No Iêmen, o rock como arma

Universitário cria primeiro e único grupo de música ativista iemenita e toca diante de centenas de milhares de pessoas

GAAR ADAMS , FOREIGN POLICY / SANAA , O Estado de S.Paulo

27 Maio 2012 | 03h07

Nos últimos dias de 2010, um aplicado estudante de medicina estava comigo numa rua empoeirada no coração da capital do Iêmen. Eu havia acabado de visitar a ONG médica na qual ele trabalhava, e lembro-me de ter conversado rapidamente com ele sobre seus iminentes exames e lutado para acompanhar o vocabulário arcaico de biologia em árabe que ele salpicava em nosso bate-papo. Esse pedantismo pareceu especialmente chocante depois quando ele confessou - espremido comigo no banco de trás de um enferrujado táxi - que seus pais tinham acabado de pô-lo para fora de casa por tentar começar uma banda de rock.

Enquanto perambulava pelas salas mal iluminadas da ONG falando sobre a licença para exercer a medicina, Ahmed Asery, um rapaz magro com cabelos curtos e uma camisa enfiada na calça, não se parecia em nada com um aspirante a astro do rock. Mas naquela corrida de táxi, pelas ruas estreitas da capital de um dos países mais conservadores do mundo, Ahmed só falava da empolgação de aprender a dedilhar sua guitarra de segunda mão. Dito isso, ele saltou do táxi e se foi.

Isto é, até algumas semanas depois, quando eu o vi por toda a internet tocando aquela mesma guitarra diante de multidões de causar inveja a qualquer produtor de turnês. Eu não esperava voltar a ver Ahmed. Certamente não esperava vê-lo bombando no YouTube. Mas aí uma coisa chamada Primavera Árabe mudou tudo.

Os protestos transformaram o pomposo aluno de medicina da Universidade de Sanaa num revolucionário de cabelo rastafári tocando diante de centenas de milhares de pessoas na Praça da Mudança. E a banda pela qual Ahmed perdera sua família - 3 Meters Away - ficou sendo o primeiro e único grupo de música ativista do Iêmen, fazendo shows no coração do movimento de protesto iemenita.

Entre meu primeiro encontro com ele e meu retorno ao Iêmen, em janeiro, Ahmed passou de rapaz magrelo perto de obter um diploma de medicina a alguém apresentado como "o artista da revolução" diante de multidões de seus concidadãos que o idolatram.

A Primavera Árabe, seria dispensável dizer, ainda precisa resolver os problemas candentes do Iêmen. Ali Abdullah Saleh, que governou o país com uma combinação de astúcia e força bruta por mais de três décadas, pode ter renunciado, mas seus aliados continuam nos postos mais sensíveis do país. O novo líder do Iêmen não saiu das fileiras dos manifestantes - ele é o ex-vice-presidente do próprio Saleh, o marechal de campo Abed Rabbo Mansur Hadi, cujo governo foi confirmado numa eleição presidencial em fevereiro na qual ele era o único candidato. E ninguém entre os muitos poderes beligerantes no Iêmen parece ter uma resposta para as mazelas que assolam o país.

Os tumultos no Iêmen conspiraram para criar um conjunto de problemas que, é justo que se diga, astros do rock como Mick Jagger nunca foram obrigados a enfrentar em sua ascensão. E hoje, quase um ano após nosso primeiro encontro, Ahmed faz uma breve parada em suas próprias tentativas de corrigir seu combalido país com uma canção de rock de cada vez para buscar algo que parece unificar músicos de todo o mundo: drogas.

Empurrando-me através de multidões de manifestantes que gritavam na Praça da Mudança, nós começamos uma busca cada vez mais desesperada para achar qat, um estimulante local popular para mascarmos.

"Eu não costumava usar qat", confessou Ahmed encabulado, acelerando o passo enquanto passávamos ao lado das imagens horríveis de manifestantes mortos pregadas nos lados de tendas que permaneceram em protesto desafiador contra o governo iemenita há quase um ano. "Isto é, até quatro meses atrás. Estávamos fazendo um show em Djibuti, e alguns diplomatas nos viram. Eles me convidaram a mascar com eles e falar sobre nossas perspectivas para o Iêmen."

Ahmed inclina-se para juntar-se a um grupo de homens ávidos vasculhando sacos de qat e inspecionando um entregue a ele por um homem velho e desdentado. Ahmed franze o rosto ante as folhas murchas, devolve o saco, e se despede do vendedor. "Como eu poderia dizer não a uma oportunidade como esta de falar sobre o Iêmen?" No meio da massa de manifestantes, a busca continua. Seu cabelo rastafári e camiseta azul claro - uma imagem apagada de Gandhi estampada na frente - destoa das túnicas dos homens ao seu redor.

"Não é aquele homem da televisão?", sussurra uma jovem usando um niqab completo para sua amiga, esticando discretamente a mão enluvada de preto para Ahmed quando passamos por elas. Eu sorri para Ahmed em reconhecimento de sua admiradora, e percebi que ela não é a única - sussurros, apertos de mão e convites para jantar o saúdam a todo momento.

Nós finalmente encontramos o qat adequado. Quando os protestos eclodiram na Tunísia e no Egito, no ano passado, os iemenitas fizeram causa comum com cidadãos de todo o mundo e se levantaram contra seu governante de longa data. A vocalização dessas críticas por Ahmed ficou, por um momento, ruidosa demais - ele passou dois meses compondo e tocando na Etiópia e em Djibuti quando as forças governamentais ficaram muito interessadas nele. "Vamos voltar para a banda", ele insiste. No caminho, aperta a mão de um amigo revolucionário segurando um AK-47. Outros dois, com sorrisos largos, acenam com suas armas para ele, o artista de sua revolução. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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