No Irã, as pessoas querem se divertir

Ocidentais que consideram os iranianos fundamentalistas religiosos se enganam; muitos deles se interessam mais pelo lazer do que pelo fanatismo

NICHOLAS, D. KRISTOF, THE NEW YORK TIMES , É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2012 | 03h04

TEERÃ - Um dos mal-entendidos mais perniciosos do Ocidente em relação aos iranianos está na ideia de que eles sejam ardentes fanáticos religiosos.

Cerca de metade dos iranianos tem menos de 25 anos e o Irã fez um trabalho consistente no aprimoramento do nível de seu ensino. Durante os 2.700km de minha viagem pelo Irã, fiquei surpreso ao ver que um grande número de iranianos partilha dos valores americanos, interessados mais na diversão do que no fanatismo. Eles não procuram tanto as mesquitas quanto os parques de diversões (que são onipresentes no país).

"Os jovens não vão de fato às mesquitas", disse um rapaz de 23 anos no leste do Irã, exagerando animadamente. "Queremos mais formas de diversão." Ele disse que bebe - o álcool é ilegal, mas pode ser encontrado por toda parte - e deixou recentemente de usar drogas. As autoridades iranianas indicaram que até 10% da população faz uso de drogas ilegais, em geral ópio e heroína, embora as metanfetaminas estejam ganhando cada vez mais espaço.

Esse rapaz tinha participado dos protestos de 2009 por democracia, mas disse ter sido detido e espancado por dias, perdendo um dente no processo. Isso o afastou do ativismo político e, como muitos outros iranianos, hoje ele só pensa em viajar para o exterior.

No noroeste do país, esse sentimento de desesperança levou alguns jovens de origem étnica turca a pensar na secessão, para se juntar ao Azerbaijão. Nos jogos de futebol em Tabriz, os fãs às vezes irritam as autoridades com gritos de guerra separatistas.

Seria difícil de imaginar um nova-iorquino chocado com a libertinagem de Teerã, mas fiquei pasmo diante da paquera entre os solteiros de lá: jovens em carros chamativos procuram namoradas, passam cantadas nelas e saem com elas no banco do passageiro. Há também a prostituição - o ex-comissário de polícia de Teerã foi detido em 2008 num bordel, na companhia de seis prostitutas.

Devemos lembrar que o Irã é a pátria não apenas dos austeros aiatolás como também do hedonismo romântico do Rubaiyat de Omar Khayyam. Na tradução em versos de Richard Le Galliene: "Acaso crês que Deus fez as uvas crescerem para ao mesmo tempo fazer da bebida um pecado?"

Nos anos 70, jovens iranianos insatisfeitos se rebelaram contra um corrupto regime secular ao adotar uma forma ascética de islamismo.

Agora eles estão se rebelando contra um corrupto regime religioso ao adotar a liberdade individual - em certos casos, até sexo, drogas e rock'n'roll.

Eles também costumam ver com bons olhos os Estados Unidos, algo bastante surpreendente. No Paquistão, no Afeganistão e no Egito, os americanos investem bilhões de dólares em auxílio e, ainda assim, são com frequência detestados por todos. Cheguei ao Irã e fui recebido com presentes!

Essa cultura jovem do Irã é nutrida pela internet - dois terços dos lares iranianos têm computadores - e pelos canais de TV via satélite, que são proibidos, mas assistidos por todos. Uma pesquisa realizada via telefone, em conjunto entre a emissora BBC e o instituto Gallup, em março, constatou que um terço dos iranianos admitiu ter assistido a canais via satélite na semana anterior - e o número real de espectadores pode ser muito mais alto.

"O efeito dos canais via satélite é substancial", disse uma jovem que afirmou ter ficado pasma ao ver pela primeira vez as muçulmanas turcas usando biquínis, concluindo gradualmente que havia mais de uma maneira de se viver.

A polícia realiza batidas para confiscar antenas parabólicas e os moradores podem receber multas de até US$ 400 por tê-las em casa, mas a repressão não é muito eficiente.

"Percebemos que é a polícia vindo para recolher as parabólicas e simplesmente não abrimos a porta", disse um comerciante de Gorgan. "Daí eles levam a parabólica" e vão embora sem aplicar a multa.

A pirataria de músicas, vídeos e jogos eletrônicos é generalizada. Um dos jogos mais populares no país é o - proibido - Battlefield 3, no qual forças americanas invadem Teerã. Num dos lares que visitei, as crianças estavam jogando Grand Theft Auto.

Esses jovens são o futuro do Irã e podem ser nossos aliados. Mas, por mais que tenhamos uma estratégia para as negociações nucleares, não sei ao certo se o Ocidente tem uma estratégia para o próprio Irã.

Os governantes ocidentais enxergam o Irã como um país fanático, assim como era considerada a China nos anos 60. Naquela época, falava-se numa opção militar contra a China e, se tivéssemos seguido este rumo, talvez Pequim ainda fosse governada por maoistas - uma versão maior da Coreia do Norte.

Minha viagem pelo Irã me deixa convencido de que a mudança chegará até aqui, desde que tenhamos a paciência necessária para não perturbar as forças que agem no subterrâneo: a escolaridade cada vez mais alta, a expansão da classe média, a crescente frustração econômica, a erosão do monopólio do governo sobre a informação. Tenho o palpite de que, se for evitada uma guerra entre o Irã e o Ocidente - que provavelmente teria como resultado o fortalecimento do regime do país -, os linhas-duras terão o mesmo destino de Mao e o Irã um dia se tornará mais parecido com a Turquia.

Penso num dos jovem que conheci, que disse, pensativo: "É normal que um menino e uma menina queiram ficar juntos. Qual é o problema nisso?". Os românticos estão do nosso lado e são muito mais numerosos do que os fanáticos. Devemos apostar neles, e não nas bombas, enquanto agentes da mudança. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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