Cláudia Trevisan / ESTADÃO
Cláudia Trevisan / ESTADÃO

No sul dos EUA, feridas abertas custam mais a fechar

Memoriais e museus travam uma batalha simbólica contra monumentos e estátuas de líderes confederados nas principais cidades do país

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL / ATLANTA, EUA, O Estado de S.Paulo

31 Março 2018 | 19h00

“Você não vai levantar, crioulo?”, grita a voz que sai do fone de ouvido, enquanto efeitos especiais dão a impressão de que o banco ocupado pelo visitante é chacoalhado e atingido por chutes. Outras vozes se somam, em um tumulto crescente, marcado por insultos, gritos e ruídos de pratos quebrados e talheres jogados no chão. A gravação reproduz a reação contra os negros que desafiaram a segregação racial nos EUA, em 1960, e se sentaram em balcões de restaurantes destinados aos brancos. Recriada no Centro de Direitos Civis e Humanos de Atlanta, na Geórgia, a experiência dura poucos minutos e coloca o visitante na mesma situação dos negros que seguiram a filosofia da não violência, de Martin Luther King Jr., e permaneciam em silêncio, sem nenhuma reação, enquanto eram intimidados.

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A encenação não incluiu as agressões físicas que os ativistas sofriam. Muitos eram queimados com cigarros ou jogados no chão, onde recebiam socos e pontapés. Sobre outros, eram derramados copos de milk-shake ou refrigerante. Ainda assim, grande parte dos visitantes do museu se levanta dos bancos trêmulos e é confortada por uma funcionária, que espera com um abraço e um lenço de papel.

Outra sala apresenta exemplos das leis que institucionalizaram a segregação racial nos Estados do Sul, depois de sua derrota na Guerra Civil (1861-1865), na qual se opuseram ao fim da escravidão. “O casamento de uma pessoa branca com uma negra ou mulata ou uma pessoa que tenha um oitavo ou mais de sangue negro, é ilegal e nulo” diz o texto de uma das legislações. “Todos os que possuem licença para operar um restaurante devem servir exclusivamente pessoas brancas ou exclusivamente pessoas de cor e não devem vender às duas raças no mesmo salão ou servir as duas raças em qualquer lugar sob a mesma licença.”

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Aberto em 2014, o centro é uma das instituições criadas em Estados do Sul nos últimos 26 anos para narrar a violência daquele período. Uma das primeiras surgiu em Birmingham, no Alabama, em 1992. A mais recente abriu as portas em dezembro, no Mississippi. Juntas, elas disputam espaço na narrativa histórica da região com os monumentos a líderes confederados que se rebelaram contra o presidente dos EUA, Abraham Lincoln, para resistir ao fim da escravidão.

“Jefferson Davis era um traidor, que se insurgiu contra os EUA. Ainda assim, sua estátua está em frente à Assembleia Legislativa do Alabama”, reclama Michelle Browder, de 46 anos, na capital do Estado, Montgomery. Davis foi o presidente dos Estados Confederados e sua imagem está diante do edifício que foi o ponto final da marcha liderada por King a partir de Selma.

A poucos metros, está a estátua de J. Marion Sims (1813-1883), considerado o pai da ginecologia moderna. “Ele usou escravas em seus experimentos e as operava sem anestesia ou qualquer substância para reduzir a dor”, afirma Michelle, ativista e criadora do “Mais que Tours”, que organiza visitas focadas em direitos civis e no impacto da escravidão e da segregação.

Michelle lidera uma campanha para que sejam erguidas no local estátuas das três escravas operadas com mais frequência por Sims: Anarcha, Betsey e Lucy. “Se eles o querem manter, devem também homenagear suas vítimas.”

O destino de mais de 700 monumentos que celebram líderes confederados esteve no centro das demonstrações de supremacistas brancos no ano passado. A maior delas ocorreu em Charlottesville, na Virgínia. Os protestos eram contra a remoção de estátuas de dois generais que lutaram contra o Norte. O evento foi marcado pela violência e a morte da ativista Heather Heyer, atropelada por um supremacista branco.

Para muitos negros, as estátuas confederadas são símbolos de opressão e deveriam ser eliminadas. Os brancos do Sul argumentam que elas são parte de sua herança cultural. “A maioria dos monumentos foi criada na era Jim Crow, em oposição à igualdade racial”, diz análise do Centro de História de Atlanta, usando o nome pelo qual as leis de segregação eram conhecidas – Jim Crow era um personagem de teatro negro, do século 19, interpretado por um ator que pintava o rosto e as mãos de preto. Aos 75 anos, o pai de Michelle, Curts Browder, passou a infância e a adolescência em Birmingham, sob as leis da separação racial. “Eu não sinto mais raiva, mas a segregação deixou um ferrão no meu peito.”

Além da separação entre negros e brancos em espaços públicos, o período foi marcado pelo terror da Ku Klux Klan. A cidade de Browder foi apelidada de Bombingham, em razão dos 50 ataques contra negros entre 1940 e meados dos anos 60. O de maior impacto ocorreu em 1963 e matou quatro meninas negras na Igreja Batista da Rua 16. A KKK está em decadência, mas muitos se lembram ainda dos desfiles do grupo em Montgomery, na década passada.

 

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