Ali Ali/Efe
Ali Ali/Efe

No primeiro dia da trégua, palestinos de Gaza buscam corpos em escombros

Socorristas retiram cadáver de estudante das ruínas da residência atacada pelo Exército israelense, na qual morreram 11 pessoas de uma mesma família

ROBERTO SIMON, ENVIADO ESPECIAL / FAIXA DE GAZA, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2012 | 02h17

CIDADE DE GAZA - Enquanto a vida retornava ontem às ruas da Faixa de Gaza, palestinos ainda retiravam mortos das montanhas de escombros espalhadas pelo território. O Hamas decretou feriado e filas em caixas eletrônicos e mercados - onde já era possível comprar vegetais e sardinha frescos - indicavam a volta à normalidade. Ao alívio, misturava-se o luto diante de mais de 160 palestinos mortos em oito dias de violência.

Uma dessas vítimas é Yara al-Dalou, estudante de 16 anos cujo corpo foi encontrado ontem, três dias após a aviação israelense ter reduzido sua casa a uma montanha de concreto e vigas de aço. Onze membros da família do político do Hamas Mohamed al-Dalou e quatro vizinhos morreram no ataque. Ele escapou.

Da rua e dos prédios ao lado, centenas de pessoas acompanhavam em silêncio socorristas tirarem o corpo de Yara, até levá-lo a uma ambulância, envolto em um cobertor. Com o cheiro forte, a maioria tapava o nariz.

"Ela era uma estudante dedicada, muito religiosa e doce", disse Bashir al-Dalou, primo de Yara. Ele promete "nunca esquecer" o que em Gaza já é conhecido como "o massacre da família Dalou". O Exército israelense abriu investigação sobre o caso.

Entre as casas espremidas do campo de refugiados da Jabalya, havia desaparecido a dos Hijazis, alvo de uma bomba de Israel. Quatro pessoas morreram no ataque: o pai, Fouad, a mãe, Amna, e os filhos Sohaid, de 4 anos, e Mohamed, de 2. "Fouad era um encanador humilde e não tinha nada com política, nem Hamas nem Fatah", garantiu o vizinho Mohamed Ajouri, de 32 anos. "Ninguém sabe por que os israelenses decidiram atacar aqui."

No lugar da casa dos Hijazis, há uma cratera, mas as construções vizinhas ficaram quase intactas. "Havia 20 pessoas dentro do sobrado ao lado. Ainda bem que as armas de Israel são precisas, caso contrário a tragédia seria ainda maior", afirmou Ajouri.

Na mira. Os mais de 1.500 bombardeios de caças e drones israelenses da Operação Pilar de Defesa incluíram alvos de todo tipo. Ao viajar por Gaza, não é difícil se deparar com crateras de cinco metros de profundidade em lugares descampados de areia, de onde militantes provavelmente atiravam foguetes contra o sul de Israel. Um campo de treinamento do grupo militante Brigada Salahedine perto da praia foi destruído, assim como um acampamento do Hamas em outra parte da costa.

Mas entraram também na mira dos israelenses vários prédios da máquina de governo do Hamas, como o complexo de Abu Khadra, onde palestinos tiravam documentos e declaravam impostos.

Agora o local é um amontoado de entulhos que ocupa uma quadra agora cheia de papéis, levados pelo vento, da burocracia das agências de governo, como o Ministério do Interior e das Finanças. Israel afirma que o local abrigava integrantes do Hamas.

Mohamed Abu Areef, professor de ciências em uma escola da ONU, escalou os entulhos para fotografar o local. "Quero colocar essas imagens no Facebook e mostrá-las a todos os meus alunos", disse. No domingo, dia útil no mundo árabe, recomeçam as aulas. O Banco Nacional Islâmico, o maior de Gaza, tampouco escapou da ofensiva.

A instituição privada cuidaria das finanças da facção islâmica que controla Gaza - incluindo, segundo Israel, o pagamento de militantes que disparavam foguetes contra alvos civis do outro lado da fronteira. A explosão na segunda-feira à 1 hora ergueu o chão do piso térreo, o teto em vários andares desabou e as janelas sumiram.

"(O primeiro-ministro de Israel, Binyamin) Netanyahu quer nos punir e sufocar nossa economia. É por isso que para ele faz sentido atacar um banco", protestava um funcionário do local.

Hortaliças recém-chegadas eram disputadas no mercado perto da Praça do Soldado Desaparecido e pescadores já haviam levado aos feirantes o resultado de seu primeiro dia de trabalho desde o início do conflito. Na rua, aceleravam vários carros com gente para fora das janelas, empunhando bandeiras de facções políticas - Hamas, Fatah e Jihad Islâmica - e buzinando.

Horas depois da entrada em vigor do cessar-fogo, os guardas de fronteira do Hamas já haviam assumido seus postos para controlar a chegada e saída de jornalistas e funcionários de agências humanitárias. Segundo o policial de fronteira: "Não é uma guerrinha dessas que vai parar Gaza, não é?"

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