REUTERS/Ricardo Arduengo
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No Haiti, carência da população é enorme, mas caridade de alguns políticos soa falsa

Com baixa presença do Estado, parlamentares repetem estratégia de 2010 e usam doações para angariar votos

Anatoly Kurmanaev/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2021 | 10h00

Centenas de vítimas do terremoto no Haiti fizeram fila sob calor escaldante na semana passada para receber refeições quentes entregues a um acampamento improvisado, disputando a tapas arroz e frango que transbordavam de marmitas plásticas. Em alguns casos, resgatavam comida no chão enlameado.

As marmitas, que eram poucas, traziam uma mensagem impressa: “Cortesia do senador Franky Exius”. O terremoto de 7,2 graus que sacudiu o sul do Haiti em 14 de agosto, provocando a morte de ao menos 2.207 pessoas, atingiu um país que já estava em crise, com poucos representantes públicos legitimamente eleitos e um governo interino paralisado, impopular e dotado de recursos insuficientes.

Na ausência de um esforço conjunto de resgate e auxílio lançado pelo poder público, políticos haitianos destacados estão procurando preencher a brecha, resgatando feridos em seus jatinhos particulares, fazendo entregas de alimentos e suprimentos médicos e chegando até a distribuir dinheiro.

Com eleições gerais no horizonte, as iniciativas pessoais assumem contornos políticos. Na prática, o epicentro da catástrofe se converteu em plataforma de lançamento das campanhas políticas de alguns dos presidenciáveis e candidatos ao Congresso haitiano.

Na capital, Porto Príncipe, os esforços dos políticos suscitam questionamentos difíceis sobre a linha que separa a oferta de ajuda urgentemente necessária e a cínica exploração do sofrimento da população.

“A zona de desastre virou campo de exercício da política”, comentou Fritz Jean, especialista em políticas públicas que atua em Porto Príncipe. “Se você pensar na ajuda que estão prestando, verá que é uma campanha política repugnante.”

Os políticos haitianos têm um histórico de exploração de desastres naturais para ganho pessoal. Em 2016, quando a chegada ao país do furacão Matthew coincidiu com a campanha presidencial, candidatos inundaram a região com garrafas d’água doadas e caixinhas de fósforos estampadas com suas fotos.

Jovenel Moïse, que serviu como presidente até ser assassinado em sua residência no mês passado, consolidou sua dianteira na campanha quando entregou um carregamento de arroz a vítimas do furacão, pouco antes do pleito. Os sacos traziam slogans de seu partido, o que enfureceu lideranças comunitárias.

A morte de Moise deixou o Haiti sem presidente, Parlamento operante ou Suprema Corte. Embora haja eleições previstas para 7 de novembro, o premiê interino, Ariel Henry, diz que antes disso o país precisa combater a violência onipresente de gangues e nomear os integrantes de um novo conselho eleitoral.

Desde o assassinato de Moise, membros da elite haitiana vêm disputando o poder, fazendo visitas a Washington e contratando lobistas americanos, em iniciativas vistas amplamente como a exploração de candidaturas eleitorais.

No Haiti, país de economia pequena e fraca, onde a corrupção tem raízes profundas e que recebe grandes volumes de ajuda internacional, a conquista de cargos políticos constitui o principal caminho para o progresso pessoal. Há cerca de 200 partidos políticos no país, que tem 11 milhões de habitantes.

Como fizeram no passado, os políticos que distribuíram ajuda a vítimas da catástrofe no verão deste ano descreveram suas doações emergenciais em termos humanitários.

“As pessoas nos acampamentos precisam comer, e minha intenção foi oferecer essa ajuda”, disse Exius, o ex-senador cujo nome constava das marmitas de alimentos doados em Les Cayes.

Exius afirmou que apenas doou dinheiro a um restaurante local para que fossem fornecidas refeições gratuitas e que não soube que seu nome apareceria nas marmitas. Segundo ele, seu nome foi retirado posteriormente. Alguns dos políticos que vêm oferecendo ajuda possuem vínculos de longa data com as comunidades afetadas. Graças a isso, seu auxílio parece ter cunho menos oportunista.

O ex-senador Hervé Fourcand, que vive na península sul do Haiti, usou seu avião com hélices para evacuar feridos para a capital. Os ex-senadores Francenet Dénius e Dieupie Chérubin levaram sacos de arroz e macarrão ao departamento de Nippes, duramente atingido pelo terremoto e que eles representaram no Parlamento até o ano passado. “Você pode atribuir nossa iniciativa à política”, disse Dénius, natural de Nippes e que afirmou que não se candidatará a outro mandato. “Se você puder fazer algo pelo povo agora, as pessoas veem que você é capaz de atender às demandas, e isso pode lhe beneficiar nas eleições.”

A ajuda oferecida por antigos políticos eleitos forma um contraste com o esforço de assistência emergencial em grande medida ineficaz lançado até agora pelo governo haitiano. Henry, o premiê, já visitou a área afetada pelo terremoto duas vezes e enviou seus ministros para visitar as comunidades remotas, mas estes fizeram pouco além de distribuir palavras de consolo e falar em reconstrução.

As doações privadas são limitadas, e em algumas instâncias esse fato parece apenas reforçar o desespero da população. Fritz, o especialista em políticas públicas, disse que gestos caridosos de políticos, alguns dos quais são acusados de corrupção, não substituem uma campanha oficial de auxílio.

Centenas de haitianos cercaram o comboio do ex-presidente Michel Martelly quando ele visitou hospitais de Les Cayes na quinta (19). “Este é nosso presidente!” gritaram as pessoas, implorando por ajuda.

Acredita-se que Martelly, um dos políticos mais poderosos do Haiti, esteja se preparando para lançar uma nova candidatura à Presidência.

No final de cada visita a um hospital, seus guarda-costas distribuíram entre a multidão alguns envelopes cor de laranja contendo dinheiro, tendo em um caso provocado uma disputa violenta pelas cédulas.

Enquanto um homem agarrava um envelope desesperadamente, uma dezena de outros o segurava e tentava lhe arrancar o envelope das mãos. Outro homem pegou uma pedra grande e mergulhou na briga, brandindo freneticamente sua arma improvisada, enquanto uma mulher ao lado gritava “matem-no!”.

Enquanto isso, no hospital geral de Les Cayes, a ambulante Vercia Edmond estava postada, ansiosa, ao lado do leito de seu filho de 15 anos, Robenson Perjuste, que foi atingido por escombros na casa deles, destruída no terremoto, e teve a perna amputada na altura da coxa. A filha mais velha de Edmond, o principal arrimo da família, estava deitada em outra enfermaria com a coluna lesionada.

Edmond contou que tentou falar com Martelly sobre sua situação difícil, mas que os guarda-costas dele a afastaram. Mesmo assim, ela está depositando suas esperanças no político, porque ele, pelo menos, visitou a cidade, ela explicou. “Fiquei feliz quando ele veio”, disse a ambulante. “Eu queria contar ao presidente Martelly que meu filho está aqui, que fiquei sem nada, que nossa barraca foi saqueada. Agora não sei o que fazer. Me sinto ignorada.”

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