No lodaçal iraquiano, diplomacia regional ganha ímpeto

A retomada das relações diplomáticas entre Iraque e Síria é a evidência mais importante do ímpeto que ganhou a diplomacia regional para a superação dos problemas iraquianos mais imediatos. Desde o momento em que ficou claro que os republicanos ? e, por extensão, a administração Bush ? seriam derrotados nas eleições americanas do início de novembro, tornaram-se mais audíveis as vozes que defendiam o estímulo ao envolvimento de Síria e Irã na problemática iraquiana. Mesmo entre aliados fidelíssimos de Bush, como o premiê britânico Tony Blair, a solução regional passou a receber apoio explícito, mesmo que isso significasse aproximar-se de integrantes do ?eixo do mal?, como o Irã. O movimento em favor dos arranjos diplomáticos locais surgiu por várias razões. Em primeiro lugar, está claro, como se ainda alguma dúvida houvesse, que o projeto original dos EUA para o Iraque e para o Oriente Médio fracassou. Isto é, não haverá nem um Iraque democrático nos moldes ocidentais nem, por conseguinte, um ?efeito dominó? que derrubaria todas as tiranias do Oriente Médio em favor dessa democratização. Em segundo lugar, como conseqüência dos erros cometidos pelos americanos, não existe mais a possibilidade de simplesmente executar a retirada dos soldados dos EUA sem que seja preparado um robusto ambiente de distensão entre as facções ora em guerra civil no Iraque. Com o Ocidente inteiramente desacreditado para exercer a função de mediador, resta agora não impedir mais que os iraquianos se aproximem de parceiros estratégicos, ainda que hostis aos EUA, para conter os ânimos internos. Finalmente, Irã e Síria, por motivos mais ou menos diversos, têm total interesse em se envolver na questão iraquiana. O caso iraniano é o mais evidente. Por um lado, Teerã enxerga no caos do vizinho uma oportunidade histórica de emergir dele como líder regional de um arco xiita que incluiria o Líbano, além do Iraque. Por outro, os iranianos estão bastante preocupados com o fato de que a guerra civil e a retirada apressada dos EUA possam resultar em um fluxo irresistível de xiitas iraquianos para dentro de suas fronteiras, criando uma indesejável crise humanitária. A Síria, por sua vez, ao aceitar retomar os contatos com o Iraque, começa a pavimentar o caminho para surgir como voz a ser ouvida no ambiente da diplomacia do Oriente Médio, superando um isolamento cada vez mais perigoso para a sobrevivência do próprio regime de Bashar al Assad. Damasco, às voltas com as suspeitas da comunidade internacional sobre seu envolvimento no assassinato do ex-premiê libanês Rafik Hariri, parece ter a pretensão de limpar sua imagem, qualificando-se para negociações de mais alto nível, inclusive com Israel.

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