Sebastian Castaneda/Reuters
Sebastian Castaneda/Reuters

No Peru, pacientes pagam 1.000% a mais por oxigênio no mercado paralelo

Tanque de 8 metros cúbicos pode custar até US$ 1,3 mil nas mãos de produtor informal, sem garantia de origem ou qualidade

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2020 | 04h00

LIMA - Com mais de 240 mil casos de covid-19 confirmados, o Peru já passou a Itália em número de infectados – é o sétimo país no ranking com mais contaminados no mundo. Enquanto o vírus avança e a economia desce ladeira, os peruanos fazem malabarismo para obter a commodity mais importante em tempos de pandemia: oxigênio – que pode ser encontrado no mercado paralelo com um ágio de até 1.000%.

Quando Mario Solís Rodríguez precisou de oxigênio, sua mãe não teve escolha. Os hospitais públicos estavam sobrecarregados e a linha direta do governo não respondia a suas chamadas. Então, Denisse Rodríguez foi ao mercado paralelo. Vasculhando o Facebook, a dona de casa de 48 anos encontrou um fornecedor informal oferecendo um tanque por 4.500 sóis – US$ 1,3 mil. O oxigênio era de qualidade duvidosa. O preço era 1.000% mais caro que o normal, valor quase inviável para família – o marido de Rodríguez ganha menos de US$ 50 por dia dirigindo um mototáxi em Lima.

Ela pegou emprestado o dinheiro com parentes e amigos. “O que mais deveríamos fazer?”, perguntou Denisse, chorando. “Sem oxigênio, meu filho não consegue passar a noite. Mesmo se o levassem ao hospital, ele morreria. Não sei como pagaremos a dívida.”

A situação se tornou comum no Peru. Mesmo antes da pandemia, o sistema de saúde já não dava conta de atender às necessidades de seus 31 milhões de cidadãos após décadas de falta de investimentos. Por ano, o governo gasta menos de US$ 700 em assistência médica por pessoa – uma das taxas mais baixas em proporção ao PIB na América Latina. 

O surto encorajou um exército de falsificadores que inundaram o mercado com máscaras e medicamentos falsos ou de baixa qualidade para tratar a covid-19. Quando o Washington Post entrou em contato com o vendedor de oxigênio de Lima, ele confirmou que vendia tanques de 8 metros cúbicos por US$ 1,3 mil, mas se recusou a dizer a origem do produto. 

Em nenhum lugar do mundo a diferença entre esperança e realidade foi mais devastadora durante o surto de coronavírus do que no suprimento de oxigênio do Peru. A falta de peças e manutenção deixou os sistemas de oxigênio de vários hospitais fora de serviço. As autoridades ainda tentam aplicar uma multa de US$ 6,9 milhões por suposta fixação de preços, imposta em 2013, a duas empresas que controlam o fornecimento.

O ministro da Saúde, Víctor Zamora, diz que o Peru enfrenta um déficit diário de 180 toneladas de oxigênio. Ele apresentou um pacote de US$ 28 milhões para importar o produto e construir novas fábricas, e está pedindo ao Congresso que criminalize a acumulação e a especulação feita com suprimentos médicos.

“Até que isso aconteça, não temos como intervir”, disse Zamora. “A única ferramenta que temos é nosso poder de compra. Somente quando compramos mais e nos tornamos mais eficazes na distribuição é que vamos reduzir essa prática.” 

A resposta do presidente Martín Vizcarra ao surto lhe rendeu elogios. O número de casos confirmados, que na América do Sul perde apenas para o Brasil, um país muito maior, é visto como um reflexo de uma estratégia de teste bem-sucedida. Quase 1,4 milhão de peruanos foram testados, aproximadamente 4,5% da população, uma proporção muito maior do que na maioria dos países da região.

Mas a pobreza, a corrupção, a ineficiência e a informalidade agravaram a crise. A maioria dos analistas concorda que o número oficial de mortes de 7.257 é uma estimativa otimista da realidade. Com 4 mil novos casos em média por dia, as autoridades dizem que o pico da pandemia passou e começaram a reabrir a economia. Mas, para Denisse e sua família, a busca diária por oxigênio continua.

Solís, um trabalhador de 29 anos de uma companhia de navegação, ficou doente em maio e está convalescendo na casa lotada que divide com mãe, padrasto e outros oito parentes no bairro de Comas, em Lima. Agora, a família vem comprando oxigênio da empresa de um ex-marinheiro, Luis Barsallo, que não aumentou seus preços. Ele chama seus concorrentes de “sicários” – assassinos de aluguel.

Recarregar o tanque se tornou um assunto do dia. O padrasto de Solís, César García, faz fila do lado de fora do depósito de Barsallo às 4 horas da manhã todos os dias. Por volta das 9 horas, outro parente leva o tanque vazio para García, que continua esperando sua vez de reabastecer, o que acontece por volta das 16 horas. O reabastecimento custa US$ 26. Depois, ele se mete em um táxi de volta para casa, onde Solís luta a cada respiração. A família espera que o oxigênio dure pelo menos mais 24 horas. / WP

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