EFE/EPA/WAEL HAMZEH
EFE/EPA/WAEL HAMZEH

Manifestantes tomam o Ministério das Relações Exteriores do Líbano

Protesto deste sábado, 8, teve confronto entre populares e forças de segurança e tentativa de tomada do Parlamento

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2020 | 11h35
Atualizado 08 de agosto de 2020 | 16h21

Milhares de manifestantes tomaram neste sábado, 8, as ruas de Beirute para protestar contra o governo, quatro dias depois da explosão no porto da cidade que deixou mais de 150 mortos e 6 mil feridos. O Ministério das Relações Exteriores foi invadido e houve uma tentativa de tomada do Parlamento, com forte repressão da polícia. Em meio ao ato, que começou pela manhã, três deputados renunciaram.

O grupo que entrou no ministério era liderado por oficiais aposentados do exército libanês, que declararam o local como “a sede da revolução”. A invasão, que foi transmitida pelas TVs locais, ocorreu enquanto as forças de segurança se concentravam em manter a ordem durante o ato que ocorria na Praça dos Mártires, no coração de Beirute. Pelo menos 5 mil participaram do protesto, segundo os próprios manifestantes. O ato começou pacífico, mas acabaram em enfrentamento entre os manifestantes e a polícia.

Os oficiais penduraram bandeiras do país no prédio. “Beirute é a capital da revolução”, disseram os oficiais, de acordo com a imprensa local.

Já na praça, os manifestantes instalaram forcas de madeira. “Vingança até a queda do regime!”, repetiam as pessoas que participavam do ato. “Eles eram corruptos, agora são criminosos”, dizia um dos cartazes que era erguido em meio ao protesto. Os manifestantes saíram do bairro devastado de Mar Mikhael, em meio a entulho e pilhas de vidros quebrados, passando pelos prédios sem janelas, para chegar ao centro.

A Cruz Vermelha Libanesa disse que suas equipes transportaram 32 feridos do centro de Beirute para hospitais, enquanto 113 casos foram tratados no local. 

“Agora existe ódio e sangue entre nós e este governo”, diz Najib Farah, um empreiteiro de 35 anos. “O povo quer vingança contra quem destruiu a cidade por negligência e corrupção.”

“Não aguentamos mais. Somos reféns, não podemos sair do país, não podemos tirar dinheiro dos bancos, as pessoas estão morrendo de fome, há mais de 2 milhões de desempregados”, disse Médea Azoury, uma manifestante de 45 anos. “E agora, por negligência e corrupção, são 300 mil desabrigados, Beirute foi totalmente destruída”, afirmou. “É o grande retorno da revolução. São eles ou nós”, disse a manifestante.

Com uma vassoura na mão onde amarrou uma corda que simulava uma forca, Jad, um publicitário de 25 anos, afirmou que o governo não se deu ao trabalho de limpar as ruas após a explosão. “Andamos sobre as ruínas da nossa cidade”, afirmou. “Tivemos de varrer as ruas durante três dias, enquanto o Estado estava ausente. Ainda estamos chocados, mas uma coisa é certa: vamos fazer com que eles paguem”, disse.

Slogans contra a milícia xiita pró-Irã Hezbollah foram ouvidos na multidão - o grupo é uma grande força política no Líbano e alguns o apomtam como o responsável pela catástrofe, embora o grupo negue. “Hezbollah, terrorista!”, gritavam alguns manifestantes. Grupos atiraram paus e pedras e paus contra a polícia, que respondeu com gás lacrimogêneo para dispersá-los.

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À noite, no horário local, O primeiro-ministro libanês, Hassan Diab, anunciou que iria propor eleições parlamentares. Em discurso na TV, Diab disse que apenas “eleições antecipadas podem permitir a saída da crise estrutural”, acrescentando que está disposto a permanecer no poder “por dois meses”, enquanto as forças políticas trabalham para organizar a disputa.

Renúncia

Enquanto os atos ocorriam, o chefe do partido Kataeb, Sami Gemayel, anunciou sua renúncia - ele foi seguido por dois outros deputados do histórico partido cristão. Ele disse que havia chegado a hora de construir um “novo Líbano”.

Sua decisão segue a linha de dois outros parlamentares que renunciaram na semana passada, logo após a explosão no porto, onde era armazenado 2,750 toneladas de nitrato de amônio, um componente que usado na fabricação de fertilizantes e bombas.

“O povo libanês deve tomar uma posição histórica. Um novo Líbano deve emergir das ruínas do antigo”, disse Gemayel em um discurso emocionado no funeral do secretário- geral do partido, Nazar Najarian, que morreu na explosão.

O deputado Marwan Hamadé do bloco do líder druso Walid Joumblatt já havia renunciado na quarta-feira, dizendo que “as autoridades libanesas não são confiáveis”. A deputada Paula Yacoubian também deixou seu cargo durante a semana que passou e apelou ao restante do Parlamento que seguissem o seu exemplo.

Já na quinta-feira, a embaixadora do Líbano na Jordânia, Tracy Chamoun, filha do líder cristão Dany Chamoun, que foi assassinado em 1990, anunciou sua renúncia ao vivo pela TV atacando as autoridades locais./ AFP, REUTERS e EFE

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