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No Haiti, relatos contraditórios sobre ex-militares colombianos geram suspeita sobre governo

Parentes de detidos dizem que eles foram ao Haiti para proteger o presidente

Simon Romero e Julie Turkewitz, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2021 | 20h00

Em um fim de tarde no final de junho, Mauricio Javier Romero, um veterano militar colombiano condecorado há 20 anos, recebeu uma ligação de um velho companheiro do Exército. O amigo queria recrutá-lo para um trabalho "legal" e "seguro", que o enviaria para o exterior, segundo a mulher de Romero, Giovanna.

"Essa pessoa disse para ele que não enfrentaria problemas", disse ela, "que era uma boa oportunidade de crescimento profissional, crescimento econômico, e como sabia que meu marido era um ótimo profissional queria que ele fizesse parte do time".

Um mês depois, Mauricio Romero, 45, está morto. Foi um dos vários homens mortos no Haiti depois do assassinato do presidente Jovenel Moïse na semana passada, e um dos cerca de 20 colombianos que as autoridades haitianas envolveram no caso que mergulhou o país caribenho no caos.

Pelo menos 18 dos colombianos estão sob custódia no Haiti, e pelo menos dois morreram. Mas enquanto o primeiro-ministro interino e membros de seu gabinete apresentaram os colombianos como peças centrais de uma trama bem organizada e executada por "mercenários estrangeiros" para matar Moïse, restam perguntas críticas sobre qual foi o seu papel no assassinato.

Uma pista potencial para a presença colombiana surgiu no final do domingo, 11, quando autoridades haitianas disseram que tinham prendido um médico nascido no Haiti e residente na Flórida, que descreveram como uma figura central na trama de assassinato. O médico, Christian Emmanuel Sanon, de 63 anos, teria contratado a companhia de segurança privada da Flórida que recrutou pelo menos alguns dos colombianos.

"Ele chegou em um avião particular em junho, com objetivos políticos, e contatou uma firma de segurança privada para recrutar as pessoas que cometeram esse ato", disse o chefe da Polícia Nacional do Haiti, Leon Charles.

O principal promotor do país também começou a examinar que papel as forças de segurança haitianas podem ter desempenhado na operação que matou o presidente e feriu sua mulher, mas não atingiu mais ninguém na casa ou da segurança pessoal do presidente.

Nas ruas do Haiti, há um ceticismo generalizado sobre a linha oficial do governo, e muitas pessoas se perguntam como os atacantes conseguiram entrar em um complexo fortificado defendido pelas forças de segurança do Haiti sem causar mais mortes.

E, na Colômbia, alguns parentes dos ex-militares detidos dizem que eles foram para o Haiti para proteger o presidente, e não para matá-lo, aumentando as afirmações nebulosas e muitas vezes contraditórias que rodeiam o assassinato. "Mauricio nunca teria se prestado a essa operação", disse Giovanna Romero, 43, "não importa a quantia que lhe oferecessem".

A Colômbia, que sofreu décadas de conflito interno, tem militares que estão entre os mais bem treinados e financiados da América Latina, há muito ajudados pelos Estados Unidos. Por isso, os veteranos colombianos são muito procurados por companhias de segurança globais, que os utilizaram até no Iêmen e no Iraque, às vezes pagando a cada um até US$ 3.000 por mês (R$ 15.750) —quantia substancial comparada com os salários que poderiam ganhar na Colômbia.

Mauricio Romero havia entrado para as forças com 20 e poucos anos, numa época em que guerrilheiros de esquerda e grupos paramilitares aterrorizavam grande parte do país. Quando ele se aposentou, em 2019, era um primeiro sargento que tinha servido em todo o país e ganhado a distinção de "perito lanceiro", um treinamento especializado para tropas de elite semelhante ao programa de Patrulheiro do Exército dos EUA.

Giovanna Romero descreveu seu marido como alguém que segue as regras. "Se você fizer as coisas certas", ele costumava dizer, "a vida será boa". Ele estava se adaptando à vida civil, disse ela, e às vezes dizia sentir falta da camaradagem e do senso de objetivo que tinha com os militares.

O telefonema que ele recebeu em junho foi de seu amigo Duberney Capador, de 40 anos, outro militar aposentado com treinamento em forças especiais. Capador também tinha deixado a força em 2019 e vivia com sua mãe em uma fazenda da família no oeste da Colômbia.

Segundo sua irmã, Yenny Carolina Capador, de 37 anos, ele deixou a fazenda e viajou para o Haiti em maio, depois de receber uma oferta de trabalho de uma companhia de segurança. Os irmãos conversavam com frequência, e Duberney disse a Yenny que sua equipe estava treinando e estava encarregada de proteger uma pessoa "muito importante". "O que eu tenho 100% certeza é que meu irmão não estava fazendo o que estão dizendo, que ele ia prejudicar alguém", insistiu Yenny. "Eu sei que meu irmão foi cuidar de alguém."

Duberney mandou para a irmã fotos dele de uniforme —uma camisa polo preta com o logotipo de uma companhia de segurança da Flórida chamada CTU, que, segundo as autoridades do Haiti, Sanon tinha contratado para o complô. A CTU é dirigida por um homem chamado Antonio Intriago. Ele não respondeu a mensagens solicitando comentários, e o escritório da CTU estava fechado quando um repórter esteve lá no sábado, 10.

Capador estava tentando convencer Mauricio Romero a acompanhá-lo. Giovanna disse que ela e o marido conversaram a respeito naquela noite de junho e decidiram que era uma boa oportunidade para progredir financeiramente. Eles tinham uma hipoteca para pagar e dois filhos para criar, e a pensão do exército de Mauricio só cobria o básico. "Se você fizer isso", Giovanna disse que falou para seu marido, "vou apoiá-lo como fiz durante os 20 anos que estamos juntos".

Mauricio chegou ao aeroporto na capital da Colômbia, Bogotá, no sábado, 5 de junho, onde comprou uma passagem de avião e rumou para a República Dominicana, vizinha do Haiti. Giovanna disse que a última vez que falou com ele foi na terça-feira, 6. Ele disse que estava protegendo um homem que chamava de "patrão" e que tinha conexão de celular limitada, mas queria dar notícias. "Estou bem", ele lhe disse. "Eu a amo muito." "Depois falamos mais", continuou ele. Foi apressado, mas Giovanna não ficou preocupada.

No dia seguinte, porém, ela ouviu no noticiário que o presidente do Haiti tinha sido morto e que poderia haver colombianos envolvidos. Quando ela não conseguiu contatar o marido, sua cabeça começou a girar. Na última sexta-feira, 9, o Ministério da Defesa da Colômbia divulgou os nomes de 13 colombianos encontrados no Haiti. Seu marido era um deles.

O ministério também disse que estava investigando quatro empresas que, a seu ver, tinham recrutado colombianos para um trabalho no Haiti.

Pouco depois, a filha de Giovanna Romero, de 20 anos, recebeu uma mensagem com um vídeo mostrando o corpo de um homem. Parecia ser seu pai. "Mami, é verdade que não é ele?", a filha perguntou. "Certo, Mami? Não pode ser". Mas Romero reconheceu o rosário pendurado no peito do cadáver. Era seu marido.

As autoridades haitianas disseram que um grupo de assalto invadiu a residência de Moïse nos arredores da capital, Porto Príncipe, na última quarta-feira, 7,  por volta de 1h, matando-o a tiros e ferindo sua mulher, Martine Moïse, no que as autoridades chamaram de operação bem planejada, que incluiu "estrangeiros" que falavam espanhol.

Em vídeos filmados de prédios próximos e obtidos pelo The New York Times, as pessoas que parecem estar chegando para assassinar o presidente gritavam que faziam parte de uma operação da agência antidrogas dos Estados Unidos (DEA). O departamento disse que não esteve envolvido.

Não está claro qual foi a participação dos colombianos na operação. Mais tarde na manhã de quarta, Yenny Capador disse que começou a receber telefonemas e mensagens de texto de seu irmão, Duberney. Ele lhe disse que estava em perigo, cercado numa casa, com balas voando ao seu redor. Yenny pôde ouvir os tiros ao fundo.

Ela disse que seu irmão lhe falou que tinha chegado "tarde demais" para salvar a "pessoa importante" que, segundo afirmava, tinha sido contratado para proteger. A polícia haitiana também deteve pelo menos dois haitiano-americanos ligados à morte do presidente.

As autoridades locais apresentaram poucas evidências ligando qualquer suspeito ao crime. Em entrevista, o juiz Clément Noël, que está envolvido na investigação, disse que os dois haitiano-americanos afirmaram que estavam trabalhando apenas como intérpretes na operação e que tinham encontrado os outros participantes em um hotel elegante no subúrbio de Pétionville, em Porto Príncipe, para planejar o ataque. O objetivo não era matar o presidente, disseram eles, mas levá-lo ao Palácio Nacional.

Dias depois do assassinato, Steven Benoit, um ex-senador e importante figura da oposição, estava entre os que disseram achar difícil acreditar que os colombianos foram responsáveis pelo assassinato. "A história simplesmente não fecha", disse Benoit em entrevista por telefone, de Porto Príncipe. "Como é possível que nenhum guarda de segurança no complexo presidencial levou um tiro, ou sequer um arranhão?"

Benoit também questionou por que os colombianos que estavam no local do assassinato não tentaram imediatamente fugir do país depois que Moïse foi morto. Em vez disso, ficaram no local e foram mortos ou capturados.

No sábado, Giovanna Romero deu para seu filho de 6 anos a notícia de que "papai não vai voltar". Ela disse que ainda não foi procurada por investigadores colombianos ou haitianos, mas pediu que eles digam logo a verdade para que as famílias dos envolvidos "possam ter um pouco de paz".

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