Fareed Khan/AP
Fareed Khan/AP

No Paquistão, militares se mobilizam para ajudar no combate à covid, mas mesquitas ficam lotadas

Hospitais do país, que registra recordes diários de casos com a chegada de novas variantes, estão sobrecarregados

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de maio de 2021 | 10h00

ISLAMABADE - No Paquistão, escolas e restaurantes estão fechados, lojas encerram atendimento ao público cedo e  militares se mobilizam para combater a epidemia da covid-19. Mas, noite após noite, hordas de fiéis lotam as mesquitas para orar.

Temendo que a catastrófica crise de saúde na vizinha Índia se espalhe para o país, autoridades paquistanesas endureceram as restrições e proibiram as viagens por ocasião do Eid al-Fitr, feriado que marca o fim do mês de jejum do Ramadã.

Fecham os olhos, porém, às concentrações religiosas - onde não há distanciamento social - para evitar enfurecer os movimentos mais conservadores do país muçulmano.

"Há muito medo de uma reação violenta de grupos religiosos", explica Saeedullah Shah, médico encarregado de supervisionar a luta contra a covid-19 pela Associação Médica Islâmica do Paquistão. "É um governo muito fraco", acrescenta. 

O Paquistão registrou 18.500 mortes em 840 mil casos positivos de coronavírus, números bastante baixos para um país de 220 milhões de habitantes. Os especialistas acreditam que há subnotificação, porque poucos exames são feitos.

Em várias cidades, os hospitais estão sobrecarregados, com recordes diários de casos, devido à chegada de novas variantes.

O governo pede que a população respeite as recomendações, mas as mesquitas permanecem intocáveis.

Muhammad Iqbal Rizvi, um maulana (título honorário no Islã) da mesquita Markazi Jamia em Rawalpindi, uma cidade perto da capital Islamabade, diz que os fiéis não têm nada a temer e rejeita comparações com a Índia.

'Alá é bondoso'

"Nossas orações são diferentes", diz à Agência France-Presse, garantindo que aplica medidas de distanciamento social.

"(Os indianos) são não crentes, e nós somos muçulmanos. Arrepender-nos diante de Alá é a nossa fé. Eles não se arrependem, essa é a razão", porque a Índia é tão afetada pela pandemia, afirma.

Uma convicção presente em todas as classes sociais. 

"Na Índia, as pessoas estão morrendo nas ruas (...) Alá tem sido bondoso conosco", declarou o primeiro-ministro Imran Khan na quinta-feira, 6. Mas ele pediu cautela. "As próximas duas semanas são muito importantes. Temos que diminuir o número de casos de coronavírus", reconheceu.

No início da semana, milhares de xiitas se reuniram em várias cidades para lembrar a morte do imã Ali, genro do profeta Maomé e figura fundadora do xiismo.

Em Islamabade, os fiéis tiraram as máscaras para entoar canções religiosas. Em Lahore, no leste, quase 10 mil pessoas se reuniram. Algumas se flagelaram.

"Estamos prontos para sacrificar nossas vidas, nossos filhos e nossas famílias", garantiu à Agência France-Presse o xiita Haji Shahzad Jaffry.

Na Índia, as concentrações religiosas das últimas semanas, como a enorme peregrinação hindu Kumbh Mela que reuniu milhões de pessoas, foram parcialmente responsáveis pela tragédia no país, onde mais de 21 milhões de casos e 230 mil mortes foram registrados. 

Mas isso não detém os paquistaneses. De volta do Reino Unido, Ashfaq Ahmed ficou surpreso ao ver mesquitas lotadas de pessoas ignorando as medidas sanitárias. "Parece que as pessoas estão em total negação", comentou.

Apesar das evidências, as autoridades paquistanesas afirmam que suas recomendações estão sendo seguidas. "Se há um lugar onde as diretrizes se aplicam, é nas mesquitas", afirmou o porta-voz do Ministério de Assuntos Religiosos, Imran Siddiqui.

De acordo com uma pesquisa divulgada esta semana pelo Gallup Paquistão, 64% das pessoas ainda pensam que o coronavírus não é tão perigoso quanto afirmam.

E, apesar das advertências e das mortes, os fiéis não deixam de ir às mesquitas. 

"Deus é misericordioso conosco", sustenta Sohail Arshad, na mesquita Markazi Jamia. "Se ele enviou a doença, será ele que vai nos curar", completa. /AFP

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