REUTERS/Kevin Lamarque
REUTERS/Kevin Lamarque

No G-20, Trump busca apoio em várias frentes

Irã, Venezuela e Síria estarão na pauta do presidente americano durante encontros em Osaka

Beatriz Bulla, ENVIADA ESPECIAL A OSAKA, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2019 | 22h03

Há sete meses Donald Trump roubou a atenção do encontro das 20 maiores economias do mundo, em Buenos Aires, no encontro com Xi Jinping. Com o líder chinês, o presidente americano acertou a trégua na guerra comercial entre as duas maiores economias do mundo e ganhou as manchetes dos jornais. Com os solavancos nessa negociação, o encontro do G-20 que começa nesta sexta-feira, 28, em Osaka, Japão, tem tudo para repetir o roteiro argentino. Mas, desta vez, para Trump, não é só isso.

Conhecido por desprezar o sistema de multilateralismo e, portanto, encontros como o do G-20, Trump vive nos próximos dias em Osaka a busca por uma aprovação – ou, no mínimo, suporte – às investidas de sua política externa. Desde que chegou à Casa Branca, o americano abriu uma série de frentes de negociação que ainda patinam ou viveram uma escalada de tensão nos últimos meses. 

É o caso do Irã. A perspectiva de uma guerra acidental na região do Golfo Pérsico não é descartada por analistas, que consideram arriscadas as movimentações de Trump e da Arábia Saudita desde o ataque a dois navios petroleiros neste mês.

“Sobre a questão do Irã, em particular, esta é uma oportunidade para o presidente se envolver com vários líderes internacionais diferentes, nossos parceiros e aliados mais próximos, para obter apoio e discutir como podemos incentivar o Irã a entrar nas negociações e responder à iniciativa do presidente com diplomacia, em vez de terrorismo e chantagem nuclear”, afirmou um dos negociadores americanos, durante conversa reservada com jornalistas nesta semana.

Para Heather Conley, vice-presidente para Europa e Eurásia no Center for Strategic and International Studies (CSIS), Trump será questionado pelos europeus sobre os passos que tem dado com relação ao Irã. “Os líderes vão pressioná-lo por clareza para tomarem um encaminhamento unificado”, afirmou.

O Irã entrará na pauta dos encontros de Trump com o presidente russo, Vladimir Putin, e com o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman. O primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, que recentemente esteve em Teerã, é visto como um possível intermediário nas conversas – e na ponte entre Trump e os europeus.

Trump ainda deve achar tempo para buscar apoio às suas políticas sobre Venezuela, de pressão ao regime de Nicolás Maduro, e para a Síria. “Não é um encontro formal, mas deve focar em questões de segurança regional como Irã, Ucrânia, Síria e Oriente Médio”, disse um dos negociadores do time de Trump, sobre o encontro com Putin.

Os funcionários do alto escalão do governo negam que Trump esteja sob pressão e citam o exemplo da China. O presidente tem repetido que Xi Jinping precisa mais de um acordo comercial com os EUA do que o contrário, e ameaça com novas tarifas. Mas, na prática,Trump tem sofrido pressão interna dos agricultores americanos para flexibilizar posições na queda de braço com os chineses. O presidente, no entanto, pressiona a China por mudanças estruturais para proteger a propriedade intelectual de empresas americanas de tecnologia. 

Além do Irã, o líder americano tenta, sem sucesso, um acordo de desnuclearização da Coreia do Norte que possa ser fiscalizado. “A meta é desenvolver solidariedade em torno do problema da Coreia do Norte para aumentar a pressão”, afirma Michael Green, vice-presidente de Ásia e Japão do CSIS. Segundo ele, uma declaração paralela do G-20 sobre o tema ajudaria nesta pressão, mas Trump não tem se engajado nisso. “Eu acho que ele vê as negociações da Coreia do Norte como um ato solo”, afirma.

Sem perspectiva de uma solução imediata na tensão entre EUA e China, e sem engajamento americano para avanços específicos no sistema de reforma da Organização Mundial do Comércio, a novidade em Osaka até o início da cúpula fica na conta dos movimentos de Trump em defesa de sua estratégia geopolítica.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.