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Diferença de Kast para Trump e Bolsonaro é gritante; leia análise

Apesar do currículo e dos vínculos familiares, Kast não parece ter hesitado em reconhecer o processo democrático chileno que tirou dele a faixa presidencial

Laura Kapurska, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2021 | 15h00

A imprensa, ao menos a brasileira, chama o candidato presidencial derrotado chileno José Antônio Kast de “Bolsonaro chileno”. Seu slogan durante as eleições foi ordem e progresso - uma ironia para nós, brasileiros. Ele também é comparado ao ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Kast quer revogar o aborto legal no Chile, é contra o casamento igualitário, deseja retirar o Chile do Conselho de Segurança da ONU, é contra "ideologia de gênero" e é a favor de diminuir impostos, entre outras coisas. Talvez seja daí que venham as comparações.

Recentemente descobriu-se que o pai de Kast era filiado ao partido nazista alemão na época da segunda guerra. O irmão de Kast foi ministro durante a ditadura de Pinochet. Kast pede para não ser taxado de "ultra-direitista". Também se diz não "pinochetista'', mas diz reconhecer as "obras modernizadoras" do governo ditatorial de Pinochet e o trabalho do seu irmão como ministro em "várias dimensões do governo militar". 

Apesar do currículo e dos vínculos familiares, Kast não parece ter hesitado em reconhecer o processo democrático chileno que tirou dele a faixa presidencial. No próprio domingo, ligou para o presidente eleito, Gabriel Boric, e o parabenizou pela vitória. Kast disse, em um tweet, que Boric merece "respeito e colaboração construtiva" dos chilenos.

A diferença de Kast para Trump e Bolsonaro já é gritante. Trump continua não reconhecendo o resultado das eleições que o fizeram perder a reeleição. Bolsonaro desafiou o próprio processo democrático brasileiro que o elegeu. Falava de forma vaga que as eleições de 2018 haviam sido fraudadas. Mais recentemente disse que teria ganhado, na verdade, no primeiro turno. Isto não fosse a fraude que não pode provar que ocorreu. Bolsonaro nem perdeu a reeleição e já contesta os resultados de 2022 - caso perca, claro.

Não sei como seria um governo de Kast - e não saberemos. Ao menos, não pelos próximos quatro anos. Mas, sabemos como ele se comportou diante da derrota. Isso talvez diga algo ao seu respeito. Não sei ao certo. Dizem que no triunfo e na derrota deve haver decência. Mas, certamente diz algo a respeito da sociedade e das instituições chilenas. Ao menos nesta eleição, não houve espaço para a contestação do processo democrático.

Infelizmente isto não acontece no Brasil desde 2014, quando o então candidato Aécio Neves contestou o resultado das eleições que reelegeram Dilma Rousseff. O fomento à descrença democrática continuou quando parte da esquerda não aceitou o impeachment de Rousseff dois anos depois, dizendo que se tratava de um golpe de estado. Vendo o currículo de Kast e sua atitude diante da derrota, meu maior sentimento é de preocupação. Com o Brasil. Em que buraco nos metemos?

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