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No tédio eleitoral francês, as mulheres são a novidade

Como propor uma imagem do tédio mais convincente que a de uma eleição presidencial francesa? Idéias convencionais, personagens conhecidos de longa data (Chirac, em primeiro lugar. E seu desafiante, um pouco menos antigo), retórica agonizante há cinqüenta anos, discurso em estado de ?coma profundo?... Pode-se renovar o espetáculo? Só vejo duas possibilidades: a primeira seria fazer um grande jogo, talvez até um jogo televisivo, cujo objetivo seria descobrir, nesses discursos eleitorais já gastos, uma idéia nova...A segunda solução consistiria em focalizar as luzes não sobre os próprios candidatos, mas sobre suas mulheres. Primeira vantagem das mulheres: trata-se de um fenômeno recente. Até agora, as esposas dos candidatos ficavam ?nos bastidores?. A senhora de Gaulle era certamente uma pessoa ?de classe?, mas só aparecia na sombra de seu imponente marido. Já a senhora Mitterrand ocupava a frente do palco. Mas esse palco não era o mesmo de seu marido, François Mitterrand. Mitterrand dirigia a França. Enquanto isso, sua mulher lutava contra a fome do mundo, simpatizava com os drusos, Fidel Castro, o comandante Marcos, etc.Neste ano de 2002 (que verá acontecer as eleições presidenciais em menos de 100 dias), as esposas mudam de status. Sobem ao pódio, aparecem sob a luz dos flashes. E eis a grande inovação: em vez de fazerem um espetáculo para sua promoção pessoal, fazem-no para os candidatos, seus maridos.Em outras palavras, é um ?casal?, e não um indivíduo, que se apresenta aos eleitores... A mulher de Chirac, atual Presidente, é uma dama que tem raízes, ao mesmo tempo, no século XIX e na nobreza do interior da França.Não se trata de aparências. Uma verdadeira ?dama?. Freqüentemente nas igrejas. Por muito tempo pouco visível. Mas, há alguns anos, deixou a penumbra. Adora aparecer na televisão. Promete uma ação caritativa para crianças nos hospitais.Com essa finalidade, associou-se ao esportista mais querido pelos franceses, um campeão de judô, peso pesado. David Douillet. Forma com esse simpático gigante uma equipe pitoresca e benquista. Mas, e aqui está a novidade, Bernadette não se contenta em ser a esposa de Chirac. Tornou-se uma mulher ?política?.Não tem medo de se pronunciar sobre as grandes questões políticas. Faz discursos em público, evidentemente em apoio a seu marido... E a coisa funciona. Ela acaba de publicar um livro de cunho bastante político do qual foram vendidos, em algumas semanas, 140.000 exemplares.Sua popularidade é tal que é considerada como um dos ?trunfos? de Chirac. Bernadette Chirac tem outra vantagem: seu pensamento é reacionário, conservador. Em relação aos problemas sociais ? moral, costumes etc... é uma senhora à moda antiga. Logo, ela permite que seu marido acalente, ao contrário, idéias mais modernas, mais progressistas, mais sociais.Em conjunto, o casal Chirac consegue agradar aos gostos mais diversos: Bernadette encarrega-se da imobilidade, Jacques, do movimento. Bernadette tranqüiliza os velhos ?notáveis? do interior da França. Jacques seduz os executivos jovens, dinâmicos e ligeiramente ?sociais?.Do lado oposto, o primeiro-ministro, Lionel Jospin, também tem uma mulher. Ela se chama Sylviane. É a antípoda de Bernadette Chirac: jovem, intelectual até a ponta dos cabelos, bem informada, filósofa conceituada, ela se recusou por muito tempo a participar da disputa política.A senhora Jospin dá aulas na faculdade. Publica livros de filosofia. Mas, recentemente, mudou: ela que até recentemente não queria saber de televisão (a não ser quando se tratava de discutir questões filosóficas), resolveu aceitar comparecer a alguns programas.Ela não fala diretamente da futura eleição. Mas suas aparições não são inocentes. Por exemplo: apresenta-se como ?feminista? ou pelo menos sensível aos problemas das mulheres.Já por esse motivo, mas também pela linguagem muito intelectual, muito moderna que utiliza, representa, exatamente, o contrário da senhora Chirac, uma imagem de mulher moderna de esquerda, aberta aos ventos da modernidade.De maneira que, mesmo que não o admita abertamente, a senhora Jospin também terá um peso muito grande sobre a imagem de seu marido e, portanto, sobre a futura eleição presidencial.

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