No Texas, a vida esmorece

Secas cada vez mais sérias na região podem durar décadas, além de criar a ameaça de um novo deserto

Richard Parker, The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2011 | 00h00

A seca que castiga o Texas é um desastre natural em câmera lenta. A própria vida desacelera, esmorece e começa a desaparecer. Nas baixas colinas a oeste de Austin, o chão sob minhas botas está esturricado e rachado, o córrego que passa perto da casa está seco e branco como o osso. Até as águas do Rio Blanco, normalmente frescas e alimentadas pela nascente, estão mornas e paradas.

As secas já afetaram o Texas antes, mas, desta vez, o Estado se vê prisioneiro de um calor mortal. Os moradores da região dizem que esta seca é diferente de qualquer outra que o Texas já tenha visto. Sob certo ponto de vista isto é mesmo verdade; trata-se da pior seca já registrada num único ano. Mas, de acordo com aquilo que os cientistas estão nos dizendo, as secas na região podem durar décadas. Pior ainda: quando a chuva finalmente cair, ela vai evaporar cada vez mais rápido enquanto o sudoeste americano se torna cada vez mais seco, ameaçando transformar o Texas num deserto.

Por pior que seja a seca deste ano, a perspectiva de longo prazo nos diz que a situação pode piorar muito.

A seca já está mudando a nossa maneira de encarar a terra, de fazer negócios e de viver nossas vidas. Em todo o território do Texas, maior produtor de carne entre os Estados americanos, os pecuaristas estão vendendo os rebanhos precocemente, perdendo milhões de dólares, ou tentando esperar mais enquanto assistem aos animais morrendo por falta de água.

No Rancho Storm, que compreende 2.500 hectares de colinas texanas, as mudas estão morrendo porque suas raízes são curtas demais para chegar à água que se esconde além do solo de calcário e caliche, como os carvalhos espanhóis, mais velhos, e os bordos meridionais. "Faz muito tempo que não vejo a situação tão ruim", disse o proprietário do rancho, Josh Storm.

No Planalto de Edwards, a noroeste daqui, as perdizes, tão apreciadas pelos caçadores, já tiveram sua população reduzida à metade, e tudo indica que haverá menos aves ainda no fim do ano. No norte, os agricultores estão arando a terra para se livrar do trigo moribundo.

No árido oeste do Texas, o temor de um segundo período semelhante ao Dust Bowl (1934-40), marcado por tempestades de areia, é sussurrado nas comunidades menores.

É claro que o Texas é um Estado urbano, e a situação nas cidades não é tão ruim. Mas, mesmo em Austin e Dallas, em Midland e Denton, coiotes têm se aproximado dos gramados suburbanos em busca de alimento e água.

Lembrando um pouco uma banheira cheia até a metade, o Lago Travis, de Austin, está fechando muitos de seus populares atracadouros para pequenas embarcações. As equipes das emissoras locais de TV têm preparado alimentos no painel dos carros para mostrar como faz calor: em Austin, assaram uma fornada de biscoitos. Para não ser deixada para trás, outra equipe de Oklahoma chegou a fritar um bife.

Olhamos uns para os outros, na fila do café ou enquanto esperamos o semáforo abrir, e perguntamos, em silêncio: quanto tempo vai demorar desta vez? Em geral, as secas no sudoeste americano são provocadas pelo La Niña, fenômeno climático que envolve o resfriamento das águas do Pacífico, que empurra para o continente o ar quente e seco, afastando a chuva do Texas, do Novo México e do Arizona. No Texas, a pior seca de todos os tempos, que foi do fim dos anos 40 até o fim da década de 50, castigou o Estado e trouxe consequências catastróficas para a terra, os rebanhos da pecuária e a população. Mas esta foi apenas a mais longa seca desde que os medidores pluviométricos começaram a ser usados para manter um registro das chuvas - prática que teve início em 1895.

Na verdade, o Texas é há muito afetado por imensos períodos de seca, eventos que podem durar 30 ou até 40 anos. Esta história é relatada pelo interior do tronco dos ciprestes desfolhados que acompanham as margens dos córregos e rios da região central do Estado. Pesquisadores do Texas e do Arkansas analisaram amostras de 300 troncos, criando um registro dos anéis formados pelas cascas das árvores que se estende até períodos pré-colombianos. Uma das árvores, ainda viva, era apenas um broto em 1426.

O registro mostra que, no fim do século 18 e início do 19, antes da colonização americana e mesmo antes que se instalasse no local comunidades espanhola e mexicana, vários períodos de seca foram mais extensos do que a grande seca dos 40-50. A década mais seca foi de 1716 a 1725, e os piores 20 anos foram de 1697 a 1716. Houve numerosas secas de 30 e até 40 anos. A pior delas castigou o Texas e o México por quase meio século, de 1450 a 1489.

Mas o futuro, infelizmente, deve ser pior do que o passado. "O Texas vai ficar mais quente e mais seco", disse Malcolm Cleveland, professor da Universidade do Arkansas e chefe da equipe de pesquisadores. De fato, os modelos climáticos mostram que o aumento nas temperaturas e as condições mais áridas das últimas décadas devem se acentuar no século 21.

De acordo com um estudo publicado pela revista Science em 2007, "em questão de anos ou décadas, as secas devem se tornar o novo padrão climático do sudoeste americano". A chuva vai se tornar mais rara e vai evaporar mais rápido, o que fará as imensas secas do passado parecerem breves momentos periódicos de secura. E isto vai decorrer em parte do aumento nas emissões de carbono, um fato que o Texas terá dificuldade em aceitar.

Em Austin, o governador Rick Perry está preparando sua candidatura à presidência. Mas ele tem pouquíssimo a dizer a respeito da seca que está devastando o seu Estado. Em abril, o governador organizou uma prece pela chuva. Mas, a julgar pelo céu azul, límpido e fervente, parece que ninguém está ouvindo este apelo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É EX-CORRESPONDENTE DA KNIGHT RIDDER NEWSPAPERS PARA ASSUNTOS RELACIONADOS À DEFESA E FOI EDITOR-ASSISTENTE DA REVISTA "THE NEW REPUBLIC"

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.