REUTERS/ Ann Wang
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Relatório simula jogo de guerra com 'poucas opções' para EUA conterem a China em Taiwan

Em tensão exacerbada entre Washington e Pequim, os EUA se opõem à expansão militar chinesa na região e a China pede que o Pentágono corte laços com Taiwan

Dan Lamothe / The Washington Post , O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2021 | 05h00

Os Estados Unidos têm “poucas opções críveis” para afrontar Pequim caso o país asiático resolva se apossar de um conjunto de ilhas administradas por Taiwan no Mar do Sul da China, o que ressalta a necessidade de Washington e Taipé constituir algum tipo de dissuasão “contra uma agressão chinesa limitada”, de acordo com os resultados de um jogo de guerra conduzido recentemente por especialistas em política externa em Washington e na região da Ásia-Pacífico

O cenário foi examinado pelo Center for a New American Security, um instituto de análise e pensamento com base em Washington, e detalhado em um relatório publicado na terça-feira, 26. O cenário supõe que forças chinesas invadem as Ilhas Pratas, capturando 500 soldados taiwaneses estacionados por lá e estabelecendo um posto militar avançado. 

Trata-se de um dilema hipotético para o Pentágono que “muitos observadores de China consideram cada vez mais plausível” - e que “reforça a necessidade de planejar regularmente exercícios militares que envolvam soldados taiwaneses e americanos”, afirma o relatório. 

O relatório surge em um momento de tensão exacerbada entre Washington e Pequim, com os EUA se opondo à expansão militar chinesa na região, e a China pedindo que o Pentágono corte laços com Taiwan. O impasse evidenciou o desafio que os comandantes militares americanos enfrentariam ao responder a uma incursão nas ilhas sem provocar uma guerra. 

O presidente americano, Joe Biden, afirmou durante discurso em um evento público transmitido pela CNN, na semana passada, que os EUA têm o "compromisso" de defender Taiwan, fazendo com que a Casa Branca emitisse um comunicado esclarecendo que “a relação de defesa dos EUA com Taiwan é orientada pela Lei das Relações com Taiwan”.

Sancionada em 1979, a legislação detalha uma política ambígua, na qual os EUA afirmam que seria objeto de “grande preocupação” se o futuro de Taiwan fosse determinado por “outros fatores que não sejam meios pacíficos”. A lei também promete abastecer a ilha com armas defensivas e declara que manterá competência para “resistir a qualquer apelo à força ou outras formas de coerção” que colocariam em risco a segurança em Taiwan.

A China tem construído há anos bases em ilhas contestadas no Mar do Sul da China e, mais recentemente, intensificou seus voos militares na zona de identificação de defesa aérea de Taiwan - manobra que, afirmam analistas, tem como objetivo exaurir os militares taiwaneses, que foram forçados a acionar caças em resposta. 

O rompimento entre China e Taiwan remonta a décadas atrás. Os comunistas venceram uma guerra civil na China em 1949, forçando seus oponentes a fugir para Taiwan. Pequim reivindica a ilha como território chinês desde então. 

Chris Dougherty, analista-sênior do Center for a New American Security, afirmou que as autoridades americanas examinaram uma simulação de como seria uma invasão total da China a Taiwan. Para esse exercício, ele e seus colegas quiseram examinar um cenário de magnitude similar à invasão e anexação russa da Península da Crimeia, na Ucrânia, em 2014. 

Dougherty, ex-integrante da força de elite militar americana Army Rangers, trabalhou como conselheiro estratégico do Pentágono por quatro anos, durante os governos Obama e Trump, e afirmou que capturar essa região - também conhecida como Ilhas  Dongsha - permitiria à China testar a reação da comunidade internacional. O status da China enquanto potência econômica, afirmou ele, dificulta para os EUA impor sanções a Pequim abertamente. 

“Podemos tanto tentar correr atrás da galinha quando dizemos 'Estamos dispostos a entrar em uma disputa arriscada com vocês sobre Dongsha’, o que - honestamente - não acredito que estejamos. Ou podemos adotar essa política similar a uma briga de travesseiros e bater neles, mas com força insuficiente para impedi-los de fazer o que não queremos que façam”, afirmou Dougherty.

Alerta

O jogo de guerra constatou que a melhor opção é alertar os chineses de antemão a respeito das consequências que enfrentariam ao ocupar as ilhas, com o Japão exercendo um papel significativo, afirma o relatório. 

“Os times americanos e taiwaneses inquiriram repetidamente a posição do Japão, sugerindo que sem o apoio japonês, a posição de negociação americana e taiwanesa ficava enfraquecida”, afirmou o relatório. “Em um potencial conflito, a ausência do apoio incondicional dos japoneses a Taiwan nesse contexto minaria esforços por uma retirada chinesa e poderia estabelecer um precedente para futuras agressões chinesas incontidas em outras disputas territoriais, incluindo sobre o território japonês, como no caso das Ilhas Senkaku.”

Questionado a respeito das declarações de Biden da semana passada, o secretário de Defesa, Lloyd Austin, afirmou: “Ninguém quer ver os problemas que atravessam o estreito (de Taiwan) chegarem às vias de fato". 

“Assim como fizemos ao longo de vários governos, continuaremos a ajudar Taiwan com os recursos necessários para os taiwaneses se defenderem, e então, manteremos o foco nisso”, afirmou Austin. / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

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