Adriana Carranca/AE
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No ringue, o símbolo de um novo Afeganistão

Jovens afegãos buscam fórmulas para fechar feridas de uma década de ataques dos EUA

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2011 | 00h00

No discurso oficial sobre o plano de retirada das tropas americanas do Afeganistão, marcada para ter início este ano, uma década depois do 11 de Setembro, o presidente Hamid Karzai disse que a juventude afegã se erguerá para defender o país quando os soldados já não estiverem lá. Trata-se de uma luta que a jovem Shegofa, de 18 anos, pretende assumir, mas de uma maneira diferente do que espera o líder.

Shegofa é uma das 20 meninas que integram a primeira equipe de boxe feminino do Afeganistão. E está entre as três atletas qualificadas para representar a bandeira afegã em competições internacionais - em maio, ela defendeu seu país no Campeonato Mundial de Boxe Feminino, na Turquia. "O boxe me faz uma pessoa mais forte, não apenas fisicamente, mas emocionalmente. Na ringue e na vida", diz. E é preciso muita força para enfrentar o cotidiano num país mergulhado em conflitos e miserável como o Afeganistão.

O país que as forças de coalizão deixarão para trás, depois de uma década de guerra, não tem velhos. A metade da população tem menos de 14 anos. A expectativa de vida ao nascer é de apenas 44 anos, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano, das Nações Unidas, em que o Afeganistão ocupa a 155.ª posição entre 164 países pesquisados. O índice avalia renda, saúde e educação.

Apesar dos US$ 30 bilhões da comunidade internacional em ajuda, excluídos os investimentos militares e em reconstrução, o país vai mal nas três áreas. Pelo menos 82% dos afegãos permanecem analfabetos. Mais da metade dos que estão em idade escolar continua fora da sala de aula. São 7 milhões de crianças privadas dos estudos. Entre os demais, a média de permanência na sala de aula é de pouco mais de três anos.

Apesar dos avanços após a queda do regime taleban, que reduziu as mulheres à burca e as proibiu de estudar, a desigualdade de gênero segue dramática. Entre os 5 milhões de alunos matriculados atualmente, há apenas 1,5 milhão de meninas. No ensino médio, a desproporção é ainda maior: 1 aluna para cada 20 meninos. Os motivos são muitos: o casamento precoce ainda é realidade longe dos centros urbanos, a pobreza obriga muitas crianças a trabalhar, não há escolas para todos - e os bombardeios das forças de coalizão e os ataques de insurgentes têm destruído as poucas existentes - e a violência mantém muitos em casa.

Esse cenário torna a iniciativa do treinador Mohammad Saber Sharifi de montar uma equipe de boxe feminina ainda mais surpreendente. O treinador lutou entre 1980 e 1988, durante o regime soviético, e representou o Afeganistão em competições internacionais como as Olimpíadas de Moscou. Atravessou o regime do Taleban treinando equipes masculinas no Estádio de Esportes Ghazni, em Cabul.

Foi onde presenciou a cena mais terrível de sua vida. Condenada por adultério, uma mulher sem rosto nem identidade, é enterrada até a metade do corpo e então guardas e desafetos se aproximam com pedras nas mãos. Mohammad fecha os olhos, mas ouve o mulá recitar versos do Alcorão e os gritos da desconhecida. Os homens jogam o cadáver no bagageiro de uma picape e deixam o campo. O jogo de futebol recomeça.

Mohammad conta que os julgamentos públicos eram feitos de surpresa, no intervalo de disputadas partidas de futebol, que eram a única diversão e, portanto, atraíam um grande público - os radicais controlavam a população pelo medo. Nesses dias, o Ghazni reunia mais de 30 mil pessoas. As execuções eram praticamente semanais no estádio onde agora treinam as meninas boxeadoras.

Refugiada. Essa geração que construirá o novo Afeganistão é formada predominantemente por jovens educados fora do país, que retornaram após a queda do Taleban trazendo consigo conhecimento, ideias mais liberais e um espírito quixotesco.

Shamsia Hassani nasceu e viveu no Irã até os 16 anos, quando a família refugiada dos conflitos decidiu voltar para Cabul, em 2004. Tinha 12 anos quando o 11 de Setembro ocorreu. A invasão soviética, a guerra civil afegã, o regime taleban, os atentados terroristas em Nova York são para ela apenas trechos vagos de conversas que ouviu dos pais ou leu nos livros de História.

Nos padrões ocidentais, Shamia é uma menina religiosa e conservadora. Ela defende um regime islâmico no Afeganistão, mas o modelo que tem em mente é o do Irã, onde ela cresceu e as mulheres ocupam 67% das vagas nas universidades.

Quando se mudou para Cabul parte das escolas femininas estava reaberta. Ela se formou em Relações Internacionais na Universidade de Cabul. A irmã mais velha é professora de alemão do Instituto Goethe. A segunda irmã e um irmão cursam o fundamental. Ainda assim, há dificuldades. "Foi muito difícil reunir as garotas para lutar boxe", diz Mohammad. "Elas vêm, treinam, casam-se e param de lutar. Uma delas conquistou medalha de bronze, em 2009, nos Jogos Asiáticos. Três meses depois se casou e nunca mais apareceu. Era uma lutadora fenomenal. Fomos procurá-la, tentamos convencer o marido, mas não conseguimos trazê-la de volta."

Já Shamsia seguiu em frente e não quer se casar tão cedo. Depois de formada, ela fez um curso de arte moderna e, aos 23 anos, dá aulas de pintura na universidade onde se formou. Enquanto conversa com a repórter do Estado, ela troca mensagens pelo celular com amigos artistas. Eles combinam um encontro na National Gallery de Cabul. Em 2009, ela foi selecionada entre os dez melhores artistas do país pela Turquoise Mountain, organização escocesa que financia projetos de arte e arquitetura no país. A reconstrução está nas mãos das novas gerações.

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