NO TARTARISTÃO, FESTA EXIGE SIGILO

Balada escondida é considerada segura por gays

LUCIANA FADON, ESPECIAL PARA O ESTADO, KAZAN, RÚSSIA, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2013 | 02h09

Atrás da principal rua da cidade de Kazan, no centro-leste da Rússia, há um beco mal iluminado e ermo, onde estão os fundos de uma franquia do McDonald's, algumas construções fechadas e uma rua de serviço de apartamentos residenciais. Quem passa por esse local não imagina que ali fica uma das mais movimentadas baladas da região, a Pharoah.

Para encontrá-la, não basta apenas ter o endereço. É preciso ligar para o clube - portanto, falar russo - e pedir permissão. Somente assim é revelada a entrada: uma pequena porta de ferro sem identificação que dá acesso a um pátio escuro e um corredor. Dois homens de cabelo curto e camisetas pretas acompanham quem entra até uma mesa que funciona como caixa: os frequentadores devem pagar 200 rublos (cerca de R$ 14) e mostrar as identidades, conferidas minuciosamente.

O ritual que beira a clandestinidade tem uma explicação: a Pharoah é a única balada gay da capital do Tartaristão, onde a população se divide em cristãos ortodoxos e muçulmanos sunitas. O clube, fechado apenas na segunda-feira, é frequentado igualmente por homens e mulheres, na faixa dos 20 e 30 anos, de todas as orientações sexuais.

Lá, eles se dividem em compridas mesas de madeira na parte externa, onde conversam, e o andar superior, que abriga uma pista cercada por mesinhas, um bar e um pequeno palco.

A única iluminação vem do néon com inscrições e temáticas egípcias. Ao lado do bar, pequenas TVs passam clipes e filmes.

Grupos dançam em pequenas rodas ao som de música eletrônica russa com toques de balalaica. Alguns arriscam passos complicados, misturando coreografias que lembram Lady Gaga e danças regionais. Todos parecem à vontade, seja usando um vestido florido, uma maquiagem pesada ou sem camisa.

Sem alarde. Nas noites de sábado, dançarinas e drag queens cantam e apresentam danças típicas de diversos países - incluindo samba. Os artistas chegam com roupas convencionais - jeans e camiseta - e se trocam dentro do local, para não chamar a atenção na rua. O lugar fecha às 5 horas, às sextas e sábados, mas alguns frequentadores conversam e dançam sob o sol de verão russo, já às 7 horas.

"Aqui, todos se conhecem, as pessoas não vêm para paquerar. Querem ficar à vontade, ser como são, sem medo de represálias ou violência", disse uma jovem aparentando cerca de 20 anos que preferiu não se identificar.

Ela afirmou que opta pela Pharoah em vez de outros bares e baladas da cidade não apenas por se identificar mais com os frequentadores ou com a música. "Sinto-me segura. Não preciso ficar preocupada se as pessoas estão olhando ou se estou fazendo algum gesto que chame atenção, algo que seria interpretado como errado."

Questionado sobre o que acha das novas políticas do governo russo sobre homossexuais, um amigo dela, que não tirou os óculos escuros em nenhum momento naquela noite, respondeu com um sorriso constrangedor.

"Na verdade, não é algo que eu pense muito. Não conversamos muito sobre isso", afirmou, levantando os ombros para a amiga. "Tentamos só nos divertir e viver da melhor maneira possível."

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