No Irã, 'reformistas' obstruem a verdadeira revolução

Eles participaram da Revolução de 1979 e do rígido regime que surgiu

O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2011 | 03h02

Uma onda revolucionária está varrendo o Oriente Médio. Mas não no Irã, cujo povo tentou o próprio levante há dois anos e fracassou.

A visão comum é que prisões em massa, repressão violenta e o apagão nas telecomunicações desmobilizaram o pacífico Movimento Verde em 2009, quando manifestantes tomaram as ruas para protestar contra eleições presidenciais fraudadas. Mas os próprios "reformistas" do Irã merecem boa parte da culpa. E eles ainda obstruem o caminho da mudança.

Por reformistas, não me refiro à ampla camada de iranianos que cobrava que seus votos fossem contados. Estou me referindo aos que participaram da Revolução de 1979 para derrubar o xá, e fazem - ou fizeram - parte do rígido regime teocrático que surgiu. A revolução foi liderada, em parte, por democratas, mas adotou uma linha-dura após um golpe violento.

Gradualmente, essas elites vieram a reconhecer a falta de legitimidade e isolamento da teocracia dentro da sociedade iraniana em geral. Elas apoiam um regime mais democrático. Esses reformistas incluem figuras proeminentes: o ex-presidente Mohammad Khatami, o clérigo Mehdi Karroubi, e Mir Hossein Mousavi, o candidato presidencial que muitos acreditam que foi o real vencedor na disputa de 2009 contra o presidente Mahmoud Ahmadinejad.

Os reformistas incluem também nacionalistas religiosos afastados do poder (mas ainda no Irã) e organizações e elites seculares e esquerdistas fora do país. Todos partilham a crença - ou, ao menos projetam a visão - de que uma revolução social provoca consequências extremas e violentas e deve ser evitada.

Durante 20 anos, esse grupo defendeu que o melhor caminho para as mudanças é trabalhar dentro do sistema existente. Isso, apesar das evidências irrefutáveis de que o regime não é passível de reforma - quando menos porque a Constituição confere ao líder supremo islâmico o poder de se sobrepor ao voto de uma nação inteira.

Infelizmente, os jovens iranianos cresceram com essa falsa esperança de reforma interna, juntamente com a visão distorcida de que revoluções geralmente resultam em violência e ditadura. Eles veem a própria revolução iraniana como um exemplo disso.

A repressão dos manifestantes pelas forças de segurança em 2009 certamente desencorajou a participação no Movimento Verde. Mas acredito que muito mais desencorajadora foi a mensagem cautelosa dos reformistas enquanto os manifestantes mudaram de "Onde está o meu voto?" para "Morte a Khamenei" (o líder supremo aiatolá Ali Khamenei) e "Independência, Liberdade, República Iraniana".

Os novos slogans surgiram depois que o líder supremo deu um ultimato aos manifestantes para que voltassem para suas casas ou enfrentassem uma repressão violenta. Mas os reformistas também criticaram a guinada retórica dos manifestantes, que implicava um apelo à mudança do regime.

Karroubi e Mousavi repudiaram as novas demandas, limitando-se a apoiar uma recontagem. Mousavi chegou ao ponto de insistir na "aplicação impecável da Constituição" (um apelo a uma contagem correta, talvez, mas que também ressaltava a autoridade do aiatolá e a mensagem gasta de reforma interna). Karroubi falou sobre "os anos dourados de Khomeini - o aiatolá Ruhollah Khomeini, fundador da Revolução de 1979.

Os reformistas provavelmente questionam a ideia de revolução, pois são assombrados pelo próprio passado. Muitos deles participaram do esmagamento violento da ala democrática da Revolução de 1979 e do golpe de 1981 contra o primeiro presidente da república, Abolhassan Bani-Sadr. Os dois eventos resultaram em prisões em massa, torturas e execuções.

Duas décadas mais tarde, esses reformistas provavelmente temem que a derrubada do atual regime inevitavelmente exponha seu papel histórico nele, privando-os de uma posição num futuro governo. Por que outra razão eles não explicam que o caminho para a reforma fracassou depois de tantos anos? Em 1997, os eleitores apoiaram o clérigo reformista Khatami para presidente, mas acabaram com um presidente linha dura, Ahmadinejad.

Os iranianos estão pagando um alto preço por permitir que reformistas façam seu jogo político com seu futuro. Não pode haver uma mudança real dentro dessa estrutura repressiva e regressiva em que clérigos autoritários têm constitucionalmente a última palavra. A intransigência é novamente visível quando o líder supremo ameaça eliminar o posto de presidente.

Para criar um movimento social incontível para a mudança, os jovens precisam se livrar de seu medo - e da ignorância - de revolução.

Rebeliões não precisam ser violentas. Afinal, a Revolução de 1979 que derrubou a monarquia foi pacífica, uma vitória das flores sobre as balas quando manifestantes carregaram rosas para fazer uma chuva de pétalas sobre os soldados em sinal de solidariedade.

Após a Revolução, seguiu-se uma "primavera de liberdades" de 28 meses - até que o golpe violento deu-lhe fim. Mas a juventude do Irã não é informada sobre esse intervalo de relativa liberdade nem mesmo pelos reformistas. Afinal, os reformistas participaram da repressão.

Um senso renovado de propósito precisa instigar um dinamismo coletivo no Irã e criar uma liderança que não dependa dos reformistas. As mulheres, principalmente, deveriam ser aproveitadas. Elas mostraram o caminho para a reforma da universidade que lhes abriu as portas fechadas da educação superior.

Somente quando uma nova geração afastar-se da canção rançosa dos reformistas desacreditados, os iranianos descobrirão a própria voz - e o próprio poder. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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