EFE/EPA/PRESIDENTIAL OFFICE
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No Irã, escassez de água inflama protestos contra o governo

Uma prolongada seca agravada pela mudança climática e má gestão do governo acrescentou um novo elemento ao turbilhão de desafios no Irã, que vão da pandemia às sanções dos EUA

Farnaz Fassihi/ The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2021 | 20h00

O Irã está lutando com uma quinta onda da pandemia do coronavírus, uma economia afetada pelas sanções americanas e negociações paralisadas sobre o resgate de um acordo nuclear que já foi visto como uma salvação econômica para país. Agora, os iranianos enfrentam uma crise diferente, mas previsível: uma grave escassez de água.

Uma seca prolongada e o aumento das temperaturas devido à mudança climática, combinados com décadas de má gestão dos recursos naturais pelo governo e falta de planejamento, transformaram a crise da água em uma incubadora de protestos e violentos distúrbios.

Na semana passada, manifestantes invadiram as ruas da árida província do Khuzistão, que detém 80% do petróleo do Irã e 60% de suas reservas de gás, e é um pilar econômico crítico.

A província, no sudoeste do país, se tornou o epicentro dos protestos.

Os manifestantes foram recebidos por forças de segurança cuja repressão às vezes se tornou mortal - alimentando mais raiva que está se espalhando em outros lugares.

O Khuzistão é o lar de uma população de etnia árabe que historicamente enfrentou discriminação, e isso inclui um movimento separatista rebelde. Mas os manifestantes insistem que sua reclamação não está ligada ao separatismo.

“Continuamos gritando:‘Queremos água, apenas água, não temos água’”, disse Mohammad, de 29 anos, um vendedor ambulante de etnia árabe, em uma entrevista por telefone ao The New York Times de Ahvaz, capital da província do Khuzistão. “Eles nos responderam com violência e balas.”

Grandes multidões no Khuzistão gritando: "Estou com sede!" - capturados em vídeos amadores e compartilhados nas redes sociais - exigiram alívio imediato e a demissão de autoridades locais. Alguns manifestantes foram mais longe, denunciando altos funcionários em Teerã, incluindo o aiatolá Ali Khamenei, o líder supremo.

Sinalizando que os protestos chamaram sua atenção, Khamenei comentou sobre eles publicamente pela primeira vez na quarta-feira, dizendo em sua conta no Instagram: “As autoridades são obrigadas a resolver os problemas do Khuzistão”.

Este novo desafio para as autoridades, embora esteja sendo feito há muito tempo, chega apenas algumas semanas antes de um novo presidente ultraconservador e discípulo de Khamenei, Ebrahim Raisi, assumir o cargo, fornecendo um teste inicial de como ele responderá.

Conhecido por sua crueldade com a dissidência política, Raisi, o ex-chefe do judiciário do país, enfrenta uma tarefa mais delicada ao lidar com iranianos comuns, cuja queixa básica é a falta de água.

Os manifestantes têm aliados entre os legisladores do Irã, que, como Raisi, são todos defensores fervorosos da hierarquia que governa o Irã desde a revolução islâmica, há mais de quatro décadas.

“Resgatar o Khuzistão e seu povo oprimido! Devolva o que ele merece!”, gritou Mojtaba Mahfouzi, o membro do Parlamento por Abadan, uma cidade rica em petróleo no Khuzistão, em um discurso na segunda-feira no plenário do Parlamento.

Não dá para os funcionários do governo fingirem surpresa. As consequências de uma seca que se intensifica estão se aproximando.

O ministro da Energia advertiu em maio que o Irã enfrentaria o verão mais seco em 50 anos e que as temperaturas próximas a 50 graus Celsius — 122 graus Fahrenheit — levariam a cortes de energia elétrica e escassez de água.

A organização meteorológica do Irã avisou em junho que as áreas sul e oeste sofreram uma redução de 50% a 85% na precipitação e um aumento de temperatura de dois a três graus Celsius.

O Khuzistão detém 80% do petróleo do Irã e 60% de suas reservas de gás, e é um pilar econômico crítico. Suas terras antes exuberantes cultivavam cana-de-açúcar, trigo e cevada. Mas com a escassez de água, as safras murchando e o gado morrendo de sede, o governo enfrenta um de seus desafios mais sérios.

Sua resposta até agora se encaixou em um padrão familiar: repressão severa aos protestos, mesmo quando as autoridades dizem que reconhecem as reclamações dos manifestantes sobre a falta de água como legítimas.

Forças de segurança e policiais antimotim foram enviados para esmagar a agitação inicial no Khuzistão. Eles espancaram a multidão com cassetetes, espalharam gás lacrimogêneo, rastrearam com drones e dispararam tiros, de acordo com testemunhas e vídeos compartilhados nas redes sociais.

Três jovens foram baleados e mortos pelas forças de segurança, de acordo com organizações de direitos humanos. Autoridades locais, em uma narrativa típica, disseram que atiradores de tribos locais foram responsáveis por pelo menos duas das mortes. A mídia estatal informou que um policial foi morto.

Qualquer indício de que os protestos estavam ligados ao movimento separatista quase certamente seria usado pelo governo para justificar uma resposta ainda mais dura. Mas os manifestantes nas ruas e online deixaram claro que suas queixas são sobre um problema: a escassez de água. E os grupos separatistas não aproveitaram os protestos para fazer avançar sua causa.

Ainda assim, a repressão inflamou ainda mais a inquietação e gerou frustrações acumuladas contra a liderança da República Islâmica. E os protestos se espalharam por pelo menos duas grandes cidades fora da província, Teerã e Mashhad, onde as multidões mostraram solidariedade ao Khuzistão.

Na cidade de Izeh, no Khuzistão, os manifestantes aplaudiram e gritaram "Morte a Khamenei" e "Não queremos uma República Islâmica", de acordo com vídeos nas redes sociais. Em uma estação de metrô em Teerã, os vídeos mostraram passageiros gritando “Morte à República Islâmica”, enquanto esperavam os trens.

Um grupo de dissidentes proeminentes, incluindo Narges Mohammadi, um ativista de direitos humanos, foi espancado e detido por um dia depois de se reunir em frente ao Ministério do Interior em Teerã, no que eles descreveram como um ato de solidariedade ao povo do Khuzistão.

O governo enviou uma delegação ao Khuzistão para investigar a crise da água, e o presidente do Irã, Hassan Rohani, prometeu alívio e compensação aos residentes da província antes de deixar o cargo. Dois ex-presidentes, Mohammad Khatami e Mahmoud Ahmadinejad, também expressaram apoio aos manifestantes e condenaram a violência contra eles.

Mas especialistas em meio ambiente e água disseram que medidas de curto prazo, como o transporte em caminhões-tanque de água, fariam pouco para resolver o problema. A abertura de represas e reservatórios ofereceria um remédio temporário no Khuzistão, mas causaria escassez de água em locais como a cidade central de Isfahan e a província vizinha.

O protesto pela água explodiu nas redes sociais na sexta-feira, mas vinha fermentando lentamente por semanas, de acordo com um ativista árabe e dois manifestantes no Khuzistão.

Tudo começou em 6 de julho, quando um xeque tribal árabe da aldeia de Marvaneh viajou para Ahvaz com um grupo de fazendeiros e pecuaristas para reclamar sobre a crescente crise de água para funcionários do centro de água e eletricidade da província.

“Olha, não vamos sair dessa terra, vocês nos trouxeram enchentes e secas para nos fazer migrar. Não vamos embora, esta é nossa terra ancestral ”, gritou o xeque Khalifah Marwan, vestindo um dishdasha branco e um lenço xadrez azul, para os funcionários sentados em uma mesa de conferência, de acordo com um vídeo compartilhado com o The New York Times.

O apelo do xeque se tornou viral no Instagram entre árabes, inflamando uma crença de longa data de que o governo central havia deliberadamente imposto políticas que forçariam seu deslocamento e mudariam a demografia do Khuzistão.

As pessoas começaram a compartilhar suas próprias histórias, fotos e vídeos de fazendas ressequidas e búfalos desidratados chafurdando na lama. Eles fizeram apelos para protestos no Instagram e no WhatsApp, enfatizando o foco na crise da água e na não violência, de acordo com dois ativistas envolvidos.

Os desafios ambientais do Khuzistão são gritantes: reservatórios vazios, pântanos secos, tempestades de poeira paralisantes, calor extremo, incêndios florestais e grave poluição do ar, da água e do solo pela indústria do petróleo.

“A pressão que eles colocaram no sistema por um longo tempo é mais do que sua capacidade ecológica”, disse Kaveh Madani, um cientista especializada em água e clima da Universidade de Yale e ex-vice-chefe da agência ambiental do Irã. “O Khuzistão, como a maior parte do Irã, está falido neste momento.”

Madani disse que governos consecutivos manipularam e esgotaram os recursos naturais em favor da criação de empregos. Ele citou, por exemplo, um projeto que redireciona os recursos hídricos do Khuzistão por meio de dutos e túneis para as regiões climáticas do deserto central.

Protestos já ocorreram antes por causa da escassez de água no Irã. Agricultores perto de Isfahan fizeram manifestações durante a seca de um rio que havia sido seu salva-vidas agrícola. Ambientalistas protestaram contra a seca de um lago salgado histórico em Urmia, no oeste do Irã.

Mas a confluência da mudança climática, seca, pandemia e isolamento prolongado por causa das sanções americanas aumentaram as preocupações que alimentam os protestos mais recentes.

“Estamos enfrentando uma grave escassez de energia e água em todo o país”, disse Sadegh Alhusseini, um importante economista do Irã, na terça-feira em uma discussão no popular fórum online Clubhouse, com a presença de milhares de iranianos. “Se o tempo não melhorar nos próximos meses, vai piorar.”

Alhusseini atribuiu o problema em parte aos subsídios do governo que permitem tarifas baratas de eletricidade e água, levando ao consumo excessivo e perdulário. Mas qualquer aumento nos preços arrisca ainda mais descontentamento, já que a maioria dos 85 milhões de habitantes do Irã tem dificuldades financeiras.

Em novembro de 2019, um aumento repentino nos preços da gasolina gerou protestos em todo o país que rapidamente se transformaram em apelos pela derrubada do governo. As autoridades responderam fechando a internet por dias e usando força letal contra os manifestantes. Grupos internacionais de direitos humanos disseram que pelo menos 300 pessoas foram mortas e 7.000 presas.

Os residentes do Khuzistão lideraram os distúrbios de 2019 e sofreram o maior número de vítimas. “O sistema está em gerenciamento de crises”, disse Madani, o cientista do clima. “Basicamente saltar de uma crise para a outra e colocar um band-aid em cada uma e torcer para que não volte logo.”

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