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No olho da tempestade

Opositores criticam falta de preparativos antes do Irma e apontam o dedo para Macron

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

12 Setembro 2017 | 05h30

O furacão Irma deixou as duas ilhas franco-holandesas de São Bartolomeu e Saint Martin com um rastro de destruição. Mas agora é o presidente Emmanuel Macron que se encontra no “olho do furacão”.

Nas ilhas, as populações aturdidas se deparam com cidades em frangalhos e um futuro incerto, enquanto ressurgem lentamente das sombras as elegantes cidades de São Bartolomeu ou de Saint Martin. Na França, em Paris, os tenores da oposição fazem críticas veementes, apontando o dedo para Emmanuel Macron e seus jovens ministros. E exigem prestação de contas.

Quais são as falhas apontadas? Um furacão é previsível, ao contrário de um terremoto ou um tsunami. Ora as duas ilhas não se prepararam, não protegeram suas casas, não foram feitas provisões de alimentos ou de água. Não havia meios de retirada dos habitantes para locais mais propícios. O socorro chegou somente depois da batalha, pois o transporte aéreo estava fora de serviço. Pane total do sistema de internet, cuja falta hoje em dia deixa uma cidade impotente.

Algumas críticas são válidas. Outras são injustas. Quando não há outra saída, uma cidade enorme como Miami pode ser esvaziada, pois todos os habitantes fogem por conta própria, com seu carro. Mas transferir para o continente a população de uma ilha inteira é muito mais complicado. Seria mais justo criticar a França, não Macron, de ter deixado proliferar nas suas ilhas imóveis sempre elegantes, mas frágeis como um castelo de cartas.

O furacão arrebatou esses palácios de vidro e cores. Macron, consciente de que sua popularidade pode diminuir ainda mais por esse episódio, embarca para Saint Martin onde enfrentará, com sua coragem habitual, o furor das pessoas despojadas de tudo, até mesmo do seu futuro.

Mas o presidente francês tem outro “furacão” em perspectiva para enfrentar. E quando multidões saem às ruas das cidades francesas e de Paris para denunciar a reforma do Código Trabalhista, proposta por ele e apoiada pelo patronato, Macron coloca ainda mais lenha na fogueira. Em Atenas, onde realizou uma visita de Estado, atacou os que se opõem a essa reforma, jurando que não cederá “aos vagabundos, aos cínicos e aos radicais”.

Que essa linguagem parta da direita radical (Eric Ciotti ou Marine Le Pen) ou da extrema esquerda (Mélenchon) é normal. Como interpretar estes ímpetos de fúria do presidente?

Como, sem dúvida, Macron é um homem muito inteligente, algumas pessoas se perguntam se ele não deseja provocar a cólera dos extremistas de esquerda e de direita com o fim de trazer para seu campo todos os moderados que parecem cada vez menos fascinados por seu charme e sua genialidade.

E há outra crítica que algumas pessoas que já o conheciam antes fazem: sob a aparência bondosa e ecumênica (“Não desprezaria um adversário político”, ou “vamos substituir o ódio pelo diálogo”, etc.), Macron seria, na realidade, um “tigre”, um guerreiro, uma pessoa intolerante cujo narcisismo sem limite explicaria o desprezo com que trata todos aqueles que não caem extasiados diante do seu gênio e sedução.

Para mim, ele é um enigma total. No momento diria, com um pouco de indulgência, que, apesar do seu grande talento, a falta de experiência o faz rugir um pouco rápido demais quando entra na “toca dos leões”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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