Alexei Nikolsky, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP
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No vácuo das sanções

Brasil pode aproveitar sua tradicional neutralidade para estreitar os laços com a Rússia

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

18 Março 2018 | 05h00

Três certezas cercam a eleição na Rússia. O presidente Vladimir Putin, no poder desde 2000, ganhará mais seis anos de mandato. A comunidade internacional continuará adotando sanções contra o país. Isso abrirá ainda mais espaço para a cooperação e o comércio entre Brasil e Rússia.

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O governo britânico expulsou, na quarta-feira, 23 diplomatas russos e anunciou que poderá congelar ativos do país usados para “atacar o Reino Unido”. Foi uma retaliação ao envenenamento do ex-agente duplo Serguei Skripal e sua filha, na cidade de Salisbury. Apesar da saída britânica, prevista para daqui a um ano, a União Europeia, assim como a Alemanha e outros países, solidarizou-se com o Reino Unido.

No dia seguinte, o secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, anunciou o bloqueio do acesso de 19 russos ao sistema financeiro dos EUA, por interferência na eleição de 2016. Ele citou também o ciberataque contra a Ucrânia e outros países, em 2017. 

As sanções adotadas contra a Rússia, em 2014, por seu apoio aos separatistas na Ucrânia e pela anexação da Crimeia foram dirigidas a autoridades, empresários e à indústria bélica. Em retaliação, a Rússia suspendeu a importação de alimentos de EUA, Canadá, UE, Noruega e Austrália.

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Neste momento, as exportações do Brasil para a Rússia estão prejudicadas pela suspensão da compra de carne bovina e suína. Os russos afirmam ter encontrado o hormônio de crescimento ractopamina em ambas as carnes brasileiras. Seu uso é proibido na carne bovina. A Rússia, mais rigorosa, também não o aceita na carne suína. O Brasil segrega seus suínos para atender o mercado russo. Às vezes, ocorrem falhas.

O Brasil é o maior fornecedor de ambas as carnes para a Rússia. O comércio bilateral voltou a crescer, depois das crises de 2015 e 2016: recessão no Brasil e queda do preço do petróleo russo. As exportações brasileiras aumentaram 19% e as importações, 31%. O superávit brasileiro caiu de US$ 279 milhões para US$ 92 milhões. 

Além de carne, o Brasil vende compressores, calçados e aviões para a Rússia. Importa fertilizantes, gás, petróleo e helicópteros militares. A Rússia pressiona o Brasil a comprar seu trigo e pescados. As maiores empresas russas têm escritório no Brasil. A estatal Rosneft prospecta gás na Bacia do Solimões. O país tem interesse em fornecer trilhos, trens e corvetas ao Brasil. 

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Quatro estações de georreferenciamento da empresa russa Glonass operam no Brasil, assim como um observatório de detritos espaciais. São oportunidades para cientistas brasileiros aprenderem com os russos. Paradoxalmente, um acordo de cooperação firmado em março de 2015 não teve resultados concretos ainda em razão da demora do Ministério da Ciência e Tecnologia do Brasil em estabelecer um diálogo regular com os russos.

O impeachment de Dilma Rousseff, que se alinhava ideologicamente com Putin, causou ruído nas relações. Quando o embaixador Antonio Luís Espínola Salgado apresentou sua credencial, em 2016, o vice-chanceler Serguei Ryabkov pediu esclarecimentos sobre a troca de governo. O embaixador explicou que fora feita de acordo com a Constituição, e não voltaram ao assunto.

Michel Temer já era conhecido. Quando vice, chefiava as delegações que se reuniam periodicamente, tendo como contraparte o primeiro-ministro, Dmitri Medvedev. Em sua visita em junho, foi recebido com banquete de oito pratos, réplicas de cartas do imperador Pedro II ao czar Nicolau II e a companhia de Putin para assistir ao Balé Bolshoi – sinais de apreço. Com o crescente isolamento russo, o Brasil pode estreitar as relações com a Rússia. Não para abandonar sua tradicional neutralidade, mas para se aproveitar dela.

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