EFE/EPA/ABEDIN TAHERKENAREH
EFE/EPA/ABEDIN TAHERKENAREH

No Irã, uma debandada de jornalistas

Fraudes não são novidade na imprensa iraniana. Mas as demissões, sim

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2020 | 08h00

A crise vem fazendo vítimas silenciosas no Irã: jornalistas que não aguentam mais as lorotas contadas pela mídia estatal estão pedindo demissão. Na semana passada, quando mísseis iranianos caíram em bases do Iraque, a imprensa local teve de divulgar a morte de 80 americanos. Depois, mantiveram até o fim a versão oficial de que um Boeing havia caído por falhas técnicas em Teerã. 

“Os iranianos foram enganados”, disse Ali Fathollah-Nejad, do Brookings Doha Center. Fraudes não são novidade na imprensa iraniana. Mas as demissões, sim. Nos últimos dias, várias foram anunciadas em redes sociais, mensagens que desaparecem rapidamente.

Pelo menos duas são âncoras conhecidas. A apresentadora Zahra Khatami agradeceu aos fãs. “Obrigada por me aceitarem como âncora até hoje. Nunca mais voltarei à TV”, disse. A colega Saba Rad também abandonou a carreira. “Obrigada pelo apoio. Após 21 anos trabalhando em rádio e TV, não posso mais continuar meu trabalho na mídia.”

Outra âncora, Gelare Jabbari, não chegou a pedir demissão, mas foi ao Instagram pedir desculpas por “ter mentido” aos telespectadores nos últimos 13 anos. A associação local de jornalistas divulgou uma nota criticando a censura. “O que coloca em risco a sociedade iraniana não são apenas mísseis, mas a falta de liberdade de imprensa.”

A ONG Repórteres Sem Fronteiras (RSF) classifica o Irã como “um dos países mais repressivos do mundo”. “Jornalistas independentes estão constantemente sujeitos a intimidação, prisão arbitrária e longas penas em julgamentos injustos”, afirma a RSF.

Mesmo assim, o regime iraniano vem tendo cada vez mais dificuldades para controlar a narrativa e o ciclo de notícias. A população tem cada vez mais acesso a outras fontes, como a BBC Persian, que transmite via satélite de dentro do país. A internet também diminuiu a credibilidade da mídia oficial. Além do acesso a sites de notícias no exterior, as redes sociais se tornaram uma janela para outras fontes de informação. / W. Post

Tudo o que sabemos sobre:
Irã [Ásia]jornalismo

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.