Estados com segurança – diretrizes contrariadas pelo presidente ao encorajar os cidadãos a se oporem às regras que atendem às recomendações de seus próprios consultores de saúde pública.

O Facebook disse no domingo que não planeja tomar medidas para remover os grupos ou eventos, em parte, porque os Estados não os proibiram. Os organizadores também convocaram protestos com carreatas, desse modo, seguiam as recomendações de que as pessoas mantenham uma pequena distância entre si. Em outros casos, envolvendo protestos planejados para Estados como New Jersey e Califórnia, a empresa removeu esse conteúdo, disse o Facebook.

Para Entender

Coronavírus: veja o que já se sabe sobre a doença

Doença está deixando vítimas na Ásia e já foi diagnosticada em outros continentes; Organização Mundial da Saúde está em alerta para evitar epidemia

“A não ser que o governo proíba o evento durante esse período, permitimos que ele seja organizado no Facebook. Por esse mesmo motivo, eventos que desobedecem às orientações do governo de distanciamento social não são permitidos no Facebook”, disse Andy Stone, um porta-voz da empresa. Nenhum dos irmãos Dorr respondeu aos e-mails e às ligações da reportagem.

O grupo “Moradores de Wisconsin contra a quarentena excessiva” foi criado na quarta-feira por Ben Dorr. Seu irmão, Christopher, é o criador do “Moradores da Pensilvânia contra a quarentena excessiva”, assim como “Moradores de Ohio contra a quarentena excessiva”. Um terceiro irmão, Aaron, é o criador do grupo “Moradores de Nova York contra a quarentena excessiva”.

A coordenação online oferece pistas adicionais sobre como os protestos estão se espalhando por todo o país, capturando a atenção do presidente e da rede de TV Fox News, apesar de representar a opinião de uma pequena parcela dos americanos. 

Foi o próprio Trump que vinculou os protestos ao porte de armas – uma das principais causas dos irmãos Dorr – ao dizer aos moradores da Virgínia que a Segunda Emenda estava “ameaçada” quando os encorajou a “libertar” o Estado.

Na prática, figuras pró-Trump – incluindo algumas que atuam como apoiadores de sua campanha política –, bem como grupos afiliados a doadores conservadores importantes, ajudaram a organizar e promover as manifestações.

Algumas das atividades de protesto mais veementes em Michigan foram organizadas pela Coalizão Conservadora de Michigan. Seus fundadores são um legislador estadual republicano e sua mulher, Meshawn Maddock, que faz parte da comissão consultiva da campanha de Trump e é uma figura proeminente na coalizão Women for Trump. 

Jeanine Pirro, apresentadora da Fox News e ávida apoiadora de Trump, entrevistou Meshawn em seu programa no sábado, dizendo a ela: “Continue (com o que está fazendo). Obrigada”.

Também promovendo as manifestações – e até gastando centenas de dólares para anunciar o evento no Facebook – estava o Michigan Freedom Fund, liderado por Greg McNeilly, um consultor de longa data da família DeVos. Ele atuou como gerente de campanha de Dick DeVos, marido da secretária de Educação, Betsy DeVos, quando concorreu sem sucesso ao cargo de governador de Michigan, em 2006.

A governadora democrata do Estado, Gretchen Whitmer, que se tornou alvo de Trump e seus aliados conservadores, criticou na semana passada a organização, observando que ela foi “financiada em grande parte pela família DeVos” e dizendo que era “realmente inapropriado para um integrante do gabinete do presidente dos EUA em exercício promover ataques políticos a qualquer governador, ainda mais, a mim que estou em casa”.

McNeilly disse que o dinheiro usado para promover o evento “não era de fundos dedicados ao programa”, mas vieram de “nossos esforços de arrecadação de fundos” e, portanto, “não tinham nada a ver com o trabalho de DeVos”.

Os irmãos Dorr gerenciam uma série de grupos a favor do porte de armas em vários Estados, de Iowa a Minnesota e Nova York, e buscam principalmente tirar a credibilidade de organizações como a National Rifle Association (NRA) por cederem demais nas regras de segurança para armas de fogo. 

O Minnesota Gun Rights, para o qual Ben Dorr atua como diretor político, descreve-se como uma organização “que não acredita que se deva negociar um direito em troca de outros dois direitos apenas para obter algum tipo de liberdade parcial”.

Em inúmeros estados, eles ignoraram as regras exigindo que se registrassem como lobistas ao descrever seu trabalho, argumentando que estavam envolvidos na mobilização de bases a favor do porte de armas, como o “Proprietários de armas de Ohio”, cujo conselho é presidido por Chris Dorr.

Resistência às precauções de saúde pública

Um legislador estadual aposentado em Iowa, que em 2017 procurou fechar uma brecha que permitia aos irmãos contornar as regras de lobby, disse que não estava surpreso que os irmãos Dorr estivessem envolvidos no fomento da resistência às precauções de saúde pública. “Os irmãos farão qualquer coisa para acender as chamas de uma questão controversa e talvez ganhar algum dinheiro de modo rápido”, disse o ex-legislador estadual, o republicano Clel Baudler.

Quase 97 mil pessoas faziam parte do “Moradores de Wisconsin contra a quarentena excessiva” até a tarde de domingo, um grupo no Facebook cujas mensagens são visíveis apenas para participantes que disseram que o governador democrata Tony Evers está em uma “viagem de poder, controlando nossas vidas, destruindo nossos negócios” e “nos forçando” a abrir mão de nossas liberdades e nossos meios de subsistência!”. 

No grupo, alguns integrantes especularam que Evers fechou a maioria das empresas estatais e escolas para satisfazer gigantes farmacêuticos – e não por causa dos dados que mostram que o novo coronavírus é altamente contagioso e mortal, infectando mais de 4,3 mil no Estado e matando 220.

O grupo, juntamente com Ben Dorr, criou um evento no Facebook para uma carreata na sexta-feira, no Capitólio, que atraiu a atenção de centenas de participantes empenhados. 

 

Eles também procuram direcionar os visitantes para um site da Coalizão de Armas de Fogo de Wisconsin, onde as pessoas podem inserir seus nomes, endereços de e-mail e outras informações de contato e compartilhar suas opiniões com o governador do estado. Ao fazer isso, incentivam os visitantes que “ainda não são membros da Coalizão de Armas de Fogo de Wisconsin” a “se juntarem a nós”. Uma página solicitando que os usuários ingressem no grupo de Minnesota ofereceu várias taxas de associação, de US$ 35 a US$ 1.000.

Outro grupo privado do Facebook se concentrou na Pensilvânia, conquistando mais de 63 mil participantes até domingo. Muitos questionaram o uso de máscaras ao sair de casa, contrariando as recomendações de autoridades estaduais e federais, e publicaram um link que direciona para um site de proprietários de armas da Pensilvânia. 

O grupo direcionado aos moradores de Nova York tem cerca de 23 mil participantes que questionam se o coronavírus é realmente tão ruim – apesar do fato de Nova York ter se tornado o epicentro do surto nos EUA.

“Enquanto toma o poder em um ritmo de tirar o fôlego”, assim começa a descrição do grupo, “Andrew Cuomo está deixando a economia de Nova York entrar em uma espiral de morte!”.

Dezenas de outras páginas, grupos e eventos do Facebook promovem da mesma forma protestos contra o pedido de que as pessoas fiquem em casa nas capitais dos Estados em todo o país. 

Permitir parte desse conteúdo – incluindo esforços coordenados por parte de ativistas conservadores – marca uma ruptura com as rígidas novas regras do Facebook que regem o conteúdo sobre a pandemia.

Desde o início do surto, a gigante da tecnologia proibiu uma grande variedade de postagens, fotos e vídeos falsos, incluindo aqueles que promovem curas que não existem. A empresa também implantou seus verificadores de fatos para desmascarar mitos perigosos sobre a pandemia e suas origens, e alertou as pessoas sobre suas interações com as informações erradas da internet. 

A abordagem adotada pelo Facebook – mais agressiva do que é comum até contra mentiras conhecidas – é um entendimento de que ele deve impedir a propagação de mentiras perigosas na plataforma em meio a uma crise de saúde global.

Muitos governadores, no entanto, criticaram os protestos para reabertura do país e como isso seria potencialmente prejudicial para as pessoas que comparecem às manifestações e para muitas outras que seguem as orientações para ficar em casa.

“Não acho que seja útil incentivar manifestações e encorajar as pessoas a ir contra a política do próprio presidente”, disse o governador de Maryland, Larry Hogan, republicano, neste fim de semana. “Isso simplesmente não faz nenhum sentido.”

Representantes dos governadores de Nova York, Wisconsin e Pensilvânia não responderam aos pedidos de comentários.

Uma porta-voz do governador republicano de Ohio, Mike DeWine, disse que ele “reconheceu que os manifestantes têm direito à liberdade de expressão assegurado pela Primeira Emenda”, acrescentando: “Ele (governador) apenas pede que pratiquem o distanciamento social”.

Alex Stamos, diretor do Observatório da Internet de Stanford e ex-diretor de segurança do Facebook, disse que os grupos constituem uma forma de desinformação doméstica porque estavam sendo operados por usuários com motivações financeiras e políticas para influenciar o debate público com informações não verídicas. Ele ficou especialmente alarmado com a possibilidade de que os criadores do grupo estivessem obtendo benefícios pessoais, alimentando a raiva online sobre as medidas de saúde pública. “São sempre golpes movidos por esquemas habilidosos”, disse Stamos.

Zachary Elwood, engenheiro de software em Portland, Oregon, que tem um blog focado em informações falsas na internet e rastreia parte da atividade dos irmãos Dorr, pediu ao Facebook que reprimisse pequenos grupos de usuários que coordenavam atividades aparentemente díspares, especialmente quando a atividade envolvia informações falsas prejudiciais.

“É compreensível que as pessoas estejam chateadas com a situação difícil em que estamos, mas elas estão claramente sendo inflamadas por pessoas com uma óbvia agenda antigoverno”, disse Elwood. “O Facebook não deve facilitar a tarefa.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.