Ricardo ARDUENGO / AFP
Ricardo ARDUENGO / AFP

No Haiti, domínio de gangues leva à falta de comida, energia e combustível

O país em crise está enfrentando uma severa escassez de combustíveis que o está levando à beira do colapso

Natalie Kitroeff e Maria Abi-Habib/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2021 | 10h00

PORTO PRÍNCIPE— Gangues bloqueiam os portos do Haiti, impedindo envios de combustível. Os hospitais estão prestes a ser fechados, à medida que os tanques de seus geradores de eletricidade vão se esgotando, arriscando a vida de centenas de crianças. Torres de telefonia celular estão ficando sem energia, isolando regiões inteiras do país. E uma grave crise alimentar se intensifica a cada dia que passa. 

Após o assassinato do presidente, um terremoto e uma tempestade tropical, uma nova crise aflige o Haiti: uma severa escassez de combustíveis que está levando o país para a beira do colapso, porque são gangues, não o governo, que controlam cerca da metade da capital do país. 

Com as gangues permitindo ou não a passagem de caminhões de combustíveis segundo bem entendem, os motoristas dos veículos têm se recusado a trabalhar, o que desencadeou uma greve nacional de trabalhadores dos transportes e paralisou um país que depende de geradores de eletricidade para obter grande parte da energia que consome. 

Esse é apenas o mais recente reflexo do vácuo de segurança no Haiti, onde 16 cidadãos americanos e uma pessoa de nacionalidade canadense que integravam um grupo de missionários dos EUA foram sequestrados este mês, por uma gangue que exige um resgate de US$ 17 milhões. As autoridades sabem onde os reféns estão sendo mantidos — mas são incapazes de entrar no bairro controlado pela gangue porque falta à polícia capacidade para enfrentar os criminosos.   

Em uma crua demonstração de como os sequestros são comuns no Haiti, um pastor americano de origem haitiana foi sequestrado e libertado na segunda-feira. Pior ainda, afirmam ativistas defensores dos direitos humanos, o ministro da Justiça do país é suspeito de conivência com a gangue que sequestrou o pastor - um exemplo extremo do papel do governo na deterioração das condições de segurança no país. 

“Tenho a esperança de um Haiti melhor, mas sei que o país não vai melhorar”, afirmou Rousleau Desrosiers, diante do filho recém-nascido, que respirava com ajuda de aparelhos num hospital cujo gerador tem combustível suficiente para poucos dias. “O Haiti só anda para trás. A única marcha que engatamos é a ré."

Em uma entrevista coletiva, na terça-feira, Jimmy Cherizier, um dos mais temidos chefes de gangue do país, reconheceu que sua rede criminosa está bloqueando a entrega de combustíveis. Cherizier afirmou que sua intenção não é prejudicar as pessoas comuns, mas pressionar as elites políticas e econômicas do Haiti pela renúncia do primeiro-ministro. Mas a escassez de combustíveis já prejudica das maneiras mais cruéis os haitianos mais vulneráveis. 

Uma semana atrás, Desrosiers ficou sem gasolina para trabalhar com sua moto-táxi. Em poucos dias, sua mulher, ainda grávida, ficaria sem comida. Então, no domingo, ela deu à luz seu filho, que nasceu um mês antes do previsto e com necessidade de cuidado especializado, que a maternidade não oferecia. 

Desrosiers levou o filho a cinco hospitais antes de encontrar um que o aceitasse: o Hospital Pediátrico St. Damien, o principal centro de pediatria do Haiti. 

“Estou preocupado”, afirmou Desrosiers a respeito do filho, cujas minúsculas narinas foram entubadas com sondas que fornecem o oxigênio para sua prejudicada respiração. Uma lâmpada de calor aquecia o bebê, que tem o tamanho da palma de uma mão. “Ele não está respirando direito.” 

Os geradores do hospital têm combustível somente até a sexta-feira. Se os tanques não forem reabastecidos, os aparelhos que mantêm a criança viva pararão de funcionar, e o hospital terá de ser fechado. 

A gasolina dos carros dos médicos e enfermeiros acabou, e os poucos taxistas que ainda circulam estão cobrando preços absurdos. Então, o hospital está usando suas ambulâncias para trazer os funcionários ao trabalho e comprando colchões para que eles possam dormir nos corredores. Para economizar combustível, os trabalhadores apagam as luzes sempre que possível. “Isso é um caos para o Haiti”, afirmou Jacqueline Gautier, a diretora-executiva do hospital. 

Durante a entrevista coletiva que concedeu, o chefe de gangue Cherizier afirmou que, “enquanto líder responsável e pessoa que ama este país”, permitirá que o combustível chegue aos hospitais. 

“Somos desse mesmo povo em péssimas circunstâncias e desfavorecido”, afirmou ele, em tom de estadista, dando pistas sobre suas ambições políticas mais elevadas, em um país onde suspeitos de tráfico de drogas ocupam assentos no Parlamento. “Estamos buscando maneiras de abrir caminho para que o combustível possa ser entregue aos hospitais.” 

Atiçando tensões sociais, Cherizier conclamou os haitianos a se voltar contra as elites empresariais e políticas, qualificando-as como “quadrilhas”. 

Em muitos países, uma escassez de combustíveis resultaria em problemas nos transportes. No Haiti, onde a rede de fornecimento de energia elétrica é precária, todos os serviços e instituições que mantêm o país funcionando — bancos, hospitais, torres de telefonia celular, empresas — obtêm sua eletricidade com geradores, afirmou Maarten Boute, diretor-executivo da Digicel Haiti, a maior provedora de telefonia celular e internet de banda larga do país. 

Sem combustível, “tudo simplesmente fecha”, afirmou Boute, acrescentando que uma a cada quatro torres da Digicel está inoperante, sem combustível para funcionar. 

O governo tentou acabar com a greve oferecendo dinheiro aos sindicatos do setor do transporte, mas as entidades se recusaram a aceitar. O que é preciso, afirmaram vários líderes sindicais, é que as autoridades retomem o controle das favelas que cercam os portos de Porto Príncipe, a capital, onde as gangues detêm mais poder, com acesso a armas, motocicletas - e gasolina - que a polícia não tem. 

“Precisamos de presença policial”, afirmou Marc André Deriphonse, que lidera a Associação Nacional de Proprietários de Postos de Gasolina e recentemente se encontrou com o ministro da Defesa. 

Deriphonse, que também possui uma frota de caminhões, afirmou que não mandará seus motoristas ao porto até que que o governo garanta policiamento 24 horas ao longo da rota. “As autoridades não policiam essas regiões." 

A crise de combustíveis está cobrando seu preço em todo o Haiti. Moradores de regiões remotas cercam veículos que passam pelas estradas pedido para sugar combustível de seus tanques, impedindo a passagem pelas vias. No norte do país, uma multidão atacou um caminhão de transporte de combustível e forçou o motorista a distribuir parte de suas carga em grandes barris. 

A crise tem atrapalhado a vida e o trabalho de todos. Postos de gasolina estão fechados há semanas. Quando os proprietários aparecem nos estabelecimentos, confusões ocorrem com frequência entre cidadãos convencidos de que os postos têm combustível estocado e estão se recusando a vender.   

David Turnier, presidente da Associação Nacional de Distribuidores de Produtos Petroleiros do Haiti, compra normalmente 132,5 mil litros de gasolina, diesel e querosene por semana para revender nos postos que possui em Porto Príncipe. Para passar o mês de outubro, ele recebeu 34 mil litros. 

“Os caras estão dizendo, ‘É isso - não vamos arriscar nossas vidas para buscar combustível’”, afirmou ele sobre os motoristas de caminhão. “Os tanques estão só no vapor.” 

As ruas da capital se esvaziaram esta semana, com o transporte público praticamente paralisado e a maioria dos táxis privados ficando sem combustível. Agências bancárias fecharam porque os caixas não conseguiram chegar ao trabalho. Hotéis começaram a fechar ou desligar aparelhos de ar-condicionado para poupar energia. Os principais supermercados da capital fecharam, incapazes de manter a carne fresca. Na terça-feira, a direção do centro nacional de ambulâncias do Haiti informou que, em razão da escassez de combustíveis, somente 30 das 90 ambulâncias públicas do país estavam em operação.    

A enfraquecida autoridade do governo é resultado de sua própria estratégia inconsequente, de usar as gangues para alcançar objetivos, afirmam ativistas defensores dos direitos humanos. 

Este mês, o pastor Jean Ferrer Michel estacionava o carro em frente à sua igreja quando homens armados e mascarados saltaram de um carro do ministério da Justiça e o capturaram, afirmou Farah Michel, filha do religioso. Posteriormente, ele foi entregue a uma gangue e acabou libertado na noite da segunda-feira, após sua família pagar vários resgates. 

Organizações de defesa dos direitos humanos acusaram o ministro da Justiça, Liszt Quitel, de usar recursos do governo e uma gangue haitiana para sequestrar o pastor, após uma desavença pessoal com o religioso. 

“O carro que o sequestrou saiu do Ministério da Justiça, e isso é tudo o que posso dizer”, afirmou Farah Michel, a filha do pastor. “Se o Ministério da Justiça tem algo a ver com isso, isso é entre eles, Deus e suas mães.” Sua família está sob ameaça, afirmou ela, e planeja deixar o Haiti proximamente.

“Não dá para criar um filho nesse ambiente, é impossível dar à luz, ter um emprego, cuidar da família”, afirmou. “É um verdadeiro pesadelo. Você não está dormindo, mas vive num pesadelo.” 

O ministro da Justiça, Quitel, não respondeu a múltiplos pedidos de comentário, mas negou as acusações a uma rádio local. 

Na sala de emergências do hospital St. Damien, mães, primos e avós de pacientes passam a noite sentados nas cadeiras azuis da espera, porque não há como voltar para casa. E estão começando a passar fome, porque a escassez de combustíveis está fazendo o preço da comida aumentar.  

Dos 11 milhões de haitianos, 4,4 milhões precisam de assistência alimentar, de acordo com as Nações Unidas. Sylvania Pierre, de 53 anos, cuidava da filha e três netos subnutridos no hospital. 

“Os preços estão subindo às alturas”, afirmou Pierre, inclinando-se sobre um leito hospitalar para ajeitar o vestido de sua neta de 1 ano. “Não temos dinheiro para comprar leite.” 

Do outro lado do recinto, Desrosiers repousava a mão sobre o filho recém-nascido, num tipo de abraço tranquilizador, tentando fazer o bebê parar de chorar e dormir em paz.   

“Espero”, afirmou Desrosiers, olhando para o filho, “que a vida dele não seja como a minha”. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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