No quintal de Obama, problemas na educação

Escolas perto de onde o presidente tem casa, em Chicago, podem ser fechadas em 2013

DENISE CHRISPIM MARIN , ENVIADA ESPECIAL A CHICAGO, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2012 | 02h01

O Centro Comunitário Martin Luther King, em Chicago, está no meio do caminho entre a casa de Barack Obama, avaliada em US$ 1,6 milhão, e a Dyett High School, uma das 120 escolas públicas de vizinhanças negras e pobres da cidade que podem ser fechadas pela Prefeitura em 2013.

Obama votou no dia 25 nesse mesmo centro. Na sua entrada, ontem, Cliff Pierce, de 33 anos, coletava assinaturas contra a medida a ser adotada pelo braço direito de Obama na campanha eleitoral de 2008, Rahm Emanuel, seu chefe de gabinete e prefeito de Chicago.

"Tenho dois filhos, que não serão afetados diretamente, mas quero ajudar a manter as escolas para os filhos de outros", afirmou Pierce, que fora contratado por uma organização para coletar as assinaturas e votou antecipadamente em Obama.

Ao votar no dia 25, Obama não fez referência a essa polêmica local. Tampouco tocou ontem no assunto, quando conversou com voluntários ao visitar um escritório de sua campanha próximo a sua casa. Mas essa é uma questão que preocupa os eleitores que, como ele, votaram no Centro Comunitário Martin Luther King. Trata-se de uma área de classe média baixa do sul de Chicago, habitada sobretudo por negros. Embora próximo, o Hyde Park, onde está a casa de Obama, atrai moradores de classe média alta. Os mais pobres são universitários.

Nos planos de Emanuel, 17% das escolas públicas consideradas ineficientes serão fechadas como parte de um plano de reestruturação do setor de Educação. As instituições condenadas serão escolhidas até o dia 1.º pela prefeitura, mas o prazo pode ser estendido por mais quatro meses.

Na véspera da eleição, dez pessoas foram presas durante protesto na prefeitura contra a iniciativa. Em setembro, os professores da rede municipal desafiaram Emanuel com a paralisação de 600 escolas por 7 dias. A greve afetou 350 mil alunos.

A escola de ensino secundário Dyett High School, em 2011, registrou a formatura de 33,7% dos estudantes do último ano. A média de Chicago é de 57,5%, e a nacional, de 75,0%. Por seus resultados, está na lista das que podem vir a ser fechadas. De seus 163 estudantes, 88,3% vêm de família de baixa renda e 97,5% são negros.

Kalia Abiade, ex-editora de 32 anos, atualmente dona de casa por opção, votou em Obama sem a mesma convicção de 2008. "Estamos em uma grande confusão (econômica) e ele precisa mais tempo para lidar com essa crise, que mostrou ser maior do que parecia", afirmou, ao deixar o Centro Comunitário Martin Luther King.

A decisão de Emanuel sobre as escolas municipais causa, segundo ela, sentimentos contraditórios. Seus dois filhos, de 2 e 6 anos, hoje estudam em uma instituição gratuita que exige uma seleção prévia e está longe de sua casa. A opção mais próxima seria uma escola municipal sem recursos. "Creio que seria melhor investir na melhoria das escolas que temos aqui na região do que fechá-las", afirmou.

Alan Stokes, de 44 anos, segurança de um banco, vive bem perto da Dyett. Mas seus cinco filhos estudam em escola mais longe de casa pela mesma razão que os de Kalia. Também eleitor de Obama, Stokes discorda da dona de casa. "As crianças podem ser realocadas em outras escolas melhores", argumentou.

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