Felipe Dana/AP
Felipe Dana/AP

No Iraque, cristãos continuam amedrontados

Para a cristandade iraquiana, as memórias dolorosas da fuga ainda estão frescas e são um obstáculo para a volta 

The Economist , O Estado de S.Paulo

06 de março de 2021 | 05h00

O papa Francisco chegará amanhã a Qaraqosh, lugarejo cristão fora de Mossul, quatro anos depois de o Estado Islâmico ter sido rechaçado. Por isso, os sacerdotes trataram de limpar Al-Tahira, uma das maiores igrejas do Iraque. Arrumaram o interior queimado e repararam a maior parte da alvenaria, usada pelos jihadistas para treinar tiro ao alvo. Lustres arrebentados e um crucifixo de ouro quebrado ainda estão no pátio de entrada. O padre Ammar Yako, que supervisiona a obra, diz que não recebeu apoio do governo e os recursos foram enviados por católicos do Ocidente. Ele afirma que terminará a tempo da chegada do Santo Padre.

Francisco é o primeiro pontífice a visitar o Iraque, onde mais de 95% da população é muçulmana. Ele chega em um momento difícil para os cristãos, cujos antepassados estão no país desde o primeiro século. As igrejas estão sendo reconstruídas, mas há poucos fiéis para pagar. Em 2003, viviam no Iraque cerca de 1,2 milhão de cristãos. A guerra e a miséria os reduziram a 250 mil, ou menos de 1% da população. Muitos dos que partiram nunca mais voltarão. Os líderes do Iraque esperam que os cristãos que abandonaram suas casas, mas não deixaram o país, voltem a se sentir seguros para retornarem ao lar. Segundo o presidente Barham Salih, a visita do papa ajudará o Iraque a “sanar suas feridas”.

O problema para os cristãos começou após a queda de Saddam Hussein, em 2003. Ele protegia o grupo – até mesmo nomeou um cristão, Tariq Aziz, seu vice-premiê. Mas alguns muçulmanos consideram o cristianismo, apesar de sua longa história na região, uma importação ocidental. A violência contra os cristãos se intensificou durante a ocupação americana e se tornou uma ameaça existencial quando áreas do país foram capturadas, em 2014. 

Os jihadistas disseram aos cristãos que poderiam partir, converter-se ao islamismo ou morrer. Em agosto de 2014, 100 mil fugiram de Nínive, centro da cristandade iraquiana, que foi conquistada. Alguns foram para Bagdá ou Irbil, capital do Curdistão, mas muitos deixaram o país. O forte ressentimento em relação aos cristãos decorre da ideia de que eles podem facilmente pedir asilo no Ocidente, afirma Pascale Warda, da Organização pelos Direitos Humanos de Hammurabi, ONG de Bagdá.

A Ajuda à Igreja Necessitada, organização beneficente católica sediada na Alemanha, calcula que a guerra destruiu ou danificou 14.936 casas e 363 propriedades da Igreja em Nínive. Cerca de 57% dos lares e 11% das propriedades foram reparadas até janeiro. Os cristãos estão voltando aos poucos. Mas muitos venderam suas casas a famílias muçulmanas. Outros não retornam em razão da falta de segurança e empregos.

A reconstrução aconteceu separadamente dos esforços para estabilizar a região, afirma Reine Hanna do Instituto Assírio de Política, de Washington. Ele calcula que em Nínive, 53% dos assírios, minoria étnica predominantemente cristã, retornaram às suas aldeias. Mas, em algumas áreas, esta porcentagem é inferior a 10%. “Quando as pessoas não se sentem seguras, não importa se reconstruíram igrejas ou casas”, diz Reine Hanna.

Os cálculos das famílias cristãs muitas vezes dependem do grupo que controla a aldeia. Pelo menos seis grupos reivindicam o poder em diferentes partes de Nínive. Entre eles, as milícias xiitas apoiadas pelo Irã (Forças de Mobilização Popular), os curdos (peshmerga) e o governo iraquiano. Em muitos lugares, os retratos de Qassim Suleimani, falecido comandante da Guarda Revolucionária, são comuns. Mas, em cidades controladas pelas unidades de Proteção de Nínive, uma milícia cristã, é o papa que sorri nos cartazes. Não surpreende que estas cidades registrem maior número de retornados.

O governo iraquiano fez pelo menos algum esforço para aproximar-se dos cristãos. No ano passado, ele declarou o Natal uma festa oficial. Mas muitos cristãos afirmam que são tratados como cidadãos de segunda classe. Eles têm mais dificuldade para conseguir empregos no governo do que os muçulmanos. A Constituição de 2005 se baseia no Islã. Os casamentos entre muçulmanos e cristãos não são bem vistos. As crianças nascidas de pais de etnias mistas são automaticamente classificadas como muçulmanas, mesmo que a criança seja produto de estupro. Em Bagdá, estabelecimentos cristãos são atacados com frequência. Os líderes cristãos foram apoiadores de grandes protestos contra o governo, em 2019.

O Curdistão é mais hospitaleiro. O projeto nacional curdo baseia-se na etnia, não na religião, e o Governo Regional do Curdistão (KRG, na sigla em inglês) tem mais dispositivos referentes ao pluralismo religioso do que o governo iraquiano. Mas o KRG nem sempre obedece às próprias leis e as tensões étnicas podem ser tão profundas quanto as religiosas. Sob o governo curdo “você pode ser cristão, mas não assírio”, explica Warda. Os assírios e os yazidis, outra minoria religiosa, sentiram-se abandonados quando os peshmergas se retiraram de Nínive, em 2014, deixando a área para o EI. Parte da desconfiança permanece.

A Usaid, a agência de desenvolvimento dos EUA, destinou US$ 27,5 milhões (o 2,5% dos seus gastos totais ao desenvolvimento no Iraque) para ajudar as pessoas a retornarem a Nínive, em 2018 e 2019. Este foi o único distrito que recebeu dos EUA um financiamento para o reassentamento. A Usaid também renegociou os termos de uma contribuição de US$ 75 milhões para a ONU, em 2018, que foi destinada a um projeto de estabilização no Iraque. A agência garantiu que US$ 55 milhões seriam gastos para ajudar as minorias religiosas em Nínive.

Quando Donald Trump era presidente dos EUA, a Usaid foi pressionada a destinar mais apoio aos cristãos. A maioria dos países ocidentais não quer ser vista favorecendo uma religião, mas alguns não se importam. Em 2017, a Hungria lançou o projeto “Hungria Ajuda”, para cristãos ao redor do mundo. Tristan Azbej, ministro húngaro, afirmou que o “projeto principal” era a reconstrução de Tesqopa, cidade predominantemente assíria em Nínive.

Para os cristãos, e para muitos iraquianos, as memórias dolorosas da fuga ainda estão frescas. Tentar afastá-los de lugares estáveis e prósperos será difícil. Convencê-los a renunciar aos vistos ocidentais será ainda mais difícil. Alguns iraquianos acham que a visita do papa aumentará a consciência da longa história do cristianismo na região e favorecerá uma grande compreensão entre os credos religiosos. Padre Yako, porém, acha que isso exigirá um esforço maior. “Outras comunidades, principalmente os muçulmanos, precisam fazer mais para que possamos nos sentir confortáveis”, disse. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA  

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