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No Partido Popular, Cayetana defendeu os princípios e a ética

Embora saiba que ela não gosta desta palavra, o que essa jovem admirável fez na Espanha foi uma pequena revolução que, acredito, tenha sido de longo alcance

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2020 | 03h00

Quando Pablo Casado, líder do Partido Popular, teve a coragem de nomear Cayetana Álvarez de Toledo porta-voz do seu partido, de oposição ao governo de Pedro Sánchez, nós nos perguntamos quanto tempo ela permaneceria no cargo. Ficou um ano e, neste período, não perdeu um minuto de tempo. Embora saiba que ela não gosta desta palavra, o que essa jovem admirável fez na Espanha foi uma pequena revolução que, acredito, tenha sido de longo alcance.

De imediato, ela mostrou que não é verdade que os jovens mais brilhantes da Espanha se interessam por economia e empresas, mas detestam a política. Poucas pessoas estão mais bem preparadas intelectualmente do que Cayetana, com um doutorado em história na Universidade Oxford. Ela é uma apaixonada pela política e está convencida, como demonstrou neste ano, que na política pacífica e tolerante da democracia e do liberalismo tudo pode ser mudado, desde que se promulguem leis adequadas e, sobretudo, se defenda a liberdade diante daqueles que querem contorná-las, como hoje ocorre na Espanha com a extrema esquerda do Podemos e os independentistas da Catalunha.

Foi o melhor trabalho feito por Cayetana e que mais temos de lhe agradecer: demonstrar, com palavras e fatos, que não existe nenhuma razão para a direita democrática ter complexos de inferioridade frente à esquerda comunista que exalta, em meio a suas aberrações, coisas tão horrendas como o gulag, a Revolução Cultural Chinesa e, mais perto de nós, a desventurada Venezuela, um dos países mais ricos do mundo que o socialismo do século 21 do comandante Chávez sepultou na miséria e do qual 5 milhões de pessoas, pelo menos, tiveram de fugir para poder comer e trabalhar. Por que teria ela de baixar a cabeça e se render à doutrina da liberdade frente aos responsáveis por esses crimes, sabendo que ela representa o que há de mais avançado, livre e próspero do nosso planeta?

Quem são os que vociferaram neste ano pedindo a Cayetana moderação e centrismo? 

Alguns militantes do Partido Popular, é claro, mas principalmente todos os socialistas e comunistas, surpresos ao verem alguém da direita que se atreve a lhes lembrar os horrores cometidos em nome do sacrossanto marxismo. Lembrei-me dos anos de Margaret Thatcher, na Inglaterra, quando socialistas e comunistas exigiam desesperados que ela se tornasse mais centrista e moderada, pois com seus atos políticos inconvenientes levaria os conservadores à extinção. Na verdade, ela os levou ao poder três vezes consecutivas – pela primeira vez na história – e o Reino Unido jamais esteve tão bem desde a 2.ª Guerra como durante o governo de Thatcher.

Quais são as posições defendidas por Cayetana como porta-voz do Partido Popular? Coisas sensatas e desejadas por meia Espanha, como a volta do Partido Socialista ao que era nos tempos de Felipe González, e a formação pelo Partido Popular de uma coalizão que permita a recuperação do país neste ano de gravíssimas vicissitudes no campo da saúde e da economia. E ninguém expressou tão claramente como ela a distância que existe entre um partido democrático e liberal, como o PP, e uma força conservadora e nacionalista como o Vox. É este o temido radicalismo de Cayetana?

Ela também tem afirmado com a mesma clareza de sempre que um partido político democrático e liberal não é o mesmo que o Exército, “onde as ordens dos comandantes são obedecidas sem dúvidas nem críticas”. Claro que não.

Em um partido democrático, as ideias são debatidas, do mesmo modo que os programas, no âmbito de uma adesão geral a certos princípios que inevitavelmente se traduzem em políticas distintas. Isto os militantes democráticos sabem muito bem, mas é ignorado por aqueles que fazem política para prosperar, para se intrometerem no Estado ou se sentirem poderosos.

O sociólogo alemão Max Weber distinguiu muito claramente a ética da convicção e a ética da responsabilidade. Um partido democrático necessita de dirigentes que representem ambas as coisas, caso contrário pode se encher de oportunistas corruptos ou ficar condenado a se tornar apenas um grupo de pressão distante da massa cidadã. O político por convicção obedece às suas ideias e princípios antes de qualquer outra coisa. O político responsável sabe que as ideias e princípios são generalidades de difícil aplicação e, em muitos casos, deve fazer concessões, às vezes amplas, para poder avançar sua causa e as reformas que defende. 

O político por convicção não cede nem faz concessões. Na Espanha, não existiram muitos políticos por convicção e talvez seja esta a razão da triste história dos seus partidos políticos. Não existiram no sentido que Cayetana é, defendendo aquilo que acredita sem olhar para os lados nem se amedrontar com as possíveis consequências. É verdade que dirigentes muito inflexíveis podem significar a desgraça de um partido, mas sem eles certamente esse partido vai apodrecer em vida, cheio de “moderados”, ou seja, de oportunistas, aproveitadores, ladrões e sinecuras.

Nós que votamos várias vezes no Partido Popular não queremos que essa agremiação, a que mais se assemelha a uma força liberal na Espanha, termine na confusão e no pragmatismo cínico em que descambou o Partido Socialista desde que Felipe González deixou sua direção. É por isso que muitos de nós acreditamos que Cayetana tem prestado um serviço enorme aos populares, defendendo, às vezes contra seus militantes, a ética da convicção. Os princípios e as ideias, antes dos cargos e da representação.

Conheci Cayetana há alguns anos, quando o rei Felipe VI salvou a Espanha, com um discurso, do frenesi dos independentistas catalães que, após organizarem uma consulta ilegal para justificar a independência, já se acreditavam donos da realidade política espanhola. Cayetana, sem ter nem receber apoio de ninguém, organizou a resistência à ilegalidade catalã com o movimento “Livres e Iguais”, que mobilizou jovens e velhos por toda a Espanha, e a seu comando saímos às ruas para lembrar que a Constituição espanhola proíbe expressamente que uma região autônoma convoque um referendo sobre a segregação, e lembrar que em uma democracia a Constituição e as leis têm de ser respeitadas. Ou seja, defender o que Felipe VI havia defendido com tanta lucidez em seu discurso. 

Digo isso para mostrar que uma dirigente política que promove a ética e a convicção não é uma pessoa tonta perdida no mundo das ideias; mas também pode ser um indivíduo prático e valente que recorre à ação em defesa daquilo que acredita e promove. Cayetana fez isso sempre, com coragem, na Catalunha, quando tentaram impedir que entrasse em uma universidade ou nas viagens políticas pelo País Basco, sem se preocupar com os insultos e as pedras nacionalistas. A ética da convicção não é inimiga da valentia nem da ação.

Dito isto, esperemos que ela, agora que terá mais tempo, escreva um ensaio político sobre a Espanha. E, claro, todos nós que a admiramos e queremos, vamos sentir sua falta, principalmente quando assistirmos aos debates no Parlamento e morrermos de tédio. /TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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