Saiyna Bashir via The New York Times
Saiyna Bashir via The New York Times

No Paquistão, heroína feminista passa seus dias como fantasma para sobreviver

Seu trabalho inovador a tem levado pelo mundo, lhe rendido prêmios e plateias de famosos; mas no seu próprio país, Gulalai Ismail tem se tornado uma inimiga do Estado, que a acusa de incitar rebelião

Jeffrey Gettleman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2019 | 17h25

NOVA DÉLHI - Gulalai Ismail é  uma das mais conhecidas defensoras dos direitos das mulheres no Paquistão, que luta contra os casamentos forçados,  estupros e sonhos interrompidos. 

Seu trabalho inovador a tem levado pelo mundo, lhe rendido prêmios e plateias de mulheres poderosas como Michelle Obama e rainha Elizabeth II. Mas no seu próprio país, Ismail tem se tornado uma inimiga do Estado, que a acusa de incitar rebelião. Agora, ela está fugindo. 

Por dois meses, praticamente ninguém a vê. Os serviços de segurança do Paquistão, conhecidos na região como os mais hábeis e brutais, não conseguem encontrar Ismail. Eles revistaram sua casa diversas vezes e enviaram agentes para, segundo sua família, torturar seus parentes e amigos para encontrar alguma informação. 

As pessoas próximas a ela dizem que Ismail, de 33 anos, está vivendo como um fantasma, mudando de casa em casa, medindo seus movimentos com muito cuidado, saindo à rua apenas com seu rosto coberto por um véu e confiando em uma rede clandestina de colaboradores feministas pelas cidades paquistaneses que têm arriscado tudo para ajudá-la. 

Sua família diz não ter tido nenhum contato com ela desde que desapareceu em maio. “Todos os nossos telefones foram grampeados”, disse sua irmã mais nova, Saba. 

De quando em quando, rumores apontam que ela foi vista aqui ou presa ali. Mas os agentes de segurança disseram que ela não está sob sua custódia e eles a têm procurado implacavelmente. 

A caçada tem continuado mesmo após o Paquistão se apresentar recentemente como um país que está virando a página, se afastando de anos de repressão e de  um longo registro de apoio a grupos militantes islâmicos. 

Seu primeiro-ministro, Imran Khan, manteve conversas com o presidente Donald Trump na segunda-feira na Casa Branca (na maior parte do tempo, falaram sobre Afeganistão). Para suavizar o clima antes da visita de Khan a Washington, o governo paquistanês prendeu líderes militantes e tentou aliviar as tensões com sua arqui-inimiga Índia

Mas como o caso de Ismail mostra, muitos paquistaneses ainda vivem sob grande medo de seu próprio serviço de segurança. A intensidade da busca pela ativista revela como dominador o serviço de segurança do país continua. 

“Estamos em uma área cinzenta”, disse Rasul Bakhsh Rais, professor de ciências políticas da Lahore University. “Há muito de caos real e político nesse país neste momento.” 

Mas ele não vê nenhuma razão legítima para perseguir Ismail. 

“O que ela tem dito, ainda que duramente, está protegido pela liberdade de expressão”, diz Rais. “Mas a instituição que ela tem falado sobre não quer ser mencionada.” Essa instituição, segundo o professor, é o Exército paquistanês. 

Os serviços de segurança paquistaneses têm acusado Ismail de cometer uma série de ofensas, incluindo insubordinação, financiamento de terrorismo, desafio a instituições do Estado, ainda que as autoridades não tenham apresentado nenhuma denúncia oficial contra ela. 

Nenhum membro do governo quis comentar publicamente o caso de Ismail, mas vários concordaram em falar em condição de anonimato. Sua família forneceu mais de uma dezena de páginas de documentos, incluindo ocorrências policiais e cópias de alegações contra ela. 

O governo paquistanês diz não ter nenhum problema com ela advogar pela causa das mulheres. Mas sustentam que ela cruzou uma linha há alguns meses ao espalhar mensagens divisionistas em protestos ilegais por militantes do movimento pelos direitos de membros da etnia Pashtun conhecido como PTM. 

Com o crescimento do PTM, com protestos barulhentos que têm inspirado cada vez mais e mais jovens, o governo tem  reprimido com força, prendendo alguns de seus líderes e atirando contra manifestantes desarmados, segundo testemunhas. 

Ismail é integrante da comunidade Pashtun, um dos maiores grupos étnicos do Paquistão, e tem se tornado uma proeminente apoiadora do grupo. Ela tem aparecido no palco de eventos do PTM e ajudado a divulgar suas mensagens – uma delas,  de que o Exército paquistanês tem matado civis em áreas pashtun. 

Em janeiro, ela divulgou mensagens no Facebook e Twitter  nas quais alegava que soldados do governo têm estuprado ou abusado sexualmente de mulheres pashtun. “Os responsáveis pelo terrorismo são aqueles de uniforme!”, dizia uma delas.

“Seu discurso contra o Estado e o Exército é uma tentativa de causar divisões étnicas na população e incitar os grupos a cometerem traição”, diz uma reclamação policial contra ela registrada em 21 de maio. 

Nas últimas semanas, oficiais paquistaneses acusaram ela e seus pais de lavagem de dinheiro e de financiar o terrorismo, dizendo que eles receberam grandes transferências da Índia. A família nega. 

“Tudo é falso”, diz seu pai, Mohammed, que atualmente passa seus dias dentro da modesta casa da família em Islamabad, capital do Paquistão, olhando pela janela para dois carros estacionados permanentemente do outro lado da rua – é a polícia. 

O sr. Ismail diz que a polícia está frustrada por não conseguir encontrar sua filha mesmo depois de fechar o cerco. Em julho, contou, agentes entraram na casa da família, onde a ativista vivia com seus pais, pela quarta vez e confiscou computadores, telefones, câmeras, DVDs –  e o motorista da família. 

Horas mais tarde, o motorista retornou, mal conseguia falar. Ele fora eletrocutado e injetaram nele alguma substância desconhecida, o torturaram e tentaram fazer com que ele revelasse para onde ela tinha ido, contou o pai. 

“Ele estava suando, suando e suando”, contou o sr. Ismail, um professor de Urdu aposentado, mostrando algumas fotografias de marcas no corpo do motorista. O governo não comentou as alegações. 

O atual Paquistão é uma versão extrema da misoginia que as mulheres têm enfrentado pelo mundo: garotas ainda são assassinadas por seus próprios pais que dizem estar protegendo a honra da família, a milhares é negado o direito de estudar e em muitas áreas espancar uma mulher não é considerado um crime. 

Mas tudo isso é combustível para Ismail. Ela tornou-se muito conhecida na comunidade dos direitos humanos por falar contra esses abusos e sua consciência moral se desenvolveu cedo. 

Quando ela tinha cerca de 16 anos, uma prima que sonhava em se tornar uma piloto foi obrigada a se casar com um homem que tinha quase o dobro da sua idade e ela abruptamente teve de cancelar seus estudos – e seus sonhos. 

Aquilo motivou Ismail a começar um grupo de ativismo, Aware Girls, que tem ensinado a milhares de jovens paquistanesas sobre seus direitos. Uma dessas paquistanesas é Malala Yousafzai, perseguida e baleada na cabeça por também defender o direito das meninas de estudar. Sua resiliência tem inspirado milhões. 

Como Ismail pode continuar seus estudos e se graduar, mais tarde obteve mestrado em Biotecnologia. Desde então, ela passou a se dedicar aos direitos humanos, violência de gênero e combate ao extremismo. 

Ela conduzia workshops, criou uma linha para denúncia de violência doméstica e foi convidada para eventos na Islândia, Reino Unido, EUA e África do Sul. “Ela é meu orgulho, tenho muito orgulho dela”, diz o pai. 

Em uma mesa de vidro na sala da família, ele mantém todos os prêmios que ela conquistou perto dele, entre eles, o Prêmio Chirac, o Commonwealth Youth Award e o prestigioso Anna Politkovskaya Award (que leva o nome da jornalista russa que foi assassinada). 

Ele se preocupa profundamente e conta que às vezes é acordado aos prantos no meio da noite pela mulher. Ele disse ter alertado à filha para não falar sobre as alegações de estupro contra o Exército. Sabia que isso seria extremamente perigoso – provocar os militares. 

“Mas ela ficou muito brava e me disse: ‘Eu sou uma ativista dos direitos humanos, eu tenho de apoiá-las’”, lembrou ele. 

A família de Ismail acredita que se ela for presa, será acusada, levada a um julgamento injusto e potencialmente ficar presa por anos. 

Seus conhecidos e os serviços de segurança dizem não ter evidência de que ela tenha morrido. Ambos acreditam que ela está escondida. 

Mesmo antes de a busca por ela começar, Ismail pareceu sentir o perigo. “Quando se trabalha para mudar o status quo, fica-se sob risco”, disse ela em uma entrevista em Paris, em 2016. “Porque nós causamos um grande impacto, há atores ou grupos que querem nos silenciar.”

“Mas se você sentir medo, então os medos levam ao ódio. E nosso mundo precisa de bravura e coragem.”/ NYT  

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