DENIS CHARLET / AFP
DENIS CHARLET / AFP

No tribunal, Strauss-Kahn diz não ter cometido 'nem crime, nem delito'

Ex-diretor-gerente do FMI prestou testemunho no processo por proxenetismo e disse não saber que prostitutas estavam em festas 

Andrei Netto, correspondente / Paris, O Estado de S. Paulo

10 de fevereiro de 2015 | 10h34

PARIS - O ex-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI) Dominique Strauss-Kahn concedeu seu primeiro depoimento nesta terça-feira, 10, no julgamento por "proxenetismo grave" do qual é um dos 14 réus, na cidade de Lille, no norte da França. Reafirmando seus depoimentos anteriores ao Ministério Público, o economista disse não ter cometido "nem crime, nem delito" e garantiu não saber que as jovens presentes nas festas libertinas eram prostitutas.

O depoimento de Strauss-Kahn é até aqui o ponto alto do Caso Carlton, como é chamado o inquérito sobre a suposta rede de prostituição organizada em Lille e Paris, na França, e em Washington, nos Estados Unidos - onde fica a sede do FMI.

Em sua chegada ao Tribunal Correcional de Lille, Strauss-Kahn foi surpreendido por três ativistas do grupo feminista Femen que protestaram aos gritos de "Macs-clientes declarados culpados!". As três jovens foram então afastadas pela polícia, que liberou o acesso do automóvel ao estacionamento fechado da corte.


No final da manhã, Strauss-Kahn foi chamado pelo juiz Bernard Lemaire para seu depoimento, mas não falou muito. "Eu não cometi nem crime, nem delito", reiterou, em tom sóbrio e seco, segundo os presentes. De acordo o ex-diretor-gerente, as noitadas de sexo foram pontuais, não envolviam crime organizado e nem mesmo estava clara a presença de prostitutas. "Quando lemos o processo, temos a impressão de uma atividade frenética", argumentou. "Houve quatro encontros por ano durante três anos. Não era uma atividade desenfreada."

Questionado sobre se estava informado de que as garotas envolvidas eram prostitutas, Strauss-Kahn afirmou que não. O juiz então renovou sua questão perguntando se o economista não havia mudado de posição sobre o "aspecto prostitucional" das festas libertinas. "Sobre o conhecimento do 'aspecto prostitucional'? Não", disse Strauss-Kahn.

A estratégia da defesa desde o início do processo é afirmar que não havia nenhuma razão para crer que se tratava de prostituição, mas apenas de libertinagem - o que não é crime na França. Mas, ainda pela manhã, o juiz ouviu o depoimento de ex-prostitutas, entre as quais Malika, que participara das festas. 

Questionada sobre se Strauss-Kahn poderia não saber que ela era uma prostituta, a jovem respondeu ser impossível. "Me parecia, a partir de seu comportamento, que todo mundo estava ciente. Não poderia ser diferente", disse ela. Malika também afirmou ter sido submetida por Strauss-Kahn a sexo anal contra sua vontade, apesar de ter deixado clara sua aversão. A jovem argumentou que cedeu por precisar do dinheiro.

Por outro lado, Mounia, uma jovem que também manteve relações sexuais com Strauss-Kahn, argumentou que em nenhum momento dinheiro era evocado durante as noitadas. "Não houve dinheiro evocado, tarifa ou o que quer que seja", garantiu.

O julgamento, realizado desde a segunda-feira 2 deve se prolongar por até duas semanas. Strauss-Kahn pode pegar até 10 anos de prisão e pagar multa de até € 1,5 milhão. Outros 13 réus fazem parte do processo.

O Caso Carlton é o segundo grande escândalo sexual do qual o ex-diretor-gerente do FMI é protagonista. O outro, o Caso Sofitel, aconteceu em 2011, em Nova York, quando Strauss-Kahn foi acusado de estupro por uma camareira do hotel, o que lhe valeu a demissão do fundo e o ostracismo político, no momento em que era o favorito disparado das pesquisas para a presidência da França em maio de 2012. O caso foi encerrado em dezembro de 2011, após acordo entre as partes.

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