No tribunal, líder da AP nega acusações israelenses

Na teatral abertura do inédito julgamento de um líder da Autoridade Palestina, Marwan Barghouti erguendo as mãos algemadas, negou nesta quarta-feira as acusações israelenses de que teria orquestrado dezenas de ataques contra civis. "Continuarei lutando até conquistar minha liberdade", gritou ele. Barghouti, primeiro importante líder palestino levado a uma corte israelense, iniciou sua inspirada autodefesa logo após entrar na Corte Distrital de Tel Aviv, num julgamento que também trará à tona dramas mais amplos da política no Oriente Médio. O Estado judeu acredita ter fortes evidências de que Barghouti e outros líderes da Autoridade Palestino, inclusive o presidente Yasser Arafat, são diretamente responsáveis pela atual onda de ataques contra civis israelenses. Barghouti pediu e recebeu dinheiro de Arafat e teria utilizado o dinheiro para comprar armas para militantes que realizaram atentados, acusou a promotoria no indiciamento. Barghouti "era uma figura central na tomada de decisões" dos grupos militantes e trabalhava muito perto de Arafat, "que está à frente das organizações terroristas", prossegue o indiciamento. Barghouti, por sua vez, recusou-se a reconhecer a corte e declarou que a ocupação militar israelense da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, que já dura 35 anos, é a principal fonte de tensões na região. "A política de assassinatos, toque de recolher, demolições de casas e ocupação não trarão segurança", disse Barghouti antes do início formal do processo. "A paz só será obtida de uma forma: com o fim da ocupação." Barghouti foi levado duas vezes ao interior da corte para em seguida ser retirado pela polícia por conversar com jornalistas que ocupavam a galeria dos visitantes. O barbudo Barghouti, vestido em um uniforme marrom da prisão, alternava suas palavras em hebraico, árabe e inglês enquanto gesticulava muito com as mãos algemadas. "O levante será vitorioso", declarou ele, "Baruch Hashem", ou "louvado seja Deus", uma expressão hebraica normalmente utilizada por judeus em vigília. Jawad Boulos, advogado de defesa de Barghouti, disse que não convocaria testemunhas e afirmou que seu cliente não reconhece a jurisdição da corte israelense. Barghouti, de 43 anos, é o líder do movimento político Fatah na Cisjordânia. Orador habilidoso e carismático, ele era um dos líderes mais assíduos nos protestos de rua nos primeiros dias do levante palestino, iniciado em 28 de maio de 2000, depois de o hoje primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, visitar a Esplanada das Mesquitas, um local de Jerusalém sagrado para judeus e muçulmanos. Ele foi detido por soldados israelenses na Cisjordânia em 15 de abril e é o primeiro importante líder palestino a ir a julgamento em quase dois anos de violência no Oriente Médio. Enquanto Barghouti falava livremente, o juiz Tzvi Gurfinkel pediu a ele que se calasse e avisou que não permitiria ao réu "transformar a corte num palanque político". Após o registro do indiciamento, Gurfinkel marcou a próxima audiência para 5 de setembro. Após o estabelecimento da Autoridade Palestina, em 1994, Israel havia parado de prender e julgar líderes palestinos. O jurista israelense Moshe Negbi comentou que Barghouti é o único líder palestino já levado a uma corte civil. Israel já julgou outros líderes palestinos em tribunais militares, mas isto não acontece já há alguns anos. Barghouti garante ser apenas um político, mas Israel o acusa de organizar ataques para a milícia Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, ligada à Fatah. O indiciamento o acusa de estar ligado a 37 diferentes atentados que deixaram 26 mortos nos últimos dois anos. A promotora Devorah Chen disse que seu caso inclui depoimentos de militantes dos Mártires de Al-Aqsa capturados recentemente por Israel. A promotoria cita o caso de Raed Karmi, um proeminente líder das Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa morto em janeiro por uma bomba plantada pelas forças de segurança israelenses. Barghouti teria visitado a família de Karmi durante o velório e dito a outros militantes que "vingassem a morte de Raed Karmi", diz o indiciamento. Barghouti é o segundo líder mais popular entre os palestinos, atrás apenas de Yasser Arafat. Como líder da Fatah, Barghouti mantinha contatos regulares com militantes políticos também ativos nas Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa. Quando israelenses e palestinos negociavam no início dos anos 90, Barghouti criou laços de amizade com algumas autoridades israelenses e ajudou a convencer ativistas da Fatah a reconhecerem a existência do Estado judeu. No entanto, após o início da atual intifada, Barghouti adotou uma postura menos moderada e dizia que os palestinos tinham o direito de expulsar os israelenses da Cisjordânia e da Faixa de Gaza à força. Autoridades israelenses dizem que Barghouti envolve-se gradualmente com os ataques, primeiro defendendo-os, depois repassando dinheiro aos militantes e finalmente organizado-os. US$ 14 milhões Em outro desdobramento, o ministro israelense das Relações Exteriores, Shimon Peres, reuniu-se nesta quarta-feira com cinco ministros palestinos, disse seu porta-voz. Esta foi a maior reunião com representantes palestinos desde que Peres retomou o contato com eles em junho. Um assessor de Peres disse que Israel concordou em transferir US$ 14 milhões referentes a impostos que deveriam ser repassados à Autoridade Palestina. Eles também discutiram formas de amenizar as dificuldades econômicas enfrentadas pelos palestinos. Enquanto isso, soldados israelenses assassinaram um líder do Hamas na aldeia cisjordaniana de Tubas, informaram militares e moradores. De acordo com o Exército, Nasser Jerar, de 44 anos, planejava diversos tipos de ataque, inclusive contra um dos prédios mais altos de Israel. Jerar perdeu as duas pernas e um braço quando armava uma bomba em maio de 2001, mas continuou na ativa, dizia o comunicado. De acordo com moradores, uma retroescavadeira do Exército demoliu a casa do militante com ele dentro do local. Um vizinho enviado pelo próprio Exército para pedir a Jerar que se rendesse foi baleado e morto. Segundo familiares, o vizinho de Jerar foi assassinado pelo Exército. Os militares insistem que o tiro saiu de dentro da casa. Outra casa foi destruída em Dahariya, no sul da Cisjordânia. Autoridades israelenses alegam que a ameaça de expulsar familiares e a destruição da casa das famílias de militantes palestinos poderá conter os ataques.

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