No Quênia, a política é um guerra

O temor é o de que, após a eleição presidencial de amanhã, o país mergulhe novamente na violência ocorrida em 2007,

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03 de março de 2013 | 02h05

Amanhã, o Quênia elegerá um novo presidente, o primeiro em uma década. Na última vez que realizou uma eleição presidencial, há cinco anos, o país se dilacerou com uma ferocidade que ainda choca e desconcerta pessoas daqui. Quando discutem o episódio com pessoas de fora, os quenianos, normalmente sem medo de olhar nos olhos, desviam o olhar.

"Outros países da África agem assim", é o que se ouve muito. "Nós não." Eles não tentam se esquivar de culpas (ninguém menciona a CIA - agência de inteligência dos EUA), mas discordam sobre as causas da violência. O tribalismo é um dado. O sistema de arrendamento de terras, também, insistem alguns. Ou a corrupção. Ou a desigualdade, o alcoolismo e a ociosidade (o eufemismo local para desemprego, que vem se mantendo teimosamente perto de 40% há anos; quase metade do país vive na linha da pobreza ou abaixo).

Sejam quais forem suas convicções nesse âmbito, e a despeito de qual tenha sido o candidato que apoiaram da última vez - o presidente Mwai Kibaki, que ganhou um segundo mandato (ao menos oficialmente) e deixará o cargo neste ano, ou o desafiante primeiro-ministro Raila Odinga, que está concorrendo de novo - um ponto no qual os quenianos concordam é o seguinte: naqueles dois meses odiosos entre o dia da eleição, em 27 de dezembro de 2007, e a assinatura de um acordo de paz entre Kibaki e Odinga, em 28 de fevereiro de 2008, seu governo fracassou em todos os níveis.

Policiais executaram civis; tribunais foram ignorados; o presidente no cargo quase certamente cometeu fraudes e sua oposição de princípio provavelmente também. Enquanto Odinga e Kibaki aguardavam em suas mansões em Nairóbi, recusando-se a conter seus seguidores assassinos, saqueadores pobres iam de loja em loja entoando: "Vamos às compras! Vamos às compras!". Em muitos lugares, o único instrumento de autoridade em ação era o panga, o facão que geralmente se vê nas mãos de vendedores de rua descascando pedaços de cana-de-açúcar, mas que se adaptam rapidamente para decepar membros. Mais de um milhar de pessoas morreu e 500 mil ficaram desabrigadas.

Mas os números não refletem o horror. Enquanto dirigentes distritais e DJs de rádio instigavam seus seguidores a atacar membros de tribos rivais, gritando "kuondoa madoadoa" ("removam as manchas"), homens eram arrastados de ônibus e circuncidados à força. Mulheres eram estupradas em massa e queimadas vivas em casas e igrejas. No campo, multidões se atacavam com arcos e flechas.

Igualmente desconcertante para muitos quenianos, embora não surpreendente, é que na meia década seguinte ninguém foi responsabilizado. Dos 219 funcionários, políticos, policias, empresários e outros recomendados pela Comissão Nacional Queniana de Direitos Humanos para ser processados, apenas um punhado chegou a ser, quando muito, investigado. O Legislativo queniano não conseguiu chegar a um acordo para criar um tribunal, por isso o Tribunal Penal Internacional (TPI) teve de fazê-lo. Ele está julgando quatro pessoas.

Impunidade. Muitos sentem que o fato de Kibaki e Odinga não estarem entre elas é mais um exemplo de impunidade nos altos escalões. E se a violência eclodir de novo neste ano - em alguma medida, ela eclodirá - a impunidade será a principal culpada.

"Fico apavorado só de pensar", disse Willy Mutunga, presidente da Suprema Corte do Quênia, quando lhe perguntei o que ocorrerá se a classe política queniana, cada vez mais indistinguível de sua classe transgressora, agir como fez há cinco anos. "Não teremos uma nação de que falar. Esta eleição precisa ser livre e limpa, e não violenta. Se houver uma repetição do que ocorreu da última vez, este país será tomado por chefes militares e narcotraficantes."

"O país inteiro ficou como aqui, como Mathare", foi a maneira como um amigo me descreveu a situação algumas semanas atrás, enquanto o Quênia se aproximava nervosamente para a eleição. Ele deve saber: vive em Mathare, um dos maiores assentamentos informais de Nairóbi - ou, como isso é mais comumente conhecido, favela - e um lugar dominado em grande parte por chefes militares e traficantes de drogas. Mathare abriga cerca de 150 mil pessoas, a maioria delas morando em casebres feitos de galhos de eucaliptos e folhas de metal, ou de barro batido.

Elas vivem sem água encanada ou eletricidade regular, para não falar de cuidados médicos e escolas adequadas, e com medo constante do crime, embora o crime seja tão constante em Mathare que mal requer o nome. Quando ele é combatido, o é por criminosos. Mathare está dividido em duas metades, uma dominada pelo grupo étnico kikuyu, o maior do Quênia, e uma rede de gangues kikuyu politicamente poderosa conhecida como mungiki; a outra pelos Luo, e as gangues rivais dos mungiki dominadas pelos luo.

Enquanto meu amigo e eu caminhávamos por Mathare, vi o desespero e a fúria nos olhos de seus vizinhos, os fétidos açougues a céu aberto, e senti o cheiro das roupas encharcadas de urina de bêbados, paralisados pela chang'aa, um bebida alcoólica produzida ilegalmente e letal, com a cara grudada no chão, e era óbvio demais o que aquilo significava.

"Básica", disse ele. "As coisas ficaram muito básicas durante a última eleição." Se o Quênia ficar como Mathare, então Mathare se tornará o próprio inferno. As histórias são quase insuportáveis. Conheci um grupo de moradores que viveu o pior de tudo.

Horror. Enquanto estávamos sentados num pedaço sujo de chão, uma mulher chamada Pauline descreveu o que lhe ocorreu na véspera do ano-novo de 2007. A eleição tivera lugar quatro dias antes, mas durante três dias nenhum resultado foi anunciado. Aí, em 30 de dezembro, em meio a rumores de fraude eleitoral, o governo declarou às pressas a vitória de Kibaki. Odinga gritou fraude e disse que ele tinha vencido. Uma turba de homens kikuyu (grupo étnico de Kibaki) começou a invadir Hurum Kona, o enclave de Mathare onde Pauline e sua família vivem, exigindo que os luos saíssem. Pauline, como Odinga, é luo.

"Eles entraram em nossa casa e nos empurraram para fora", disse ela. "Eles disseram 'Não queremos ver nenhum luo por aqui'." Seu marido não estava em casa por isso ela correu com seus três filhos para um posto de polícia próximo, onde as pessoas estavam se refugiando. No dia seguinte, policiais foram até sua casa, onde encontraram os restos de seu marido. "Seus braços e pernas tinham sido decepados e eles o tinham eviscerado", disse Pauline, olhando-me diretamente na cara, seu rosto impassível. "Eles escavaram seus olhos com pangas." Pauline e os filhos viveram numa barraca no posto policial por quase um ano depois disso.

Outra mulher, Esther, teve um relato que foi uma imagem espelhada desse. Quando foi anunciada a vitória de Kibaki, ela e seu filho foram para fora comemorar com os vizinhos em Gitathuru, um trecho de maioria kikuyu em Mathare. Seu filho havia trabalhado na campanha de um homem local que concorrera para o Parlamento na chapa de Kibaki. Naquela noite, uma gangue de luos entrou em Gitathuru. Tinha recortado fendas para os olhos em sacos de plástico e os colocaram sobre as cabeças para não serem identificados. Eles carregavam porretes e lanças roubadas das casas que tinham desmantelado em seu saque. Os invasores pediram para ver seu filho.

Quando ele apareceu, eles começaram a espancá-lo. Ele disse para ela correr. Seu filho acabou morrendo pelos ferimentos. Esther não pôde voltar para casa durante meses, e quando o fez descobriu que estava ocupada por invasores.

É de se imaginar que 2007 teria feito essas pessoas descrerem da política queniana. Espantosamente, não fez.

Quase todos com quem falei em Mathare que sofreram na eleição passada pretendem votar nesta eleição. Eles acreditam que seus candidatos mudarão suas vidas e a vida do país.

"Por que ele ama a paz, e odeia o tribalismo", respondeu uma mulher quando lhe perguntei por que ela pretendia votar em Odinga, que desta vez está concorrendo contra Uhuru Kenyatta, seu vice-primeiro-ministro (e um kikuyu). Esther, que votará em Kenyatta, disse quase exatamente a mesma coisa dele. Somente um homem com quem falei, cuja casa foi queimada após a eleição, mostrou-se cético. Ele votará, como disse, mas não acredita que fará diferença quem vai assumir o cargo.

E murmurou um ditado em sua língua luo nativa: "Jogue água em bosta seca, e ela começa a feder de novo".

Com a aproximação da eleição, muita água foi jogada em muita bosta seca. Estima-se que Odinga e Kenyatta gastaram pelo menos US$ 100 milhões cada um em suas campanhas, incluindo US$ 110 mil por dia em helicópteros, nos quais os candidatos atravessam o país, indo de comício em comício.

Antes de fazer seus discursos, eles entregam dinheiro a eleitores aos punhados. O Quênia não tem restrições financeiras a campanhas, ou ao menos nenhuma que seja aplicada - os candidatos podem receber e recebem dinheiro de quem esteja disposto a dar, daqui e do exterior - e a dinheirama escoa para cada condado e distrito.

Como as demais favelas de Nairóbi (onde vivem aproximadamente 2 milhões de pessoas, metade da população da cidade), Mathare é infestada pela compra de votos. Reuniões improvisadas para candidatos são realizadas, ao que parece, a cada hora, onde os desempregados fazem fila para receber doações. Cada superfície livre está forrada de papéis, cada estrada sombreada por pôsteres, banners e placas de campanha com slogans presunçosos. De seu poleiro num outdoor gigante na Estrada Juja, que ladeia Mathare, a pregadora pentecostal Margaret Wanjiru, que concorre para senadora por Nairóbi, assegura aos pedestres: "Quando os justos estão no comando, o povo se rejubila".

(Quando Wanjiru concorreu ao Parlamento há cinco anos - após uma vida de feitiçaria, e antes de ter renascido, como ela recorda lacrimosamente, as multidões - surgiu um homem alegando ser o pai de seu filho e ela sugeriu a seus seguidores que o matassem.)

Na Estrada Mau Mau, um rua de terra que corta Mathare, um cartaz anunciando um trio de aspirantes da Aliança Nacional, o partido de Kenyatta, proclama "... está decidido!" como se não houvesse necessidade de votar. E talvez não haja. Dois dos candidatos do cartaz, Ferdinand Waititu, que está concorrendo para governador de Nairóbi, e Mike Sonko, concorrendo a senador contra Wanjiru, foram citados em acusações criminais. (O terceiro é um cruzado anticorrupção à sua maneira).

A melhor arte de campanha pertence a Sonko. Um ex-menino de rua, ele é extremamente popular em áreas como Mathare, onde tipifica o sucesso de quem conseguiu subir. Ele dominou a estética populista afro-americana recente.

Astro. Um calendário que tenho pendurado na sala de estar mostra Sonko lendo para crianças usando uma camiseta e boné do New York Yankees em tons de verde combinando e colares dourados. Também estão ilustradas no calendário pilhas de dinheiro e um Hummer alongado branco. "O xodó dos jovens", diz o letreiro.

Seu pôster para os bairros mais finos de Nairóbi mostra um Sonko mais profissional, num terno listrado preto e branco e um chapéu de feltro com lantejoulas, perto da frase "Homem do povo".

E para áreas mais pobres ele tem uma série de pôsteres que o mostram em vários ternos cintilantes com óculos Ray-Ban Wayfarer, a bandeira americana refletida nas lentes. Isso pode ou não ser uma referência sutil ao fato de que os ativos americanos de Sonko foram congelados em 2011, depois que o governo Barack Obama determinou que ele era um dos maiores traficantes de droga da África.

Ele fez o mesmo com Harun "Boss" Mwau, que provavelmente ganhará um assento no Senado em Makueni, no leste do Quênia, amanhã. Concorrendo para a Assembleia Nacional em Nairóbi, por sua vez, está Kamlesh Pattnim repetidamente julgado e encarcerado por defraudar o Quênia em centenas de milhões de dólares (em sua defesa, ele alega que o fez com a ajuda do governo), antes de se tornar um "televangelista".

E, é claro, há Uhuru Kenyatta, que foi indiciado pelo Tribunal Penal Internacional. Nenhuma dessas alegações incomoda seus fãs. Há quenianos votando em Kenyatta precisamente por causa do indiciamento. E quando Sonko, a quem Kenyatta leva a comícios como um candidato presidencial americano levaria um astro de rock, foi detido pela polícia no ano passado, centenas de seguidores reuniram-se para pedir sua libertação. Eles entoavam "Sonko ni mwiz wetu!" ("Sonko é nosso ladrão!") Ele está dois dígitos à frente de Wanjiru nas pesquisas eleitorais.

Estamos assistindo a uma criminalização sem precedente de nossa classe política", disse John Githongo, que foi contratado pelo presidente Kibaki no começo de seu governo para extirpar a corrupção no governo.

Githongo foi expulso do cargo quando expôs uma defraudação generalizada por ministros de Kibaki. "O Quênia tem a elite mais dura, corrupta, venal e mortal deste lado da África", disse ele. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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