REUTERS/Ahmed Yosri
REUTERS/Ahmed Yosri

No Oriente Médio, médicos lutam contra coronavírus e pandemia de informações falsas

Grupos compartilham correções de informações falsas espalhadas por redes sociais

Maya Gebeily e Dylan Collins / AFP, O Estado de S.Paulo

21 de julho de 2020 | 11h16

O coronavírus? Um "complô dos Estados Unidos"! Como derrotá-lo? "O verão mata todos os vírus". Informações falsas sobre a covid-19 proliferam nas redes sociais em árabe em meio à preocupação de vários grupos que tentam restabelecer verdades essenciais.

"Ao corrigir informações, salvamos vidas", diz Baher Jassem, membro do coletivo Tech 4 Peace, que luta contra a desinformação há quatro anos no Iraque. Várias vezes ao dia, esse grupo de ativistas compartilha com seus milhões de inscritos no Facebook, Twitter e Instagram correções de informações falsas.

O modelo é sempre o mesmo: corrigir o anúncio de um remédio supostamente milagroso, ou a morte de uma celebridade anunciada erroneamente. As informações falsas aparecem em uma captura de tela, riscadas com um selo vermelho "Atenção, informação falsa!", acompanhado de explicações detalhadas com boas fontes.

"A ideia não é apenas desmontar mentiras. É preciso fornecer boas informações sobre a doença, maneiras de se proteger e evitar remédios falsos", explica Jassem. Esse trabalho de "fact-checking" (verificação de fatos) ocorre no momento em que vários países árabes entram na fase mais crítica da pandemia.

O Iraque agora registra cerca de 3 mil novos casos por dia. Omã, Argélia e Líbano atingiram um pico de contaminação em meados de julho, logo após da Arábia Saudita e da Jordânia.

Médicos preocupados

Enquanto as autoridades de saúde recomendam cautela, as informações falsas pedem que as pessoas não usem máscara ou não respeitem as instruções de distância física, relatam vários médicos.

No Iraque, eles dizem que já ouviram falar de tudo: "O novo coronavírus é um complô dos Estados Unidos", segundo alguns pacientes. "Na verdade, os mortos da covid-19 foram vítimas de um ataque secreto de gás", dizem outros. "O calor do verão mata todos os vírus", asseguram muitos iraquianos.

Essa desinformação é tão perigosa que as autoridades locais aumentaram o controle sobre a mídia em relação à pandemia, segundo a ONG Repórteres Sem Fronteiras. Para os militantes contra informações falsas, esse controle deixa as pessoas mais desconfiadas da mídia tradicional e mais propensas a acreditar no que leem na internet.

"Não há educação sobre a mídia. Os iraquianos vão ao Facebook e ao Twitter, mas não conseguem distinguir entre fato e ficção", diz Faisal al-Mutar, iraquiano que reside nos Estados Unidos e fundou o Ideas Beyond Borders (IBB), uma rede que traduziu para o árabe, em associação com a Wikipédia, mais de 250 páginas de informações sobre o vírus. 

Garantir a tradução para todo mundo árabe é um quebra-cabeça diário, diz Issam Fawwaz, membro do IBB que vive no Líbano. "Basta uma única pessoa convencida das informações falsas para causar uma catástrofe em toda a comunidade", afirma.

'Boatos são vírus'

Para serem visíveis, os jordanianos do grupo "Fatabayyano" ("Verifiquem", em árabe) decidiram passar pelos mesmos canais que as informações falsas que corrigem. Desde 2014, enviam suas correções para milhares de assinantes via grupos do WhatsApp.

O aplicativo de mensagens é um dos principais fornecedores de informações falsas na região. Com 75% dos usuários entre os internautas árabes, a plataforma se tornou um meio de compartilhar informações massivamente, cuja autenticidade é impossível de verificar. Ao contrário do Facebook, ou do Twitter, as mensagens do WhatsApp são criptografadas e não podem ser lidas, ou sinalizadas, pela plataforma.

"As informações falsas se espalham mais rapidamente do que as informações verdadeiras", diz Motaz al-Thaher, membro do Fatabayyano. Então, o grupo tenta estar em toda parte: em seu site, com longos artigos em árabe; no Instagram, com gráficos; e no Facebook, com vídeos para seus 800 mil assinantes. Com um único lema: "Boatos também são vírus!". 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.