Raouf Mohseni/Reuters
Raouf Mohseni/Reuters

No Irã, deputados pedem pena de morte a opositores

Mehdi Karroubi e Mir Mousavi foram impedidos de ir aos últimos protestos; Parlamento os acusa de crime punido com execução

Alan Cowell e Neil MacFarquhar, The New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2011 | 00h00

Um dia após os protestos de rua mais importantes no Irã desde o fim da manifestação de 2009 contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, membros do Parlamento do país pediram que os dois mais destacados líderes da oposição sejam acusados e sentenciados à morte por incitar os tumultos.

O pedido veio no momento em que os confrontos entre autoridades e manifestantes inspirados na Tunísia e no Egito continuaram proliferando em outras partes do mundo árabe. Os protestos em Teerã e outras cidades iranianas na segunda-feira levaram milhares às ruas, desafiando a proibição oficial e revivendo lembranças dos protestos que abalaram o país após a contestada eleição presidencial de 2009. As manifestações no Irã foram convocadas em apoio aos protestos no norte da África, mas logo se transformaram no que figuras da oposição descreveram como uma retomada do sentimento antigoverno que as autoridades tentam sufocar.

Os dois principais líderes de oposição, Mehdi Karroubi e Mir Hossein Mousavi, foram impedidos de participar das manifestações da segunda-feira. Mesmo assim, segundo a agência oficial de notícias Irna, 222 dos 290 parlamentares do país emitiram ontem uma declaração dizendo que eles "são corruptos sobre a terra e deveriam ser julgados".

O delito de ser "corrupto sobre a terra", um indiciamento genérico de dissensão política, é punido com a morte. Não ficou claro se os dois homens seriam detidos. Ambos estão sob prisão domiciliar, com as comunicações e os movimentos limitados.

O procurador-geral e porta-voz da Justiça do Irã, Gholam-Hossein Mohseni-Ejei disse que o Judiciário tratará "com firmeza e rapidez" dos que estão por trás dos tumultos, segundo a estatal Press TV.

A fúria oficial pareceu denotar o desconforto e embaraço das autoridades diante da habilidade de seus oponentes para controlar uma significativa demonstração de desafio.

Um porta-voz do opositor Mousavi disse que os protestos mostraram que o Movimento Verde, constituído para questionar a contestada eleição de 2009, havia conquistado uma "grande vitória" e estava "vivo e bem" - apesar da enorme repressão do governo.

Os protestos não foram imediatamente noticiados na mídia estatal do Irã na segunda-feira e um resumo das manchetes dos jornais apresentado ontem pela Irna não fez referência a eles.

As reportagens iniciais disseram que uma pessoa morreu nos confrontos. O morto foi identificado como Saane Zhaleh, um estudante da Universidade de Arte de Teerã.

Mas o governo e a oposição disputaram sua lealdade: as autoridades dizendo que ele foi baleado por opositores do regime; enquanto a oposição dizia que ele foi espancado até a morte por policiais à paisana que rodavam pelas ruas em motos na terça-feira. A agência estudantil de notícias Isna afirmou que duas pessoas morreram, mas não houve confirmação oficial.

PARA LEMBRAR

Em junho de 2009 o Irã viveu seus maiores distúrbios desde a revolução de 1979. O estopim da rebelião foi a suposta fraude eleitoral que deu a reeleição a Mahmoud Ahmadinejad. Manifestantes foram violentamente reprimidos e levados aos porões do aparato de segurança. Segundo analistas, os protestos causaram ainda um "desequilíbrio" na estrutura da República Islâmica: o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, rompeu seu papel de fiador apartidário do sistema e tomou partido de Ahmadinejad na luta entre facções.

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